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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Pintor Setubalense Gomes Martins - 1922-1994 – Tributo a um talentoso artista português, que não deve ser esquecido - Nascido na Cidade Raínha do Sado

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

Retrato a óleo, inédito, sobre tela, 80X100, de Augusto Gomes Martins, natural de Setúbal - Hoje quase esquecido, teve grande destaque internacional a partir de meados do século XX. - Refere a exposição, apresentada, em 24 de Março,na Casa da Baía, em Setúbal, por ocasião dos 90 anos do nascimento do artista.

Dizendo que " a recuperação da memória do artista deve-se aos familiares, interessados em perpetuar na cidade onde nasceu Gomes Martins o nome de um excelente pintor, cujos trabalhos ainda hoje são transacionados com frequência no mercado internacional de arte" -

Sim, pena é, que, alguns leiloeiros, nem sempre saibam valorizar a arte, e toca a despachar para logo arrecadar, sem demora, seja a que preço for, o que vem à rede é peixe; mais das vezes aquém do merecido mérito da obra e do artista

Há uns anos, uma pessoa amiga, pediu-me para colocar no mercado, duas dezenas de obras inéditas de Almada Negreiros e de Sara Afonso, mulher do artista, que também era uma excelente pintora. À porta da entrada do leilão, observei vários olhos fitos e a bichanarem uns com outros, contudo, só um deles é que licitou. - Tudo, no seu conjunto, não foi além dos cinco mil contos, uma ninharia

É referido, também no mesmo texto daquela exposição, que, Augusto Gomes Martins nasceu em Setúbal, cidade onde a família desenvolveu durante toda a vida um negócio de distribuição alimentar. Cedo saiu da terra que o viu nascer e partiu à descoberta do mundo. A sua curiosidade caracterizava-o. Irrequieto e aventureiro, percorreu todos os locais que a sua necessidade de observação exigiu.

Conviveu pouco com outros artistas – as constantes viagens não o permitiam – mas manteve amizades, amigos de muitas conversas sobre as preocupações que as telas em branco desferem nas consciências.

O mundo preencheu o seu tempo. Sentiu-se bem em todos os lugares que visitou, sempre acompanhado por Maria Adelaide, sua companheira de todas as incursões, conheceu galeristas, pintores e amigos de influências várias. Essas convivências e a sua própria capacidade de relacionamento permitiram que fizesse exposições em todo o mundo. Chegou a ficar temporadas a pintar em paisagens distantes. As encomendas assim o exigiam. Retratou papas e mendigos. Empresários influentes e pescadores. Amigos de família e desconhecidos. Gente a quem conferia a importância de passar para a tela. Desenhava muito e muito bem. Foi paisagista de mérito. Pintou retrato realista. Retratou com laivos caricaturais. Experimentou com sucesso a abstração: alguns dos seus mais interessantes trabalhos inscrevem-se neste registo.

Viveu intensamente e morreu discretamente, em Lisboa, em Janeiro de 1994"


CIDADE DE SETÚBAL -  LONGE VÃO OS TEMPOS ÁUREOS  DA PRINCESA DO SADO 

No entanto, ainda persistem ruas e edificios, um património edificado bonito, que não foi desfigurado e  vai dando rosto e identidade  à cidade  - Aos  cerca de 120 mil habitantes, numa área que se estende por 170 km², composta, em grande parte, pela Reserva Natural da Serra da Arrábida e voltada para uma belíssima costa marítima. 

Os brasileiros tecem rasgados elogios a esta cidade, nas páginas da internet, aconselhando os que desejavam "viver cercados pela natureza, em uma cidade tranquila e com ótima qualidade de vida Dizendo que “a cidade é a 23ª maior do país, tem uma excelente infraestrutura com hospitais e centros de saúde, diversas escolas do pré ao ensino médio, instituições politécnicas, bancos, pequenas e grandes empresas, e um comércio bem atrativo.

No entanto, também se constata, noutras pesquisas, que, para quem dependa do ordenado mínimo, tem que saber gerir bem o seu orçamento – isto porque se diz  que um “Apartamento (1 quarto) no Centro da Cidade          542,86 €; Apartamento (1 quarto) Fora do Centro  464,29 €; Apartamento (3 quartos) no Centro da Cidade        800,00 €

Por isso, longe vão os dias, das rendas vitalicias e  em que  as fábricas setubalenses funcionavam e proporcionavam milhares de postos de trabalho. Pagos a preços miseráveis, é certo,  mas ao menos ainda havia algo em que lançar a mão para sobreviver. 

Agora, o que por lá se descobre, tal como por muitos pontos do país, são também os escombros das antigas unidades industriais. -  Por força da sua deslocalização para outras paragens e também das  cadeias de hipermercados, que vieram dar a grande  machadada em pequenos e médios comerciantes.

Mas há que procurar inovar ou desenrascar - Como é sabido, há sempre quem procure alternativas e não cruze os braços. - É o exemplo de que lhe venho recordar de Eduardo Silva, numa visita que fiz, em 2015, à Mercearia Confiança do Troino, uma das mais antigas de Setúbal, situada na Praça Machado dos Santos, antigo Largo da Fonte Nova, em Setúbal, fundada em 1926,  recuperada para museu e espaço cultural, desde o principio daquele ano

 A qual, pela  singularidade revelada,  sim, por documentar profusamente   uma certa época, já  atraiu 

uma equipa de filmagens para uma telenovela, com uma  cena que decorre no bairro da Fonte Nova, vizinha da  Troino, “cuja origem se atribui a indivíduos vindos de Tróia no século XIII, nas cercanias do Convento, onde estão instaladas as freiras da congregação de Madre Teresa de Calcutá”.


Espaço cultural este  que evoca costumes e traz à lembrança muitas estórias que os mais velhos gostam de reviver e os mais novos de ouvir contar – Pelo que se antevê, palco   de agradáveis momentos culturais e de convívio, tal como sucedeu  com a apresentação  "Do Mapa Cor de Rosa à Europa do Estado Novo// Diplomacias, macroeconomia.. e ainda o colonato judaico para Angola, de autoria do jornalista e escritor Álvaro Henriques do Vale, à roda de um grupo de amigos e curiosos., ao mesmo tempo que iam petiscando uns saborosos nacos de presento e um nutritivo pão, acompanhados de pastéis de nata e um vinho da região, a condizer, a que me referi neste blogue, em  https://templosdosol-chas-fozcoa.blogspot.com/2015/04/mercearia-em-museu-num-portugal-pobre.html 




Diz o herdeiro de uma dessas velhas mercearias, que o negócio agora já não tem viabilidade.


 
Os hábitos alteraram-se. Mas há um passado, com a sua história e que não deve ser esquecido, pelos mais novos.  – Sim, a figura do antigo merceeiro, não era só a do vendedor de géneros alimentícios  mas também o homem a quem competia aferir comportamentos sociais, das pessoas que tinham que ter um carimbo da mercearia para atestar o seu grau de idoneidade, nomeadamente para os contratos de rendas de casas, de água e eletricidade,  era praticamente uma instituição – E  é justamente esta e outras memórias que,  Eduardo Silva, antigo professor do liceu,  engenheiro químico-industrial aposentado da papeleira Inapa,  aos 75 “anos, decidiu  preservar. 

Ao  transformar uma antiga mercearia familiar num espaço cultural,  num lugar de tertúlia e de convívio de várias gerações.  Onde pais, filhos, a vós e netos, numa espécie de museu ao vivo, comercial e sociológico, de mostruário de utensílios (desde os pesos e balanças, às tulhas, talhas e caixa registadora), aos produtos e às embalagens, que os caracterizaram e deixaram de aparecer no mercado, ali possam convier e recordar os tempos que marcaram uma época. 


Este o louvável objetivo de Eduardo Silva, ao recuperar a típica do "Sr . César"”, como preito de homenagem ao seu pai, o Sr. César Figueiredo da Silva, (1904- 1998)– com a mesma imagem de como a conheceu na sua adolescência, e ao longo de muitos anos da sua vida, sem apoios oficiais mas com muito empenho, de modo muito carinhoso, afetivo, com fins  de carácter evocativo e pedagógico, especialmente às crianças e à população escolar.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

HALLOWEEN EM PORTUGAL - MAIS FOLIA DE QUE MEMÓRIA - Esquecendo os milhares de vitimas perseguidas e torturadas pela tenebrosa Santa Inquisição

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador 

Na minha adolescência e nos arredores da minha aldeia, havia um ritual pagão, que se realizava, em certas noites do ano, no interior do terreiro do antigo solar do Vale Cheiinho, situado no alto das Quintãs, termo de Mêda, mas que sempre pertenceu a proprietários da minha freguesia, Chãs. Foz Côa - Das povoações de Quintãs, Relva, da freguesia de Longroiva, naquele tempo, haviam umas quantas "irmãs" que ali também se juntavam - Além das que vinham de Tomadias e Santa Comba - Concelho de Foz Côa.


Era um culto, constituído apenas por mulheres de idade, não casadas, que viviam das jeiras (das mondas e das ceifas) ou de atividades ambulantes, que ali se reuniam, vindas de várias aldeias limítrofes, acompanhadas por cachopos, crianças, vestidas com batas azuis - Elas vestiam de negro e embrulhadas em xailes escuros 

Creio que também ainda por lá perpassa o espírito de algumas das vítimas da intolerância católica. Pois a igreja nunca compreendeu, nem perdoou que, uma tal quinta, centenária, onde não faltava nada - desde a forno do pão, lagar de vinho e de azeite, cabanal para gado, fonte e caminho romano -, não existisse uma capela. E a razão era simples: é porque, ali, quem vivia naquele tão frondoso e fértil vale ou canada, festejava mais o espírito da Terra, a Mãe-Natureza e as suas divindades. Tal tradição - mesmo depois da quinta cair no esquecimento e em ruínas - persistiu até aos anos 60. Era um local de culto e de peregrinação por membros das várias irmandades existentes nas freguesias vizinhas.

Halloween é um termo importado dos países anglo-saxônicos, É uma festa pagã que pretende relembrar e festejar antigos cultos pagãos. Só que, lá tal como cá, é praticamente mero folclore, uma espécie de diversão carnavalesca. E poucos se lembrarão de que, embora seja uma festa associada a momentos de prazer e de misticismo, traz atrás de si memórias de tenebrosos tempos, em que milhares de vidas foram torturadas, enforcadas ou queimadas, por não seguirem os ditames do ocultismo católico, acusadas de práticas hereges.

Levado pela curiosidade da minha inocência, tomei parte nesses cultos e guardo curiosas recordações. Aprendi a gostar da noite (claro, no campo), a contemplar a sua beleza noturna e o seu silêncio. Por isso, e na medida do possível, não deixo de lá me deslocar, entre outras peregrinações que costumo fazer ao Monte dos Tambores. Há, no entanto, quem, depois do pôr-do-sol, nem sequer ouse passar fronte ao enorme portal que dá acesso ao terreiro amuralhado, receoso de que por lá lhe apareça o chamado “homem do gorro vermelho”

Ninguém dizia nada a ninguém... O culto era secretíssimo. Nem as moscas podiam saber.... Cada irmã levava o seu rapaz, o seu menino: eram as nossas madrinhas. A do baptismo era para esquecer... Diziam-nos que era uma barbaridade deitar água gelada da pia baptismal na cabeça dos bebés... Eram contrárias a essas práticas cristãs.... E também não se casavam nem iam à missa...

Oh, como eram tão alegres e folionas e como nós nos ríamos às gargalhadas das suas galhofas e traquinices, nos divertíamos tanto!...Sobretudo, quando nos beijavam o rabo (claro, de calças vestidas) e, uma das irmãs, a mais velha, depois de dançarmos e de darmos umas quantas voltas à volta do galo, de patas atadas e pousado junto ao defumador das aromáticas essências (alecrim rosmaninho, entre outras ervas ) ali bem no centro do terreiro, sim, se enchia de genica (como a mestra, a grande chefona, a madre-superiora) e se aprestava para torcer e degolar de um só golpe a pobre ave, cujo sangue era vertido imediatamente para uma tigela e dado a beber a todos os participantes. A princípio, não lhe achei piada, mas depois, como se ouviam sempre algumas chalaças, até me pareceu natural e lhe encontrei alguma graça....

Recebi educação católica, foram esses os meus primeiros passos. E até andei dois meses no seminário, em Mogofores, até que fui expulso, devido a uma bebedeira de medronhos e quando, em confissão, revelei os rituais que praticara em criança. Admiro Cristo como Homem mas não o imagino um Deus Absoluto. Ou um Seu Enviado à Terra. Filhos de Universo e de um Deus Maior somos todos nós. São os oceanos, os continentes, todos os seus vivos e corpos aparentemente inertes. É, no fim de contas, aquilo a que, no meu modesto ponto de vista, resumo como sendo a Inteligência Universal.


Gosto da sua imagem, natural e humana, vestido com as suas lindas túnicas e até de imitá-lo em alguns dos seus gestos quando envergo roupagens mais ou menos semelhantes; porém, desagrada-me e deprime-me vê-lo crucificado e coroado de espinhos, como um penoso castigo para toda a vida. Porém, desde que, ainda rapaz, me iniciei no culto aos deuses mais antigos da humanidade e das suas simbologias - o Sol, a Lua, os Astros, o Mar e as Pedras - sim, no fundo, nos símbolos que mais identificam o homem

Outras vezes, no entanto, nem sei bem o que sou: vacilo até à descrença e ao agnosticismo. Gosto de música sagra e de coros religiosos, seja qual for a religião. Respeito, porém, todo os credos e cultos - e tenho, em todos, bons amigos - o que não significa que cerceei a minha liberdade de expressão.

Uma vez o meu pai (que madrugou mais cedo para ir vender uns machos e umas vacas a uma feira) , apanhou-me à entrada de casa... Foi numa noite gélida de Inverno. Era quando mais saímos, visto as noites serem mais longas... Perguntou-me donde é que eu vinha àquelas horas... Eu disse que tinha andado a jogar o tiroliro com os outros rapazes no adro... Ele achou que era muito tarde e deu-me uma valente sova com a cilha da albarda.. Sim, foram tempos difíceis mas trazem-me saudades quando ali vou....

.Não há passeio mais agradável e espiritual que descer e subir aquela calçada romana pela calada da noite e respirar os alvores e os perfumes de uma fresca e orvalhada madrugada.Aliás, é um forte apelo a que não resisto, sinto essa intrínseca necessidade.

Está-me no sangue.... Em recuar aos joviais tempos do pé descalço pelos carreiros e caminhos das fragas... nos penhascos e quebradas do maciço planáltico, onde termina o granito e começa o xisto, noutra área diferente dos arredores da minha aldeia. E onde faço um misto de investigação, devaneio e peregrinação espiritual mas também artística: registos nas pedras (esculpo) e fotografo (fotografo-me) na sítios onde me sinto melhor e mais identificado com o meu passado e as minhas ancestrais raízes.

A paisagem, neste local, a bem dizer não mudou e o chilrear dos pássaros na Primavera ainda é o mesmo, entre outros bichos e aves, que ali param todo o ano, por vezes, até me parece que ainda me soam aos ouvidos os coros e a voz de comando da nossa irmã mais velha... "Meninas" e meninos! Vamos lá à dança e à contradança!!... Três voltas para a frente e três voltas para trás!..

Tempos que não voltam e não se repetem!... Que saudades dessa liberdade e dessa misteriosa aventura nocturna.!... Voltar lá, é como se ainda fosse garoto e estivesse a reviver os anos da inocência: a ida à meia-noite e a hora do regresso a casa...Quando nos aproximávamos da Rua Roda D'Àlém, toca a dispersar!... cada um ia ao seu destino... Sempre, muito antes da alvorada e do nascer do sol. Para ninguém correr o risco de ser visto... E sem os pais saberem, pois então!... Nessa noite a porta ficava só encostada;havia o cuidado de não a deixar fechar à chave...

MILÉNIOS DE ATRASO, DE SOFRIMENTO E DE OBSCURANTISMO


"O Homem, no mundo, profana a criação. Profana os gestos, os sons, as cores, profana sobretudo as palavras que usa, levianamente, na tagarelice ou com perversidade, na mentira, no ódio ou na calúnia. Profana os números, os sinais matemáticos, ao utilizá-los em operações diabólicas de magia negra científica (fabrico de instrumentos de morte, de engenhos de destruição, de explosão). Profana o trabalho ao transformar o que fazia participar o homem, com entusiasmo e alegria, na actividade criadora de Deus, numa tarefa de escravo condenado aos gestos mecânicos do trabalho, à sujeição, na sinistra atmosfera das nossas fábricas. O homem profana os meios de expressão, a palavra, a literatura, a arte, a música, a pintura, as ciências, já não servem para dignificar o ser interior, para elevar o pensamento, para conservar a alma numa atmosfera idealizada de beleza e sabedoria, mas para procurar prazeres vulgares, para alimentar polémicas cheias de rancor"

 

sábado, 16 de outubro de 2021

Manuel da Fonseca – Entrevista em Santiago do Cacém, onde o escritor nasceu em 15-10-1911

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

Entrevista a Manuel da Fonseca, em 14 de Dezembro de 1993 -   - Nasceu há 110 anos, em Santiago do Cacém – Faleceu aos 82 – O diálogo, diretamente de sua casa, três meses antes da sua morte, para o programa O Fantástico, de Ruy Castelar, na Rádio Comercial-RDP e um dia depois de uma homenagem, que lhe fora prestada por vários municípios da região alentejana, onde buscava o silêncio para escrever aquele que seria o seu último livro, porventura inacabado.

De sublinhar, que, neste  dia 16 de Outubro de 2021, em que edito este video, decorreu na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, em Santiago de Cacém, a cerimónia de apresentação do livro vencedor da XIII Edição do "Prémio de Conto Manuel da Fonseca" – “Contos de Macau” da autoria de João Morgado, sob o pseudónimo de Liang.

BIOGRAFIA - De seu nome completo, Manuel Lopes Ferreira Fonseca, mais conhecido como Manuel da Fonseca - Vulto destacado do Neorrealismo- Escritor, poeta, contista, romancista e cronista, Manuel da Fonseca fez parte do grupo do Novo Cancioneiro e é considerado por muitos como um dos melhores escritores do neo-realismo português.

Nas suas obras, carregadas de intervenção social e política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos.

Autor de uma obra ancorada na realidade e eivada de um apontado regionalismo, a escrita de Manuel da Fonseca ultrapassa a contingência histórica de que nasceu, por um enaltecimento da vida, compreendida como intrinsecamente livre das imposições, frustrações, mentiras e condicionamentos impostos pela sociedade, ânsia de libertação, simbolizada, por exemplo, na repressão sexual imposta a algumas figuras femininas ou na admiração de figuras marginais como o "maltês" ou o vagabundo. Cerromaior (1943), O Fogo e as Cinzas (1951) e Seara de Vento (1958) são algumas das suas obras mais emblemáticas Excertos bibliográficos . Pormenores em

Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta atribuiu o Grande Prémio da Novelística a José Luandino Vieira pela sua obra Luanda, o que levou ao encerramento desta instituição.

Partiu ainda jovem para Lisboa para realizar estudos secundários, tendo desempenhado posteriormente na capital diversas atividades profissionais no comércio, na indústria e no jornalismo.

Antes de colaborar em Novo Cancioneiro, com Planície, coleção onde se afirmariam algumas coordenadas da estética poética Neorrealista numa primeira fase, editou, em 1940, Rosa dos Ventos, obra pioneira do neorrealismo poético português, nascida do convívio com um grupo de jovens escritores, entre os quais Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes e Armindo Rodrigues, unidos numa "obstinada recusa de ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do Homem, ela teria um papel estimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação de um mundo podre" (DIONÍSIO, Mário - prefácio a Obra Poética de Manuel da Fonseca, 1984, p. 21). 

Não existindo descontinuidade entre a poesia e a prosa de Manuel da Fonseca, nem entre ambas e o escritor, que as impregna de um cariz autobiográfico, alimentado por recordações da convivência com o homem alentejano, ficção e obra poética interpenetram-se na evocação de personagens, narrativas, romances, paisagens alentejanas. Mário Dionísio (id. pp. 32-33) vê na oposição cidade/vila, recorrente na obra de Manuel da Fonseca, a oposição entre o que é "apaixonado e violento, desgraçado e heroico, profundamente humano, grave, limpo" e o que é ridículo, repugnante, mesquinho, "de ambição medíocre, de preconceitos míseros, que desvirtuam e lentamente asfixiam uma imagem ideal de vida que, na poesia de Manuel da Fonseca, quase sempre se identifica com tudo o que a infância e a adolescência têm de ingénuo e generoso e transparente e que a vida embacia, adultera e destrói."

JOSÉ SARAMAGO, em MÊDA- 1998 – Recordando-o no dia Mundial da Alimentação

 JORGE TRABULO MARQUES - JORNALISTA 


O Prémio Nobel da Literatura - Além do gosto de  escrever  bons livros, também era um apreciador do bom vinho - Hoje, Dia Mundial da Alimentação, recordo a visita do escritor José Saramago, no dia 22 de Maio, a Mêda, onde foi calorosamente recebido e homenageado, pela atribuição do prémio Nobel da Literatura, assim como brindado por um saborosíssimo banquete, com os melhores vinhos, aperitivos e pratos tradicionais do concelho, após ter visitado o Castelo de Marialva, onde foi descerrada uma lápide a uma citação do seu livro, Viagem a Portugal, referente a este castelo -Na sua visita ao agrupamento das Escolas, onde voltou a ser muito aplaudido por alunos e professores, foi também descerrada uma lápide com o seu nome: com estas palavras: ESTE AGRUPAMENTO DE ESCOLAS FOI PRIVILEGADO COM O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1993 JOSÉ SARAMAGO NO DIA 22 DE MAIO DE 1998

Fiz a cobertura da visita, a pedido do então Presidente da CM de Mêda, João Mourato, que agora voltou assumir a Presidência, tendo no meu arquivo, variadíssimas imagens desse dia, que tenciono recordar em futuras postagens.

Depois de ter recordado o lado positivo, que os bons alimentos e os bons vinhos, também podem ter na vida cultural e social, aproveito para falar do aspeto mais preocupante:

Hoje, tal como é sublinhado, é o Dia Mundial da Alimentação, em que se faz um apelo global à Erradicação da Fome, por um mundo em que alimentos nutritivos estejam disponíveis e sejam acessíveis a todos, em qualquer lugar.

Referidno que, mais de 820 milhões de pessoas não têm alimentos suficientes e a emergência climática é uma ameaça crescente à segurança alimentar. Enquanto isso, dois mil milhões de homens, mulheres e crianças têm sobrepeso ou são obesos.

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Dia Europeu da Arte Rupestre - Gravuras do Vale do Côa, são parte do Património da Humanidade

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

O dia 9 de outubro foi escolhido pelo Conselho da Europa e pela Comissão Europeia como Dia Europeu da Arte Rupestre - Aproveitámos para aqui saudarmos todos aqueles que se esforçaram para salvar de ser afundada a maior exposição ao ar livre de Arte Paleolítica do Mundo, com mais de mil representações, maioritariamente gravuras e algumas pinturas, que se distribui ao longo de dois eixos fluviais principais, o Côa e o Douro abrangendo o Parque uma área pertencente aos municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Pinhel e Mêda.

Na primeira imagem, um dos momentos da visita, em 1997, ao núcleo das gravuras da Penascosa, Vale do Côa, do Presidente Jorge Sampaio, acompanhado pelo Dom Juan Carlos, Rei de Espanha e do Secretário-geral da UNESCO, Frederico Mayo

Nesta segunda imagem, de meados dos anos 90, alguns dos arqueólogos, guias e auxilares do Parque Arqueológico.

O presidente português Jorge Sampaio, que faleceu no passado dia 10 de Setembro,  também passou por Muxagata, freguesia de Vila Nova de Foz Côa, onde  presidiu à cerimónia da inauguração do posto do núcleo das gravuras dos Piscos, durante o seu primeiro mandato


Conhecer o Vale do Côa é não só ter uma aula de História a céu aberto como deixar-se conquistar por paisagens tão únicas quanto esplendorosas.

Atualmente existem cerca de 60 sítios arqueológicos identificados, espalhados ao longo dos 26 km que constituem o Parque Arqueológico. Três deles são visitáveis, nas aldeias de Muxagata e Castelo Melhor, de onde os visitantes são transportados em veículos todo-o-terreno, nomeadamente Canada do Inferno (inicia-se no Museu do Côa, Vila Nova de Foz Côa), Penascosa (inicia-se em Castelo Melhor) e Ribeira de Piscos (inicia-se em Muxagata).


Na imagem à esquerda,  arqueólogo, João Zilhão, mostrando um painel de gravuras do núcleo da Cana do Inferno, no dia em que ali recebeu a visita do Príncipe Giovanni Adamo IILiechtenstein

Na  imagem à direita,  é o arqueólogo Martinho Baptista, estudando uma das gravuras, sob o efeito de luz rasante noturna

Vila Nova de Foz Côa, tem novo Presidente do Município, a partir de hoje - É João Paulo Sousa

JORGE TRABULO MARQUES - JORNALISTA 

Vila Nova de Foz Côa, tem novo Presidente do Município, a partir de hoje - É João Paulo Sousa - Natural de Muxagata, de 54 anos de idade, teve como mote da candidatura “Orgulho no passado, vencer o futuro”, sendo apoiado pela estrutura local e distrital do PSD.

Tendo declarado à Lusa, durante a campanha eleitoral,  assumir um compromisso com as pessoas para evitar a saída de jovens e criar condições para a sua fixação neste território e, ao mesmo tempo,  melhorar as “condições no âmbito da educação e do desporto e criar mecanismos para atrair pessoas para este território”, vincou.

A sessão solene da Tomada de Posse dos Órgãos Municipais, teve início às 15 horas desta tarde no Auditório do Centro Cultural de Vila Nova de Foz Côa. - Previa-se tranquila e acabou manchada por uma atitude inesperada

É noticiado, que a referida cerimónia da tomada de posse do novo presidente da Câmara Municipal de Foz Côa, desta cidade do distrito da Guarda, ficou marcada pelo abandono dos socialistas da sessão de instalação da mesa da Assembleia

Nas eleições autárquicas de 26 de setembro, PSD e PS empataram com 72 votos na Junta de Freguesia de Touça. Já na repetição da votação, ambos os partidos voltaram a empatar, cada um com 75 votos.

A CAMPANHA JÁ TERMINOU  - Não vale a pena agitarem-se ânimos e novas disputas ou querelas inúteis 

Residindo em Lisboa, não tive oportunidade de assistir ao ato, e sem com isto pôr em causa a legitimidade da atitude, todavia, parece-nos um procedimento, algo precipitado, na medida em que, a eleição reclamada, em nada vai alterar a composição do novo executivo

Agora é a vez de se estreitarem pontos comuns em prol do progresso e bem-estar do concelho, de se apaziguarem refregas,  se reforçar o diálogo, visto haver ainda muito tempo pela frente para se medirem forças e extrairem conclusões. 

Refere a noticia do Jornal O Interior, que “o deputado eleito pelo Partido Socialista Nuno Barreto pediu a palavra para contestar a continuação dos trabalhos, após fazer chegar à mesa uma reclamação onde os socialistas consideravam que a assembleia não estará «constituída» sem a eleição do presidente da Junta de Freguesia de Touça, cujas eleições terão de ser repetidas (novamente) após empate. Gerou-se alguma discussão sobre a instalação da mesa e a possibilidade de continuação dos trabalhos. Perante a estupefação generalizada, e algumas trocas de palavras menos próprias para o momento, o novo presidente da Assembleia Municipal leu então um parecer, da CCDR Norte, que conclui que a eleição de um presidente de junta posteriormente «não constitui óbice para a instalação» da mesa da Assembleia Municipal

Antes da eleição - Com Marques Melo e um investidor de Macau 

Esta posição foi contestada pelo grupo socialista que de seguida abandonou a sessão. Também os dois vereadores socialistas e os presidentes de junta eleitos pelo PS abandonaram a primeira Assembleia Municipal deste novo mandato" - excertos.



O Novo Presidente, do PSD, sucede ao Eng Gustavo de Sousa Duarte, natural da Freguesia de Godim do Concelho de Peso da Régua, residente, em Vila Nova de Foz Côa, desde há vários anos, onde casou e liderou a mais importante empresa da exploração da pedra de Portugal e talvez mesmo da Europa, das chamadas pedras de xisto únicas no mundo, exportadas para os mais diversos quadrantes

As duas imagens, foram registadas, há uns anos, mas desde então, a referida exploração da pedra, foi profundamente mecanizada e transformada

João Paulo Sousa, que desempenhava as funções de Vice-Presidente da CM de V. N de Foz Côa, foi o vencedor as eleições autárquicas, no passado dia 26 de Setembro, tendo conseguido 38,56 por cento dos votos, elegendo dois vereadores, enquanto o independente José Lebreiro (“Nós, Cidadãos!”) foi o terceiro candidato mais votado (4,33 por cento). Marta Mendes (CDU) ficou-se pelos 1,33 por cento e a abstenção foi de 37,7 por cento

Os meus parabéns e votos de que seja bem sucedido para bem da população e do nosso concelho.

Esta imagem  foi registada, em Setembro do ano passado, na recção concedida, na sede do Município, ao Embaixador da Guiné Equatorial, Tito Mba Ada, na sua visita a vários pontos do concelho,a que me referi na oportunidade 

 "O vinho da vossa comunidade e a pedra do poio, creio que  pode interessar-nos e aqui  podemos  fazer uma grande história  em todos os domínios!”


“Nós saímos de Lisboa para conhecer o município para fazer amizades, mais amizades!... Conhecer oportunidades de negócio!  E como incentivar as populações, a comunidade, os amigos da Guiné Equatorial! E, como sair da Guiné Equatorial a Portugal!

O amigo Jorge, que conhece a Guiné Equatorial, insistia!...Insistiu   várias vezes para vir aqui!... Falou do Douro!.. Falou do vinho!.. Muitas vezes!... Falou da Pedra! – Da importância da pedra “… Em que a Pedra, pode fazer muitas coisas!... Para o desenvolvimento! “


Portanto cheguei! Visitei! Fiquei contente! E gostaria, de facto,  de transmitir a  você e à vossa cidade,  este meu estado de ânimo – Palavras proferidas pelo Embaixador da Guiné Equatorial Tito Mba Ada, país que integra a CPLP, na receção oferecida  ao diplomata na Câmara municipal de V.N de Foz Côa

O Presidente Eng. Gustavo Duarte, agradeceu respondendo,, que ainda bem, que seja a primeira de várias visitas!...  E que possa também ser um embaixador deste concelho e desta região” -  



GUINÉ-EQUATORIAL E PORTUGAL – DOIS PAÍSES, COM LAÇOS HISTÓRICOS DE MAIS DE 300 ANOS “ - Uma visita breve mas muito preenchida, tendo tido como acompanhante,  António Lourenço, ex-autarca e atual Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de V. Nova de Foz Côa, além do autor destas linhas, videos e imagens e do assessor do Embaixador Mais pormenores em. https://templosdosol-chas-fozcoa.blogspot.com/2020/09/camara-municipal-de-vila-nova-de-foz.html

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Amália Rodrigues - Morreu há 22 anos - Minha entrevista à Rainha do Fado, a Voz de Portugal - Sobre 1º Amor

 Jorge TrabuloMarques - Jornalista 

Faleceu a 6 de Outubro de 1999, em sua casa, com 79 anos - Recebeu-me em sua casa para me falar de amor e da sua primeira relação sexual, mas, às tantas arrependeu-se e acabou por haver duas gravações: o da entrevista e o da discussão que sucedeu após a interrupção da mesma

Amália viria a ser sepultada em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres. Dois anos depois, em julho de 2001, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional .O seu contributo para a história do fado em Portugal é inestimável. Amália Rodrigues introduziu a novidade de cantar poemas de grandes autores portugueses consagrados, depois de musicados.


Os maiores poetas portugueses criaram letras das músicas interpretadas pela ‘voz de Portugal’, David Mourão Ferreira, a Pedro Homem de Mello, passando por Ary dos Santos, Manuel Alegre e Alexandre O’Neill – nomes eternos da literatura portuguesa.

Cantou e encantou em todo o mundo, de Paris a Nova Iorque, de Berna a Roma, de Trieste a Dublin. Transportou a cultura lusa pelos quatro cantos do planeta e transformou-se a maior diva do fado.

Trata-se, com efeito, de uma parte de uma entrevista, inédita, na vida de Amália Rodrigues: para a salvar a cassete (mas até o próprio gravador, pois ) tive que me escapar de sua casa a correr escadas abaixo, com Amália no meu encalce e o grupo das pessoas amigas, que estavam com ela na sala do 1º andar; a pintora Maluda, a sua irmã Celeste, o seu irmão Vicente e outra amiga de que não cheguei a saber o nome – Mesmo assim, ainda foram atrás de mim, rua acima, apenas tendo desistido quando apanhei um táxi