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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Aniversário Memória do Poeta Amadeu Ferreira 29-07-1950 -01-03-2015- -Homenagem de Júlio Meirinhos nos Templos do Sol a um dos maiores investigadores da língua mirandesa: contista, dramaturgo, ensaísta e ficcionista-

                             Jorge Trabulo Marques - Jornalista e coordenador das celebrações

 Gaiteiros de Miranda do Douro - Numa das anteriores celebrações



Aniversário Memória do Poeta Amadeu Ferreira 29-07-1950 -01-03-2015- -Homenagem de Júlio Meirinhos nos Templos do Sol a um dos maiores investigadores da língua mirandesa: contista, dramaturgo, ensaísta e ficcionista-

Poema lido no passado dia 21 de Junho na celebração do Solstício do Verão, no Stonhenge Português- Chãs - com revelações inéditas de Júlio Meirinhos, ex-Coordenador do PROCOA-PPDR - Da salvaguarda das gravuras do Côa, inserido no Programa de Desenvolvimento de Vale do Côa

Amadeu José Ferreira nasceu a 29 de julho de 1950 em Sendim, Miranda do Douro. Faleceu, em Lisboa, no dia 1 de março de 2015) foi um advogado, escritor e professor universitário português e um estudioso e divulgador da língua mirandesa. Foi ordenado comendador da Ordem do Mérito em 2004

Traduziu várias obras de referência da literatura portuguesa e universal para mirandês, nomeadamente, Os Lusíadas, de Camões, Mensagem, de Pessoa, os clássicos romanos de Horácio, Virgílio e Cátulo, os quatro evangelhos do Novo Testamento e ainda dois volumes da banda desenhada francesa Astérix. Chegou a escrever sob os pseudónimos Francisco Nebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo.

Publicou igualmente muita obra sua original e colaborou, em língua mirandesa, com meios de comunicação social como o Jornal Nordeste, o Mensageiro de Bragança, o Diário de Trás-os-Montes, o Público (jornal de âmbito nacional para o qual escreveu regularmente durante anos) e a rádio MirandumFM, contribuindo ainda com mais de três mil textos, quase exclusivamente literários, em blogues como Fuontes de l Aire, Cumo Quien Bai de Camino e Froles Mirandesas.

Foi presidente da Associaçon de la Lhéngua i Cultura Mirandesa (Associação da Língua e Cultura Mirandesa), com sede em Lisboa, e fundador e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. A nível profissional, foi vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (a entidade reguladora do mercado de capitais em Portugal), professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Bragança.





Solstício do Verão 21-06-2026- Celebrado no Stonhenge Portiguês- Chãs - com revelações inéditas de Júlio Meirinhos, ex-Coordenador do PROCOA-PPDR - Da s






Desta vez não foi possível contemplar esta imagem .Com o sol a brilhar todo o dia mas toldado por espessas nuvens ao despedir-se do dia maior do ano. Mesmo assim, foi de muita alegria, cconvívio e fraternidade

Junto ao altar do santuário da Pedra da cabeleira de Nº Sªa , cuja gruta é atravessada pelos raios do nascer do sol nos equinócios



O dia era de intenso calor: mesmo assim a iniciativa constituiu um grande sucesso, nas palavras sublinhadas pelos participantes e convidados –Júlio Meirinhos, Líder do PROCOA da salvaguarda das gravuras do Vale do Côa:

Uma figura bem conhecida em toda a região duriense e no pais. Possuidora de um prestigiado currículo, que ficou ainda conhecido como mentor da chamada Lei do Mirandês, a segunda língua oficial em Portugal, após a aprovação da lei na Assembleia da República, em 17 de setembro de 1998, que conferiu este estatuto ao idioma falado no Nordeste Transmontano, a que nos referiremos nos vídeos das suas intervenções.
Ambos nos empenhamos na defesa das gravuras do Vale do Côa- Isto, porque, naquele período polémico, o executivo camarário, apostava mais na construção da barragem.


Júlio Santana Meirinhos, foi o mais jovem presidente de Câmara do país: a de  Miranda do Douro, a terra onde cresceu e se fez homem. Ex-deputado pelo PS e ex-governador civil de Bragança

.Cidadão honorário do Município de Miranda do Douro – Grau Ouro Agraciado pelo Estado Português com o grau de Comendador da Ordem Nacional do Infante D. Henrique. Eleito o “Melhor.Autarca do ano de 1986” – Prémio Telex de Prata – AN Membro do Comité das Regiões em Bruxelas

OUTRA DESTACADA PRESENÇA - Albertino Melo, natural de Viseu, Diretor Geral no sistema financeiro, atualmente consultor internacional, em Luxemburgo, tendo sido o mais jovem dos Presidentes eleitos do Académico de Viseu, que liderou ao longo de vários anos, desportista, consultor e viajante por muitas terras: que já nos deu o prazer da sua presença, há uns 4 anos, num percurso desta aldeia à Ervamoira, e com o qual também já nos reencontramos, em Lisboa, numa visita diplomática

Em vídeos a editar, teremos, pois, igualmente o prazer de destacar as palavras proferidas por Júlio Meirinhos, Albertino Melo , Olímpio Sobral e José Lebreiro.


O nosso abraço, pois, a todos os peregrinos, que nos deram o prazer da sua presença e de se associar a esta significativa e tradicional celebração, que temos organizado e realizado, desde há mais de duas ´décadas, visando não esquecer mas perdurar, a herança do património megalítico, especialmente dos alinhamentos sagrados dos equinócios.

Num evento que voltou a afirmar-se como um importante momento de valorização do património histórico, cultural e paisagístico do concelho de Foz Côa, da região e do país.- Pese o facto, de tanto a autarquia local, como do Município, não se terem feito representar e nem nos terem prestado qualquer tipo de apoio

À exceção de Olímpio Sobral. Membro da Assembleia do PS, que destacou a importância da dinamização de eventos no âmbito do solstício, salientando o potencial destas iniciativas para a valorização cultural da freguesia.

Tendo sublinhado, que “ É de inteira justiça destacar e agradecer o extraordinário empenho, dedicação e persistência de Jorge Trabulo Marques, cuja ação tem sido determinante na divulgação e promoção dos equinócios e solstícios em Chãs.

Agradecemos igualmente a presença de todos os participantes que, com o seu interesse e entusiasmo, contribuíram para o sucesso desta celebração.

Uma palavra de reconhecimento ao Dr. José Lebreiro, presença constante nestes eventos e profundo conhecedor do património da nossa região, cuja participação muito enriquece estas iniciativas, Técnico Superior Principal da Reitoria da Universidade de Coimbra -Dedicado e generoso peregrino dos Templos dos Sol, aldeia de Chãs – V. N. de Foz Côa,

O nosso agradecimento também ao Dr. Célio Alves, pela sua presença e pelo apoio demonstrado a esta celebração.
Dirigimos ainda um especial agradecimento ao Dr. Albertino Melo, personalidade de reconhecido mérito e prestígio, cuja participação muito honrou este encontro.

Uma referência particularmente especial ao Dr. Júlio Meirinhos, figura ímpar da vida pública portuguesa e transmontana, que exerceu diversos cargos de elevada responsabilidade, entre os quais os de Governador Civil de Bragança, Presidente do Agrupamento de Municípios da Terra Fria Transmontana, Presidente do Conselho da Região da Comissão de Coordenação da Região Norte e Presidente da Região de Turismo do Nordeste Transmontano.

Merece igualmente especial destaque o seu papel como Coordenador do PROCOA – Programa de Desenvolvimento Integrado do Vale do Côa, contribuindo decisivamente para a valorização, promoção e desenvolvimento de um território hoje reconhecido internacionalmente pelo seu património arqueológico e cultural.

O seu percurso de serviço público, a sua dedicação ao desenvolvimento regional e a defesa dos interesses das populações foram reconhecidos pelo Estado Português com a atribuição do grau de Comendador da Ordem Nacional do Infante D. Henrique, entre muitas outras distinções.

A sua presença nesta celebração constituiu uma enorme honra para a nossa aldeia e um motivo de orgulho para todos os presentes.
A todos os que participaram e contribuíram para o sucesso desta celebração, o nosso sincero agradecimento.

Foi ainda proferido um discurso no local pelo membro da oposição na Assembleia de Freguesia, que agradeceu a presença de todos os participantes e dirigiu uma saudação especial aos ilustres visitantes que nos honraram com a sua presença, contribuindo para o prestígio e significado desta celebração:

Boa tarde a todos.
Como membro da Assembleia de Freguesia, é com muito gosto que me associo a esta celebração do Solstício de Verão, um momento que nos convida a olhar para as nossas raízes, para a nossa história e para a riqueza do património que herdámos dos nossos antepassados.

Quero começar por agradecer o empenho, a dedicação e a persistência de Jorge Trabulo Marques na divulgação e promoção dos eventos dos equinócios e dos solstícios. Ao longo dos anos, o seu trabalho tem contribuído para dar a conhecer a nossa aldeia e o seu património a um público cada vez mais vasto, projetando Chãs muito para além das suas fronteiras e despertando o interesse de visitantes, investigadores e meios de comunicação social.


Dirijo uma saudação muito especial ao Senhor Comendador Júlio Meirinhos, nosso convidado de honra, personalidade de grande relevo na região e no país, cuja ação foi determinante na valorização e defesa do património do Vale do Côa. A sua presença é para nós uma grande honra.

Saúdo igualmente o Senhor Albertino Melo, figura de referência da nossa região, cujo percurso profissional e humano muito prestigia as nossas terras. É um privilégio contarmos hoje com a sua presença.

O Solstício de Verão assinala o dia mais longo do ano e marca o início do verão. Desde tempos remotos, este momento era celebrado pelos povos antigos, que observavam atentamente os ciclos da natureza e do céu. Aqui, neste local privilegiado, podemos contemplar o pôr do sol alinhado com esta impressionante pedra, testemunho de uma herança ancestral que continua a despertar fascínio e admiração.

Da mesma forma, a Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora é um local emblemático onde se assinalam os equinócios, reforçando a singularidade do património arqueológico, paisagístico e cultural da nossa aldeia. Estes lugares ligam-nos à memória dos povos que aqui viveram e recordam-nos a importância de preservar e valorizar este legado para as gerações futuras.


domingo, 26 de julho de 2026

Dia dos Avós - Um dia muito especial - num pais cada mais envelhecido - Imagens de avós, pais e filhos da minha aldeia

 Jorge  Trabulo Marques - Jornalista



Dia dos Avós celebrado domingo, 26 de julho - Recordo imagens da minha aldeia de idosos, netos e filhos num país cada vez mais envelhecido - Sim, longe vão os dias de que as aldeias eram rejuvenescidas de juventude e muita alegria. Muitas das quais não tarda que passem de freguesias a simples quintas.



Celebrou-se, neste último domingo de julho, em Portugal e em vários outros países para homenagear o papel dos avós na família. A data tem origem na tradição cristã e ficou marcada também pela iniciativa da portuguesa Ana Elisa do Couto, conhecida como Dona Aninhas.
A escolha do dia 26 de julho está ligada à tradição cristã. Nesta data, a Igreja Católica homenageia São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus.

A celebração destes santos foi reconhecida pelo Papa Leão XIII, em 1879. Mais tarde, o Papa Paulo VI fixou o dia 26 de julho para esta homenagem.
Dia dos Avós - Um dia muito especial num pais cada mais envelhecido - Imagens de idosos da minha aldeia

Meu registo, entre outras imagens, no Lar de Nº SRª de Assunção, que, António Lourenço, teve a feliz iniciativa de erguer, pois, se assim não fosse, porventura muitos dos idosos, não podendo ficar em sua casa ou junto dos seus filhos, que é o que geralmente hoje sucede, teriam extremas dificuldades em sobreviver

À hora que escrevo estas linhas, a noite já vai alta: passei-o dia sozinho, em minha casa, completamente ausente do bulício da cidade, se bem que bastaria ir ao pequeno terraço das águas furtadas que habito para ver, pelo menos , um vasto leque do seu casario , pois, mas nem isso me interessou – Estou bem comigo e com a minha consciência.

Sempre que posso, saio do bulício da floresta de betão
Em demanda dos largos horizontes
da minha amada terra natal.
E dou um saltinho aos seus puríssimos ares!
Afasto-me da confusão com a certeza
de poder viver algo diferente.
E dificilmente me posso enganar
- Quando, sozinho, sob o teto dos Céus
vagueio sem destino pelos campos cheirosos,
estes, invariavelmente, me saúdam
e me recebem muito bem! -
Tudo quanto se desprende
do seu silêncio é etéreo e divino, propício
à comunicação da vida e fala a verdadeira voz de Deus!
Em tudo experimento sempre uma renovada emoção
ou ressuscito memórias antigas que o meu coração,
então livre como um passarinho, já viveu


 

Imagem da inauguração do Lar de Nª Srª de Assunção, há uns bons anos. 





C

UNESCO - Reconhece 6 Roças de S. Tomé e Príncipe Património Mundial: herança da vida escrava e do chicote que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, desde 1963 até à Revolução do 25 de Abril

 Jorge  Trabulo Marques - Jornalista e antigo empregado de mato nas roças Uba-Budo, Ribeira Peixe e Rio do Oiro - Atual Agostinho Neto

A vida escrava e do chicote nas roças que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, de 1963 a 65 -Aos 12 anos marçano em Lisboa, menino escravo.. Vida dura tanto para os serviçais como empregados de mato, como eu  fui. Tanto para   trabalhadores nativos, contratados de outras colónias, de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.- 


A UNESCO - Reconhece 6 Roças de S. Tomé e Príncipe  Património Mundial: herança   da vida escrava e do chicote que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, desde 1963 até à Revolução do 25 de Abril 

Aos 12 anos fui marçano em Lisboa, menino escravo. E, aos 12 anos marçano em Lisboa, menino escravo nas mercearias. E, aos 18 anos, na Roça Uba-Budo, como empregado de mato -  Depois de completar o curso de Técnico Agrícola,  em Santo Tirso, desembarquei em Novembro de 1963 para ali fazer o meu estágio,  tendo ali conhecido dias muito difíceis. 

Vida dura tanto para os serviçais como empregados de mato, como eu  fui, como  para  os  trabalhadores nativos, como contratados de outras colónias, de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.-

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) declarou este domingo as plantações agrícolas coloniais portuguesas nas ilhas de São Tomé e Príncipe como Património Mundial


A assembleia anual da UNESCO, que está a decorrer na cidade sul-coreana de Busan, reconheceu como Património Mundial o conjunto de seis roças situadas nas ilhas da nação africana, que representam um sistema colonial dedicado principalmente à produção de café e cacau, combinando terras agrícolas, infraestruturas industriais, áreas residenciais e instalações sociais.

Água Izé, Belo Monte, Diogo Vaz, Monte Café, São João e Sundy —​, que representam um sistema colonial dedicado principalmente à produção de café  - E ,então, as do Cacau, como a Roça Rio do Oiro (Agostinho Neto e outras? - ´Vai-se promover apenas o café?

A cultura escravagista, que passei a conhecer e sentir, como empregado de mato, desde finais de 1963. passou unicamente alimentar os grandes negócios dos proprietários, sediados em Lisboa, alcunhados pelos turistas da Gravana, época em que chove menos e o tempo refresca um pouco mais ,

São Tomé  e Príncipe  - Custo de vida colonial - Antes do 25 de Abril – Nas roças ainda conheci a escravatura do tempo do chicote  - Tanto para trabalhadores nativos como para os chamados serviçais, que eram contratados de outras colónias, nomeadamente de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - Antigo aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso  - Com videos registados na Roça UbBudo, em 2014, bem como na antiga Roça Rio do Oiro,  atual Agostinho Neto e noutras roças


Antigo aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso - Tendo embarcado no Uige para fazer o meu estágio na Roça Uba-Budo .Por não aceitar tratar os trabalhadores por tu e de forma autoritária e agressiva, fui enviado de castigo, a contar cacaueiros abandonados para outra Roça desta empresa,na zona da cobra preta, da chamada Companhia Agrícola Ultramarina, ao sul da Ilha, na Roça Ribeira Peixe. A vida era dura e escrava também para o empregado de mato, tal como também ali fui. Depois das tarefas executadas, das capinagens, das colheitas ou das quebras de cacau, subindo e descendo vertiginosas grotas, tinha que vaguear pelos caminhos ou trilhos do mato, limpando os rebentos dos cacacueiros com a catana (machim) na mão, chovesse ou não a granel: - havia que suportar todas as intempéries até ao último raio de sol . Além disso, o escravizado empregado de mato, só podia gozar das chamadas férias graciosas, regressarem às suas aldeias, de quatro em quatro anos
Daí que não possa esquecer-me daqueles duros dias da chibata nas costas e das palmatoadas, dadas pelos capatazes, sintonizados com a hierarquia das ordens do Patrão da "Casa Grande", em que não faltava comida, ao estilo farta cavalos, mesmo que fosse fuba com bolor e feijão furado com bicho, lagarta na couve, peixe seco quase apodrecer, o que não mata engorda, porque também era a ração que davam às vacas e a outros animais, pois, saco vazio não fica de pé e interessava que todos, sem exceção, fossem animais de carga.


Era farta e folgada para os administradores e feitores gerais, mas sobretudo para os donos das roças, mais deles vivendo refastelados na “metrópole”, à sombra dos avantajados lucros das grandes plantações, especialmente de cacau e de café e livres de prestarem contas ao Estado do que arrecadavam, pois chegavam a ter até mais poder de que os próprios governadores. Sem outras preocupações que não fossem as de encher os seus cofres por depósitos na banca e por transferências sistemáticas para à Metrópole
.
Além do palácio do administrador, dos armazéns, das várias instalações tecnológicas ,escritórios, das senzalas, creches, capelas, hospitais, a bem dizer também podiam reprimir e aplicar castigos físicos à vontade.

No entanto, em 2014, quando ali voltei, pude constatar, com um misto de tristeza e decepção, que, além das instalações se encontrarem muito degradadas, praticamente em ruinas e irreconhecíveis, nem por isso a vida ali conheceu melhores condições. Tendo ouvido desabados, como este: no tempo da escravatura, tínhamos comida, agora, que somos livres, falta-nos quase tudo.

NÃO ESQUEÇO A DUREZA DAQUELES DIAS NA ROÇA


Sim, continua ainda muito presente na minha memória, aquele recuado ano, quando para ali fui em 1963, com 18 anos, a fazer um estágio do meu curso agrícola, que havia tirado em Santo Tirso, um tal Pereira, administrador, pouco tempo depois, mandou-me de castigo a contar cacaueiros velhos para a Roça Ribeira Peixe, da mesma Companhia Agrícola Ultramarino, por me ter recusado a tratar os pobres serviçais por tu: - um dia chamou-me lá à administração, para me dar esta ordem: “ o Sr Feitor Geral, já lhe disse, mais de umas quantas vezes, que os serviçais têm de ser tratados por tu; não se lhes pode dar confiança: tem uma hora para arranjar a mala; preciso do jipe, não se demore. Vai fazer o seu estágio na Ribeira Peixe.

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Antigo empregado de mato nas roças

Tal como foi denunciado, na revista angolana, Semana Ilustrada, de que era seu correspondente, em S. Tomé, as grandes propriedade agrícolas das duas ilhas, serviam apenas os interesses de uns quantos privilegiados, eram "mundos fechados", não prestavam contas a ninguém, não divulgavam os seus relatórios anuais, fechavam-se  no seu casulo egoísta e esclavagista, dissociando-se da problemática humana e ambiental que é própria da terra onde se acham implantadas e de onde lhes vem, afinal, a totalidade dos réditos


Tendo sido alertada a “ necessidade efectiva de produzir-se um volte-face, porque a riqueza só será inteiramente legítima se extravasar do seu lado meramente material e ao serviço de um grupo de indivíduos, na maioria ausentes ,para se projectar em benefício amplo da comunidade onde tem â. sua razão de existência. 

SEMANA ILUSTRADA   - “AS ROÇAS DE SÃO TOMÉ TÊM DE PRESTAR CONTAS! –Causaram alguma perturbação, sabêmo-lo, em certos espíritos dados ao comodismo rotineiro, alguns dos nossos escritos sobre  problemas de S. Tomé e Príncipe.

Simplesmente não poderíamos abdicar de cumprir o nosso dever, tendo Semana Ilustrada as responsabilidades que tem: ao ser órgão de informação mais divulgado nas Ilhas Verdes.

E, pese a quem pese e doa a quem doer, os legítimos interesses de S. Tomé e Príncipe hão-de fatalmente estar primeiro que as conveniências seja. de quem for. Obriga-nos a isso o muito respeito que temos pelos bons santomenses, aqueles que  formam a camada mais válida da população ,porque trabalham e realizam, empurrando aquela terra portuguesa para a frente." - Excerto








Na roça Bombaim - Não vi grandes diferenças, em 2014

E o estágio, que me impunha era o de contar cacaueiros abandonados, para os lados da Roça Novo Brasil, numa zona de grande capinzal e infestada de serpentes Eu contava cada caule e um trabalhador Cabo-verdiano, que andava com uma caldeirinha de água de cal na mão, à medida que os contava, ia-os marcando com umas borrifadelas para não me enganar na contagem – Creio que aquele trabalho, era mais uma forma de me humilhar e de me fazer desaparecer de que propriamente pela sua utilidade agrícola

Todos os dias, eu e o pobre do escravo, deparávamos com serpentes a levantarem-se ao nosso lado ou dependuradas nos ramos: como ele andava descalço e eu com galochas, um dia pisou uma dessas cobras pretas, picou-o e acabou por morrer ali mesmo: peguei no cavalo e fui ao hospital a buscar um antídoto, mas, quando voltei, já tinha morrido – Deparei com uma imagem impressionante: boca espumosa e a cor da pele passara de negro a um rosto contorcido e raiado de manchas violáceas
Roça Uba Budo 2014 -

Fiquei de tal maneira chocado e revoltado, que, nesse mesmo dia à noite abandonei a roça: fui a pé até S. João dos Angolares, onde dormi no mato, espicaçado por nuvens de mosquitos.

No dia seguinte, apanhei uma boleia para a cidade: e, como não tinha dinheiro, andei por lá a dormir no parque e a ter que me alimentar da fruta que ia colher no mato. Uns dias depois, fui à CM, que me arranjou um emprego de capataz dos jardins da cidade: Mas, como, quase todos os dias, passava por mim, um tal Aprígio Malveiro, secretário da Câmara, a chatear-me a cabeça, armado em roceiro, insinuando que eu também tinha pegar no machim e limpar as ervas, fui pedir emprego na Roça Rio do Ouro, onde fiquei até ir cumprir o serviço militar.



De seguida, algumas das linhas de um extenso e pormenorizado artigo que publiquei na revista angolana Semana Ilustrada, de que fui correspondente, desde 1970, a Março de 1975, mês em que fui forçado abandonar a Ilha de S. Tomé, em canoa, rumo à Nigéria, para me defender das agressivas perseguições de que estava sendo alvo por parte de alguns colonos por dar voz às manifestações pró-independência e a outras questões que a censura até então proibia, o que sucedeu com vários artigos meus. Mas este lá passou. Voltei ainda no mesmo ano, após a independência para tentar a travessia oceânica de canoa.,. Não realizaria esse sonho mas acabaria por conhecer uma dramática experiência de náufrago ao longo de 38 dias. https://canoasdomar.blogspot.com/2019/11/34-dia-perdido-no-golfo-da-guine-nao.html
CUSTO DE VIDA

(….) A roupa, o calçado, o sabão, é um subir que nunca mais acaba!
Ah! E o pão? O pão nosso de cada-dia? Para o dobro!
(...) Num destes , dias ,encontramo-nos com certa dona de casa ,no mercado Municipal. A título de curiosidade, perguntamos-lhe que espécie de géneros ia comprar. ( pagar). Começou por nos dizer, antes de mais, que era mãe de cinco filhos. E estava a adquirir condimentos para preparar um calúlú, o prato típico da terra ,para o almoço do seu marido e dos seus cinco filhos. E já que nos falou do seu marido, quisemos também saber qual a profissão e quanto ganhava.

Referiu que trabalha na Roça e ganha 28$00 diários. Em seguida, e antes de entrarmos no assunto que nos tinha levado a interpelá-la, pretendemos igualmente nos dissesse qua era a sua ocupação. Se fazia mais alguma coisa além das lides domésticas.

A esta pergunta, acrescentou que apenas cuidava dos filhos, pois eram ainda menores, andavam todos na escola, e, fora isso, tratava ainda de um pouco de criação. De uns leitãozitos, uns tantos bicos de galinhas, e de uma cabra, que criava lá no seu quintal. Criação essa, que, em seu ver lhe dá bastante jeito para fazer face aos seus gastos domésticos.

Depois falou-nos então, perto de uma banca que ali se encontrava, com os géneros expostos, dos que iria comprar para fazer o dito calúlú para o almoço do seu marido e dos seus filhos.

Para isso, segundo nos disse, precisaria de adquirir: 4$00 de kiábos,1$00 de beringelas, 1/2 kg de couve, que estava a 15$00 o kg, 2$00 de makaké, $50 de piripiri,1/2 kg de tomate, na altura 18$00, meio litro de óleo de palma pelo que ia dar 3$00,e no mercado do peixe que teria de comprar pelo menos 1,5k,que lhe custaria cerca de 25$00. Depois destas compras que teria ainda de passar pela loja a fim de ir comprar o arroz, pelo menos também cerca de 1,5kg, do trinca, que lhe ficaria a 7$00 o kg.

Depois passaria pela padaria, onde, como eram sete ao todo lá em casa, gastaria mais 7$00,pois o pão agora está a 1$00 cada um. Quanto à fruta, que teria de levar umas 7 ou 8 bananas, para sobremesa, de que não poderia prescindir, e lhe custariam 2$50

Finalmente, que teria apenas de pensar no frango ou galinha para confecionar o calúlú, mas de que ,apesar de estar a 35$00 o kg, não teria problemas pois de boa criação felizmente tinha lá no seu quintal.
Eis, pois, a traços largos os géneros e o custo por que viria a ficar um dos pratos a uma das muitas atarefadas e preocupadas donas de casa, á no burgo, para uma refeição do seu agregado familiar num vulgar dia da semana.

CONTINUAM A AUMENTAR AS COTAÇÕES DO CACAU, COPRA E COCONOTE

Segundo as ultimas informações que nos foram prestadas, os principais produtos agrícolas de S. Tomé — cacau, copra e coconote — continuam a aumentar de cotações no' mercado internacional, onde atingem números até agora nunca alcançados,
Em contrapartida (até perece um paradoxo) a principal mão-de-obra, pelo menos a mais apreciada até a data, continua a registar acentuada sangria para o exterior, como consequente reflexo de uma menor produtividade e aproveitamento das explorações agrícolas.

Um dos motivos da retirada dos trabalhadores rurais para outras parcelas' do território nacional, nomeadamente para a Metrópole, é, como se sabe, o da procura de uma melhor compensação salarial, e de outras regalias que os 28$00 que aqui lhes pagam não chega a satisfazer.