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domingo, 26 de julho de 2026

UNESCO - Reconhece 6 Roças de S. Tomé e Príncipe Património Mundial: herança da vida escrava e do chicote que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, desde 1963 até à Revolução do 25 de Abril

 Jorge  Trabulo Marques - Jornalista e antigo empregado de mato nas roças Uba-Budo, Ribeira Peixe e Rio do Oiro - Atual Agostinho Neto

A vida escrava e do chicote nas roças que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, de 1963 a 65 -Aos 12 anos marçano em Lisboa, menino escravo.. Vida dura tanto para os serviçais como empregados de mato, como eu  fui. Tanto para   trabalhadores nativos, contratados de outras colónias, de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.- 


A UNESCO - Reconhece 6 Roças de S. Tomé e Príncipe  Património Mundial: herança   da vida escrava e do chicote que eu conheci e sofri, da chibatada nas costas e palmatoadas, desde 1963 até à Revolução do 25 de Abril 

Aos 12 anos fui marçano em Lisboa, menino escravo. E, aos 12 anos marçano em Lisboa, menino escravo nas mercearias. E, aos 18 anos, na Roça Uba-Budo, como empregado de mato -  Depois de completar o curso de Técnico Agrícola,  em Santo Tirso, desembarquei em Novembro de 1963 para ali fazer o meu estágio,  tendo ali conhecido dias muito difíceis. 

Vida dura tanto para os serviçais como empregados de mato, como eu  fui, como  para  os  trabalhadores nativos, como contratados de outras colónias, de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.-

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) declarou este domingo as plantações agrícolas coloniais portuguesas nas ilhas de São Tomé e Príncipe como Património Mundial


A assembleia anual da UNESCO, que está a decorrer na cidade sul-coreana de Busan, reconheceu como Património Mundial o conjunto de seis roças situadas nas ilhas da nação africana, que representam um sistema colonial dedicado principalmente à produção de café e cacau, combinando terras agrícolas, infraestruturas industriais, áreas residenciais e instalações sociais.

Água Izé, Belo Monte, Diogo Vaz, Monte Café, São João e Sundy —​, que representam um sistema colonial dedicado principalmente à produção de café  - E ,então, as do Cacau, como a Roça Rio do Oiro (Agostinho Neto e outras? - ´Vai-se promover apenas o café?

A cultura escravagista, que passei a conhecer e sentir, como empregado de mato, desde finais de 1963. passou unicamente alimentar os grandes negócios dos proprietários, sediados em Lisboa, alcunhados pelos turistas da Gravana, época em que chove menos e o tempo refresca um pouco mais ,

São Tomé  e Príncipe  - Custo de vida colonial - Antes do 25 de Abril – Nas roças ainda conheci a escravatura do tempo do chicote  - Tanto para trabalhadores nativos como para os chamados serviçais, que eram contratados de outras colónias, nomeadamente de Cabo Verde, Guiné,  Angola e Moçambique.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - Antigo aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso  - Com videos registados na Roça UbBudo, em 2014, bem como na antiga Roça Rio do Oiro,  atual Agostinho Neto e noutras roças


Antigo aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso - Tendo embarcado no Uige para fazer o meu estágio na Roça Uba-Budo .Por não aceitar tratar os trabalhadores por tu e de forma autoritária e agressiva, fui enviado de castigo, a contar cacaueiros abandonados para outra Roça desta empresa,na zona da cobra preta, da chamada Companhia Agrícola Ultramarina, ao sul da Ilha, na Roça Ribeira Peixe. A vida era dura e escrava também para o empregado de mato, tal como também ali fui. Depois das tarefas executadas, das capinagens, das colheitas ou das quebras de cacau, subindo e descendo vertiginosas grotas, tinha que vaguear pelos caminhos ou trilhos do mato, limpando os rebentos dos cacacueiros com a catana (machim) na mão, chovesse ou não a granel: - havia que suportar todas as intempéries até ao último raio de sol . Além disso, o escravizado empregado de mato, só podia gozar das chamadas férias graciosas, regressarem às suas aldeias, de quatro em quatro anos
Daí que não possa esquecer-me daqueles duros dias da chibata nas costas e das palmatoadas, dadas pelos capatazes, sintonizados com a hierarquia das ordens do Patrão da "Casa Grande", em que não faltava comida, ao estilo farta cavalos, mesmo que fosse fuba com bolor e feijão furado com bicho, lagarta na couve, peixe seco quase apodrecer, o que não mata engorda, porque também era a ração que davam às vacas e a outros animais, pois, saco vazio não fica de pé e interessava que todos, sem exceção, fossem animais de carga.


Era farta e folgada para os administradores e feitores gerais, mas sobretudo para os donos das roças, mais deles vivendo refastelados na “metrópole”, à sombra dos avantajados lucros das grandes plantações, especialmente de cacau e de café e livres de prestarem contas ao Estado do que arrecadavam, pois chegavam a ter até mais poder de que os próprios governadores. Sem outras preocupações que não fossem as de encher os seus cofres por depósitos na banca e por transferências sistemáticas para à Metrópole
.
Além do palácio do administrador, dos armazéns, das várias instalações tecnológicas ,escritórios, das senzalas, creches, capelas, hospitais, a bem dizer também podiam reprimir e aplicar castigos físicos à vontade.

No entanto, em 2014, quando ali voltei, pude constatar, com um misto de tristeza e decepção, que, além das instalações se encontrarem muito degradadas, praticamente em ruinas e irreconhecíveis, nem por isso a vida ali conheceu melhores condições. Tendo ouvido desabados, como este: no tempo da escravatura, tínhamos comida, agora, que somos livres, falta-nos quase tudo.

NÃO ESQUEÇO A DUREZA DAQUELES DIAS NA ROÇA


Sim, continua ainda muito presente na minha memória, aquele recuado ano, quando para ali fui em 1963, com 18 anos, a fazer um estágio do meu curso agrícola, que havia tirado em Santo Tirso, um tal Pereira, administrador, pouco tempo depois, mandou-me de castigo a contar cacaueiros velhos para a Roça Ribeira Peixe, da mesma Companhia Agrícola Ultramarino, por me ter recusado a tratar os pobres serviçais por tu: - um dia chamou-me lá à administração, para me dar esta ordem: “ o Sr Feitor Geral, já lhe disse, mais de umas quantas vezes, que os serviçais têm de ser tratados por tu; não se lhes pode dar confiança: tem uma hora para arranjar a mala; preciso do jipe, não se demore. Vai fazer o seu estágio na Ribeira Peixe.

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Antigo empregado de mato nas roças

Tal como foi denunciado, na revista angolana, Semana Ilustrada, de que era seu correspondente, em S. Tomé, as grandes propriedade agrícolas das duas ilhas, serviam apenas os interesses de uns quantos privilegiados, eram "mundos fechados", não prestavam contas a ninguém, não divulgavam os seus relatórios anuais, fechavam-se  no seu casulo egoísta e esclavagista, dissociando-se da problemática humana e ambiental que é própria da terra onde se acham implantadas e de onde lhes vem, afinal, a totalidade dos réditos


Tendo sido alertada a “ necessidade efectiva de produzir-se um volte-face, porque a riqueza só será inteiramente legítima se extravasar do seu lado meramente material e ao serviço de um grupo de indivíduos, na maioria ausentes ,para se projectar em benefício amplo da comunidade onde tem â. sua razão de existência. 

SEMANA ILUSTRADA   - “AS ROÇAS DE SÃO TOMÉ TÊM DE PRESTAR CONTAS! –Causaram alguma perturbação, sabêmo-lo, em certos espíritos dados ao comodismo rotineiro, alguns dos nossos escritos sobre  problemas de S. Tomé e Príncipe.

Simplesmente não poderíamos abdicar de cumprir o nosso dever, tendo Semana Ilustrada as responsabilidades que tem: ao ser órgão de informação mais divulgado nas Ilhas Verdes.

E, pese a quem pese e doa a quem doer, os legítimos interesses de S. Tomé e Príncipe hão-de fatalmente estar primeiro que as conveniências seja. de quem for. Obriga-nos a isso o muito respeito que temos pelos bons santomenses, aqueles que  formam a camada mais válida da população ,porque trabalham e realizam, empurrando aquela terra portuguesa para a frente." - Excerto








Na roça Bombaim - Não vi grandes diferenças, em 2014

E o estágio, que me impunha era o de contar cacaueiros abandonados, para os lados da Roça Novo Brasil, numa zona de grande capinzal e infestada de serpentes Eu contava cada caule e um trabalhador Cabo-verdiano, que andava com uma caldeirinha de água de cal na mão, à medida que os contava, ia-os marcando com umas borrifadelas para não me enganar na contagem – Creio que aquele trabalho, era mais uma forma de me humilhar e de me fazer desaparecer de que propriamente pela sua utilidade agrícola

Todos os dias, eu e o pobre do escravo, deparávamos com serpentes a levantarem-se ao nosso lado ou dependuradas nos ramos: como ele andava descalço e eu com galochas, um dia pisou uma dessas cobras pretas, picou-o e acabou por morrer ali mesmo: peguei no cavalo e fui ao hospital a buscar um antídoto, mas, quando voltei, já tinha morrido – Deparei com uma imagem impressionante: boca espumosa e a cor da pele passara de negro a um rosto contorcido e raiado de manchas violáceas
Roça Uba Budo 2014 -

Fiquei de tal maneira chocado e revoltado, que, nesse mesmo dia à noite abandonei a roça: fui a pé até S. João dos Angolares, onde dormi no mato, espicaçado por nuvens de mosquitos.

No dia seguinte, apanhei uma boleia para a cidade: e, como não tinha dinheiro, andei por lá a dormir no parque e a ter que me alimentar da fruta que ia colher no mato. Uns dias depois, fui à CM, que me arranjou um emprego de capataz dos jardins da cidade: Mas, como, quase todos os dias, passava por mim, um tal Aprígio Malveiro, secretário da Câmara, a chatear-me a cabeça, armado em roceiro, insinuando que eu também tinha pegar no machim e limpar as ervas, fui pedir emprego na Roça Rio do Ouro, onde fiquei até ir cumprir o serviço militar.



De seguida, algumas das linhas de um extenso e pormenorizado artigo que publiquei na revista angolana Semana Ilustrada, de que fui correspondente, desde 1970, a Março de 1975, mês em que fui forçado abandonar a Ilha de S. Tomé, em canoa, rumo à Nigéria, para me defender das agressivas perseguições de que estava sendo alvo por parte de alguns colonos por dar voz às manifestações pró-independência e a outras questões que a censura até então proibia, o que sucedeu com vários artigos meus. Mas este lá passou. Voltei ainda no mesmo ano, após a independência para tentar a travessia oceânica de canoa.,. Não realizaria esse sonho mas acabaria por conhecer uma dramática experiência de náufrago ao longo de 38 dias. https://canoasdomar.blogspot.com/2019/11/34-dia-perdido-no-golfo-da-guine-nao.html
CUSTO DE VIDA

(….) A roupa, o calçado, o sabão, é um subir que nunca mais acaba!
Ah! E o pão? O pão nosso de cada-dia? Para o dobro!
(...) Num destes , dias ,encontramo-nos com certa dona de casa ,no mercado Municipal. A título de curiosidade, perguntamos-lhe que espécie de géneros ia comprar. ( pagar). Começou por nos dizer, antes de mais, que era mãe de cinco filhos. E estava a adquirir condimentos para preparar um calúlú, o prato típico da terra ,para o almoço do seu marido e dos seus cinco filhos. E já que nos falou do seu marido, quisemos também saber qual a profissão e quanto ganhava.

Referiu que trabalha na Roça e ganha 28$00 diários. Em seguida, e antes de entrarmos no assunto que nos tinha levado a interpelá-la, pretendemos igualmente nos dissesse qua era a sua ocupação. Se fazia mais alguma coisa além das lides domésticas.

A esta pergunta, acrescentou que apenas cuidava dos filhos, pois eram ainda menores, andavam todos na escola, e, fora isso, tratava ainda de um pouco de criação. De uns leitãozitos, uns tantos bicos de galinhas, e de uma cabra, que criava lá no seu quintal. Criação essa, que, em seu ver lhe dá bastante jeito para fazer face aos seus gastos domésticos.

Depois falou-nos então, perto de uma banca que ali se encontrava, com os géneros expostos, dos que iria comprar para fazer o dito calúlú para o almoço do seu marido e dos seus filhos.

Para isso, segundo nos disse, precisaria de adquirir: 4$00 de kiábos,1$00 de beringelas, 1/2 kg de couve, que estava a 15$00 o kg, 2$00 de makaké, $50 de piripiri,1/2 kg de tomate, na altura 18$00, meio litro de óleo de palma pelo que ia dar 3$00,e no mercado do peixe que teria de comprar pelo menos 1,5k,que lhe custaria cerca de 25$00. Depois destas compras que teria ainda de passar pela loja a fim de ir comprar o arroz, pelo menos também cerca de 1,5kg, do trinca, que lhe ficaria a 7$00 o kg.

Depois passaria pela padaria, onde, como eram sete ao todo lá em casa, gastaria mais 7$00,pois o pão agora está a 1$00 cada um. Quanto à fruta, que teria de levar umas 7 ou 8 bananas, para sobremesa, de que não poderia prescindir, e lhe custariam 2$50

Finalmente, que teria apenas de pensar no frango ou galinha para confecionar o calúlú, mas de que ,apesar de estar a 35$00 o kg, não teria problemas pois de boa criação felizmente tinha lá no seu quintal.
Eis, pois, a traços largos os géneros e o custo por que viria a ficar um dos pratos a uma das muitas atarefadas e preocupadas donas de casa, á no burgo, para uma refeição do seu agregado familiar num vulgar dia da semana.

CONTINUAM A AUMENTAR AS COTAÇÕES DO CACAU, COPRA E COCONOTE

Segundo as ultimas informações que nos foram prestadas, os principais produtos agrícolas de S. Tomé — cacau, copra e coconote — continuam a aumentar de cotações no' mercado internacional, onde atingem números até agora nunca alcançados,
Em contrapartida (até perece um paradoxo) a principal mão-de-obra, pelo menos a mais apreciada até a data, continua a registar acentuada sangria para o exterior, como consequente reflexo de uma menor produtividade e aproveitamento das explorações agrícolas.

Um dos motivos da retirada dos trabalhadores rurais para outras parcelas' do território nacional, nomeadamente para a Metrópole, é, como se sabe, o da procura de uma melhor compensação salarial, e de outras regalias que os 28$00 que aqui lhes pagam não chega a satisfazer.

sábado, 25 de julho de 2026

1ºGoverno Constitucional Português liderado por Mário Soares, 23-0-1976 , sem maioria absoluta, há 50 anos, marco fundador da democracia portuguesa.

Reportagem de Jorge Trabulo Marques




1ºGoverno Constitucional liderado por Mário Soares, 23-0-1976 , sem maioria absoluta, há 50 anos, marco fundador da democracia portuguesa.

A sessão evocativa decorreu, na noite de Quinta Feira, na sede do Partido Socialista , assinalando o significado histórico do primeiro Governo Constitucional e refletindo sobre o contributo dos sucessivos Governos do Partido Socialista para a consolidação da democracia, do Estado Social e do desenvolvimento de Portugal.
A efeméride evocativa contou além de Isabel Soares, filha de Mário Soares e de antigos membros do I Governo Constitucional Rui Vilar e António Barreto, com a participação, do secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, tendo sublinhando, na sua intervenção, que o I Governo Constitucional "mostrou que era possível ter um executivo baseado no poder democrático, tendo como limite dos seus poderes a Constituição, o respeito pelas liberdade públicas, o diálogo com as oposições e a valorização da concertação social"


Outro dos oradores foi Carlos César, Presidente do Partido Socialista, que defendeu o diálogo ao centro entre os partidos fundamentais da democracia como a "caução do regime" e criticou as "complicações" do atual governo.
Sublinhando que "não há nunca razão definitiva" para o país pensar que está "condenado a parar no tempo ou a andar para trás", mesmo que haja mudanças no contexto internacional ou uma avaliação negativa do Governo.
Mesmo nos tempos que vivemos, seja no plano europeu e internacional, seja face à avaliação que por estes dias fazemos do atual Governo da República , incluindo as complicações que têm envolvido as figuras e os mandatos do primeiro-ministro, do ministro da Presidência, da ministra da Saúde, da ministra do Trabalho, do ministro da Educação ou do ministro da Administração Interna", acrescentou.
Para Carlos César, "sejam quais forem as contrariedades conjunturais", deve-se "continuar a confiar nas capacidades e nos destinos do país"














quinta-feira, 23 de julho de 2026

Aniversário de Amália Rodrigues – Nasceu em 23-07-1920, em Lisboa - Amor e o Sexo na Sua Vida .Minha entrevista com a diva do fado

Jorge Trabulo Marques - Jornalista

 

Aniversário de Amália Rodrigues – Nasceu em 23-07-1920, em Lisboa - Amor e o Sexo na Sua Vida .Minha entrevista com a diva do fado. E a pose fotográfica que me concedeu, frente ao retrato da Severa, na Adega Machado, no final da apresentação da obra UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA”. Por Vitor Pavão dos Santos, com autógrafos de ambos

ENTREVISTA - Dividida em  duas partes - separadas por um breve separador musical - Parte do diálogo e a  discussão que se seguiu quando se arrependeu. Não se revelam os pormenores mais íntimos  - Tive que escapar-me de sua casa – com toda a sua “corte” atrás de mim para não ficar sem o gravador e a cassete 


AS PAZES...E A HOMENAGEM DE UMA FOTO EXCLUSIVA

Amália Rodrigues à frente do retrato da Severa - Esta imagem foi registada no dia do lançamento do livro, " Uma Estranha Forma de Vida", de autoria de Vítor Pavão dos Santos , que teve lugar na Adega Machado - A origem de Amália Rodrigues: um mistério centenário



O  posterior encontro com Amália Rodrigues ocorreu   já na ponta final da sessão do lanlamento da sua  biografia, quando os repórteres fotográficos e a maioria das pessoas, haviam saído. 
Eu fizera outras fotografias mas andara por ali discretamente. Aguardei para o fim, cauteloso, pois não sabia como ela ia reagir à minha presença: surpreendentemente foi amistosa: "Vá... então dê cá um beijinho e tire-me aí uma fotografia!"....

Não cabia em mim de contente.... Até já parecia que estávamos mais à vontade que o resto da sua comitiva...Finalmente acabou-se o pesadelo.. Autografou-me a obra (a que se juntou o autógrafo de Victor Pavão) e parti dali como se fosse um velho amigo....

Creio que houve mais uma pessoa que terá aproveitado a oportunidade para registar a mesma pose. Mas ela voltou-se, foi para mim e perguntou-me: "Você está aqui?!..." Eu respondi-lhe: " Sim, estou aqui porque não hei-de estar aqui?!... Quem não deve não teme!... Amália, sabe dizer-me se alguma vez eu usei as suas palavras da entrevista? .. As transmiti ou as publiquei nalgum jornal?!...Desculpe não ter-lhe dado a cassete e tê-la deixado se calhar preocupada mas Amália também queria o gravador e eu não podia ficar sem ele

Porém, embora nesse reencontro, com o repórter,  reconhecesse que não havia razões para ficar preocupada, me autorizasse a divulga-la, mesmo assim decidi  não a editar completamente



A entrevista inseria-se numa série de entrevistas, que me foram encomendadas pelo semanário Tal & Qual, com várias personalidades da vida portuguesa, acerca da "primeira vez", ou seja, sobre a primeira  relação sexual - Foi no principio da década 80, num período em que, certos tabus,  acerca  da sexualidade,  se rompiam graças aos ventos da revolução de Abril.




Entre as figuras entrevistadas , contam-se: Carlos Botelho, Graça Lobo, Simone de Oliveira, Raul Solnado, Vitoriano Almeida, Ary dos Santos, Narana Coixoró, Raúl Calado, Ivone Silva, Afonso Moura Guedes, entre outras figuras  - A Amália aceitou o desafio mas, a dada altura do momento da entrevista, arrependeu-se
 Telefonara-lhe do Botequim, tendo aceite a minha visita, que ia fazer a sua casa pela 3ª vez. Mas, às tantas da gravação, arrependeu-se e quis ficar-me com o gravador e a cassete. E eu não tive outro remédio senão tirar-lho da mão e precipitar-me numa corrida apressada  pelas escadas abaixo,  à frente dela e do grupo de  amigas, que se encontravam em sua casa.

Mais tarde, no final da sessão do lançamento da sua biografia, Estranha Forma de Vida, fizemos as pazes, selando o reencontro dando-me o prazer de a fotografar, numa pose de fadista, frente ao retrato da Severa - E, embora me autorizasse a divulgá-la, não o fiz nem o vou fazer - Senão apenas reproduzir um breve excerto. inócuo, e o diálogo subsequente(este sim, na íntegra) quando me esforcei por convencê-la a fazer uma segunda entrevista mais ponderada. - Só que, ao mesmo tempo que procurava desagravá-la para gravar outra, ia gravando também a conversa que ambos íamos travando - Por feliz coincidências, acabei por ficar com ambos os registo

Amália sempre foi um coração de oiro, expansivo, alegre e frontal; muito generosa e soube perdoar. Mas o nosso país pequeno demais para a sua grandeza mas uma grande quinta para os invejosos. Tinha muitas razões para se acautelar....Não foi a queda do regime que a magoou mas certos extremismos e oportunismos . Aliás, foi até depois do 25 de Abril, que Amália recebeu as maiores homenagens e distinções. .Foi condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então presidente da República, Mário Soares. Ao mesmo tempo, atravessa dissabores financeiros que a obrigam a desfazer-se de algum do seu património - In..Amália Rodrigues – Wikipédia,
 
Curiosamente as farpas vieram dos que se notabilizaram em boa parte à sua custa.. Foi alvo de boatos pelos jornais e por algumas pessoas de uma certa esquerda oportunista e extremista que se meteram na sua vida íntima e a  acusaram de gatos e lagartos. .

              A ENTREVISTA FOI SUGERIDA POR  NATÁLIA CORREIA

A entrevista foi congeminada e combinada no Botequim da Natália Correia - Aliás, tal como outras sobre o mesmo tema, publicadas no Tal & Qual. Tendo, até, por via disso, chegado a escrever no Diário de Notícias, em defesa de Afonso Moura Guedes, quando Vera Lagoa (Maria Armanda Falcão) o atacou nas páginas do Semanário O DIABO 

"Então porque não entrevista a Amália?!... Seria interessante sabermos como a nossa diva do fado se desvirginou!..." - A sugestão foi secundada por uma gargalhada geral. Pois a voz da Natália (mesmo que o Botequim estivesse cheio), distinguia-se perfeitamente entre a música do piano ou o barulho de outras vozes. Ainda conservo alguns registos gravados do ambiente e de ela a cantar: "Morte que Mataste Lira" - Em sua homenagem, aqui vai uma das canções que tanto gostava.

Nem mais um instante hesitei. Estava sentado junto ao balcão do bar. Fui à minha agenda, peguei no telefone, que estava mesmo ali à mão e disquei diretamente para casa de Amália. Era já um pouco tarde, pedi-lhe desculpa pelo adiantado da hora e disse-lhe que gostaria de lhe fazer uma pequena entrevista para o Tal & Qual - Acedeu “Já está combinada!... Vou lá amanhã!" - disse imediatamente à Natália "Parabéns!... Estou cheia de curiosidade" - remata a autora da Mátria 

Na tarde do dia seguinte, lá me apresentei no antigo solar da Amália, no 1º andar do nº 193 da Rua de São Bento - hoje transformado em Casa Museu - Amália  - Era a terceira vez que me dava o prazer de me receber em sua casa. Sim, na altura a concorrência da rádio e da televisão, não era como agora. Estava na companhia de Maluda e de um restrito grupo de familiares e pessoas amigas. 

A entrevista discorria sobre a primeira relação sexual. Mas a pergunta sacramental só viria depois do preâmbulo . Fui torneando a questão "moli e moli", como se diz em África: nunca lhe cheguei a dizer que o tema principal da entrevista era que me revelasse como tinha sido a sua primeira queca ou quem primeiro arranhou. Foi-se discorrendo... Houve que andar pelos preliminares... Até que, por fim, lá confessou o desgosto que a assolapada paixão lhe havia causado.


Recebeu-me de uma forma muito amável, no alto das escadas, muito sorridente, naquela sua expressão, a que o público também se habituou, sempre que aparecia em palco. Amália era íntegra, a hipocrisia e o fingimento não faziam parte do seu carácter. No fundo, era assim para toda a gente - para os amigos e gente anónima. Amália não tinha duas faces. Só quando cantava o fado, então é que o seu rosto era a dor ou a alegria das composições que interpretava.



Logo que transpus o último degrau, cumprimentou-me com um beijinho, levando-me de seguida para junto de um grupo de amigas, que estavam lá mais à frente, a um canto da casa do lado esquerdo e junto à janela, que corresponderam simpaticamente. E lá passei um grande bocado da tarde. Curiosamente, não se falava de outra coisa senão de sexo. Claro, de uma forma trivial: de fofoquices. Sem qualquer carácter obsceno. E foi com estas palavras que me apresentou às suas amigas: "Você também gosta de falar de sexo?!... Elas são marotas!... Não faça caso que elas sabem muito mais do que eu!..." - "Estejam à vontade"- respondi. "Eu também gosto de conversar sobre essas coisas...

 E, de facto, mesmo reconhecendo que a conversa andava à volta de questões relacionadas com o amor, o sexo, episódios de namoricos, cenas de filmes românticos e coisas do género, tive a percepção de que, Amália, estava longe de imaginar a pergunta marota que eu levava engatilhada - Costuma-se dizer que as boas reportagens são aquelas que vêm ao encontro do repórter e não as programadas - E, em boa parte, foi o que sucedeu..


Não manifestei a menor pressa em fazer qualquer registo no gravador. Por algum tempo, quase me ia esquecendo que estava ali para entrevistar Amália. Direi que não fui um participante activo nos diversos diálogos mas um ouvinte muito atento - Pois, embora bem recebido, não fazia parte do seu núcleo íntimo das suas amizades . Mesmo, perante um ambiente, tão descontraído, tinha de saber ocupar o meu lugar - E, quando se está perante alguém que diz coisas engraçadas, que nos dão prazer, é preferível falar menos e ouvir mais. Foi esse o meu papel 


De resto, Amália, até nem era das pessoas que mais falava. Gracejava, divertia-se dando umas piadas para apimentar a conversa.

Pelo que me apercebi, aquela restrita tertúlia, reunia-se com Amália, não tanto para lhe ouvir as histórias ou desabafos, mas para lhe servir de corte - Tal como os bobos e as damas na corte dos réis. Adoravam Amália e reconheciam-na como a diva, como a rainha. Estava lá também o irmão Vicente, a sua irmã Celeste e a pintora moçambicana Maluda e mais duas amigas. Não as reconheci, mas pareceu-me que eram as visitas especiais daquela tarde. Mas quem se impunha era Maluda - Sentia-se tão à vontade, que parecia fazer parte da casa, tal como o irmão e a irmã da Amália.

Maluda era de complexão forte - a saúde é que acabou por ser fraca e a levou cedo. Fazia parte do restrito grupo das pessoas íntimas de Amália - Também se promoveu à sua custa. Se não fosse essa relação estreita, estou convencida que as famosas janelas, pintadas pela artista moçambicana, teriam ficado no anonimato.


Não tinha papas na língua. Era ela a moderadora, quem trazia os temas à baila. E também a voz mais troante, até parecia ser a governanta da casa. O Vicente ria-se muito mas quase não abria a boca. A Celeste, também sempre muito alegre e participativa. As outras duas amigas, riam-se como as crianças, por tudo e por nada: - Riam-se do que contavam e das risadas que provocavam

Amália, mesmo não sendo a que puxava pelas histórias, era a voz que mais sobressaía. Sempre bem disposta. E com os seus apartes. Mas não falava dela. Se, no pequeno grupo, imaginássemos, em vez de pessoas, instrumentos ou uma sessão de fados, dir-se-ia que, as demais presenças, eram simplesmente instrumento de cordas, as guitarras que acompanhavam, e, Amália, a eterna cantadeira - Amália denotava uma grande sensibilidade e curiosidade em ouvir as pessoas que faziam parte do seu núcleo de amizade e gostava de as pôr a falar. As pessoas inteligentes não gostam de perder tempo a expandir-se em trivialidades. Mas sabem ser socáveis. E gostam de ouvir.

Deixava falar as amigas . Mas não se distanciava do diálogo. Era participativa. E as suas palavras (mesmo não cantadas) soavam com a sonoridade, que lhe é própria, tal como só ela as sabia dizer: soavam à voz inconfundível da grande fadista - A voz da Amália era sonoramente bela, falada ou cantada. O falar de Amália era tão agradável como os fados cantados - Como ela, dificilmente surgirá algum dia quem a imite.Já ali havia estado por duas vezes, em sua casa, mas apenas durante o tempo tomado para as entrevistas - Agora, de forma algo inesperada, passava ali uma tarde. - Sentia-me como se fosse uma visita habitual da casa da Amália - Até que, por fim, e vendo-a tão bem disposta, achei estarem reunidas as condições para lhe colocar algumas questões(delicadas) sobre a sua vida pessoal - "Como havia sido a sua primeira relação sexual"

E, não querendo que o barulho das outras vozes, pudesse afectar a qualidade gravação (mas sobretudo para estarmos mais à vontade) - perguntei-lhe se não se importava de nos sentarmos nutro sítio - Fui então que me conduziu para o lado oposto da sala, próximo do último degrau da escadaria, onde nos sentámos junto a uma pequena mesa, com o gravador sobre a superfície da mesma.


"Então diga lá o que me quer?!..." - pergunta-me ela, visivelmente bem disposta. Respondi-lhe: "Vamos falar sobre o que estavam a falar... Umas palavrinhas da Amália...Diga o que quiser sobre o assunto...E seja sincera como costuma ser e estavam a ser..Eu gosto muito de a ouvir cantar e também falar". Tive o cuidado de não usar o termo sexo para não lhe criar alguns antagonismos. Pese o facto, como disse, da conversa se haver estendido, praticamente sobre fofoquices desse género.

Sem dúvida, deram-me muito prazer aqueles momentos de convívio- No entanto, o meu objectivo principal era a entrevista, que eu não queria perder. Não tirava da mente esse desejo porfiado. Diria que agi (sem falsa modéstia) um pouco como o prestigiador. E, antes de contar o resto da história, vou explicar de seguida - talvez as razões de algumas dessas propensões

Devo dizer que, na conversa prévia, que tivera de véspera com Amália Rodrigues, eu fora um pouco omisso. Mas também devo sublinhar que não a traí porque as perguntas foram sempre muito claras, só que progressivas... Ao mesmo tempo que não deixava de a fixar... Encantado pelo que me ia dizendo... Não tanto pelo facto das suas confissões mas pela sua sinceridade. Claro que ela estava absolutamente segura do que dizia....Longe de se poder afirmar que estivesse hipnotizada... Só que se esquecera que havia ali um gravador... Mas, às tantas, lá se deu conta para onde estava a resvalar... e despertou para outra realidade... 

Depois foi um grande bico de obra... Tive que sair de lá a correr... - Quase me ia precipitando ao descer as escadas... ela e a sua "corte" correram todos atrás de mim. Vieram até à rua... Só descansei, quando apanhei um táxi... E até o taxista se apercebeu, perguntando-me o que é que se havia passado à porta da Amália com ela atrás de mim e quem na sala lhe fazia companhia naquela tarde..

A Maluda era a mais danada e inconformada...Mal eu dei ares de desandar, correu logo atrás de mim, como uma cavalona... "És mais parva do que ele!... Foste logo a falar da tua vida pessoal!..." A sua ira dava em recriminar a Amália .Já nem sequer eu era o mau da fita, mas a sua amiga.

Estou convencido que se me apanhassem, tiravam-me o gravador e ainda levava uma tareia. A entrevista ficaria a meio. 

A Amália arrependeu-se e quis tirar-me a cassete e o gravador... Argumentando: "Sou uma figura pública!...Mas que tonta estou eu!... Que disparates estou eu para aqui a dizer?!..." Ainda tenho estes desabafos gravados. Ora, mas que culpa tinha eu de dizer aquilo que não lhe convinha dizer?!... Era adulta e crescida. 

De resto, até achava que não havia dito nada especial ou de escandaloso... Mas subitamente muda de opinião. Ainda lhe propus desgravarmos e começarmos outra entrevista, anuiu mas acabaria por não aceitar. 

Eu é que não podia era ficar sem o gravador, porque não era meu mas da estação onde trabalhava - Era o meu instrumento de trabalho. Tirou-mo das mãos. Tentou tirar a cassete do seu interior mas a mola estava partida e não saltava para fora.

Eu disse-lhe: "Amália, tenha calma... Eu dou-lhe já a cassete... Dê-me o gravador por favor que não é meu ou então vamos começar de novo..."

Com Vergilio Ferreira em sua casa
Ela ainda chegou a concordar... Só que depois apercebeu-se que eu não estava a desgravar a entrevista ... Amália tinha um sexto sentido muito apurado.... Só era enganada se queria... Era muito inteligente e muito sensível. Ela quase adivinhava o que ia na cabeça das pessoas com quem falava... Fiquei com essa impressão... Tive esse eco... 

Creio que ela captou os meus pensamentos como se fosse um radar a captar as mensagens do inimigo... Eu não queria perder o primeiro registo...Até para não ficar sem nada... Sobretudo à medida que ela própria valorizava a entrevista, a que eu até aí não atribuía nada de especial E Amália apanhou-me a vibração... Grande mulher!...Tinha essa ideia fisgada e ela pressentiu-a.. Não tive a menor dúvida. E já não havia nada a fazer senão procurar recuperar ao menos o gravador. E mais se convenceu da marosca, quando eu lhe disse: "Bom mas temos que nos calar senão vai ficar tudo o que agora estamos a dizer..."

Ficou então duplamente ainda mais preocupada e com a sensibilidade à flor da pele.... Rapidamente fez a leitura de tudo o que ia na minha cabeça... Subitamente senti-me como que desmascarado... Mas também nunca dei o flanco e procurei sempre proteger o meu tesouro...Se há coisa que poderá deixar mais frustrado um jornalista é ficar sem a sua entrevista ou sem a sua reportagem. Quantos não recolhem importantes "furos" de gravador escondido ou câmara oculta, mas o meu gravador estava ali pousado sobre a mesa. Ambos estávamos sentados e não havia ali nenhum jogo escondido. Não estava a cometer nenhum atentado ou crime à honra da Amália.

Já havia passado por uma experiência, com quase idênticos contornos, com as confissões de um elemento da ETA, em Las Palmas. Deu-me a entrevista à noite (contando-me como ele e o seu grupo haviam assassinado um general em Madrid - olhos vendados e de cano de pistola apontado aos ouvidos , jogando à roleta russa ), mas, o diabo do sujeito, pouco depois, arrependeu-se e foi bater ao meu quarto para que lhe devolvesse a cassete. Disse-lhe que lha entregaria de manha. Só que eu levantei-me mais cedo e mudei de pensão. Era das mais modestas da cidade onde não eram pedidos elementos de identificação pessoais.




Com o escritor Jorge Amado
De facto, Amália tinha razão: ela já não confiava em mim nem no próprio gravador: terá pensado que, além da cassete, ele esconderia algum segredo. Estava muito desconfiada. E realmente já não havia apenas um registo mas dois: o da entrevista, de que ela se arrependeu e depois os lamentos dela, as suas justificações, durante vários minutos. Foi então que me voltou apanhar o gravador: "Você não leva o gravador!!!... Vá à sua vida que não leva o gravador!!... A mim não me engana!!..." Bom, nisto o grupo (que até aí se manteve indiferente junto à janela) pára de conversar e faz-se um silêncio sepulcral na sala... Já só se ouve então a Amália a dizer, meia arreliada: "Você não leva o gravador! Vá à sua vida!.."e eu a pedir-lhe, insistentemente, que mo devolvesse. E a Maluda, que já tinha olhado várias vezes para nós e parecia algo desconfiada de que havia por ali gato, pergunta, com voz alterada e meia zangada: "Amália!... o que se passa?!!...O que é que esse gajo te quer fazer?!....Eu já corro com ele!!!.. ...Já trato dele!!.."

Vendo a ameaça iminente da presença da Maluda, seguida pelo grupo, e quando ela lhe responde. "Eu disse umas coisas parvas e não quero que ele leve o gravador!.. Ele não vai levar o gravador!...Não vai levar o gravador!... quero que ele se vá já embora!" Pois bem, aproveitando então o instante em que ela olha em direcção à Maluda, sim, apanhando-a distraída, tiro-lho o gravador e desato a fugir escada abaixo.

Numa grande noite do fado, ao passar frente ao camarim, nos bastidores do Coliseu dos Recreios, ela viu-me: "Mas o que é que você anda para aqui a fazer?!!..." - Tive que me escapar imediatamente dali, antes que fizesse algum escândalo. Mais tarde fizemos as pazes: foi no lançamento do livro de Victor Pavão - "Uma Estranha forma de vida", que decorreu na Adega Machado. Autografou-me o livro e deu-me um beijinho muito querido. Depois pousou expressamente para mim, à frente do retrato da Severa – Obrigado Amália Rodrigues  por tão belo momento, cuja foto guardo como um relicário. Também fazia anos em Julho e era do signo Leão, tal como a Bethe. Já vi que cada biógrafo apresenta a sua data, mas creio que você me disse que fazia anos no dia 26 de Julho. Mas também já não estou bem certo...

Adorava ter sido seu conselheiro. Vi que tinha um fraquinho pela astrologia. E eu também sou um curioso dessas questões. Pois ainda falámos sobre o assunto. Fui o Rasputin de várias damas que me foram apresentadas pela bethe - a russa Ludmila, no Ritz, é que me catalogou desse alcunha. Elas queriam mais alguma coisa: que eu fizesse feitiços aos maridos... pelas mais diversas razões. Mas era consigo que eu me teria sentido um príncipe numa corte real. E olhe que gostaria apenas de ter estado no papel de um mero pajem ou animador de convívios. Marimbar-me-ia para o resto. Mesmo já com a idade que tinha. Sim, não era o sexo... Mas a presença fascinante da sua personalidade!... Nunca mais no mundo vai aparecer figura igual!.

Amália tinha também o seu lado de vespa quando subia aos arames... Que eu dei-me conta disso... Zangada era como uma leoa da selva... Mas, no fundo, ela era mesmo a grande diva: não apenas do fado mas como pessoa. Fora bela, sorridente e escultural, quando nova. E, mesmo quando os anos já avançavam, até parecia que nada nela havia mudado: mais ainda: firmara-se no seu rosto, no seu inigualável perfil, o sorriso, a expressão, o olhar entre o alegre e o triste, a candura e a natural beleza, tal como o escultor que eterniza o instante mais nobre e magnífico do busto de uma rainha ou de uma princesa.

Muito determinada e senhora do seu querer e das suas ideias. Era forte como uma padeira de Aljubarrota mas ao mesmo tempo tão frágil como a flor mais bela de um maravilhoso jardim. Esse é o tipo de mulheres que eu sempre mais admirei. Paradoxalmente, em vez de serem os seus namorados a perderem a cabeça por ela, afinal foi a Amália que chegou quase a suicidar-se por um deles...- E tanta vida ainda à sua frente!... - E logo num primeiro embeiçado!...Ele não merecia tão alto suplício, como, de resto, ela reconheceu. Que desastre, mais fatídico, não teria sido para ela, para o fado e para todos quantos ainda hoje a veneram e admiram!... Espero, todavia, que, quando reencarnar e decida cá voltar à companhia dos terrenos, para uma nova fase evolutiva, tenha aprendido melhor a lição...

Na verdade, a sua vida foi mesmo "Uma estranha forma de vida" - Mas que o destino felizmente soube preservar: "cantarei o fado até que a voz me doa" . E, de facto, só a morte lhe calou a voz mas não a memória e a fabulosa herança dos fados que nos legou.

Os milhões que a adoram e a continuam a idolatrar têm razão, porque ela era inimitável.. O seu nome e a sua voz, agora continuam ligados a uma estação de Rádio – A Rádio Amália,  em tão boa hora, lhe dedicaram. Ela partiu mas a sua voz é eterna. Não está connosco fisicamente mas eu estou receptivo às comunicações do seu espírito, quando ela quiser....Quando me apanhar, naquelas noites, lá pelos penhascos da minha aldeia, dialogue comigo, minha alma querida!
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David Mourão-Ferreira E O SEU FILHO JOÃO DAVID -  LANÇAMENTO DO LIVRO "UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA"

O POETA E ESCRITOR FEZ APRESENTAÇÃO DA OBRA E DISSE PALAVRAS MUITO BONITAS SOBRE O SORRISO E A VOZ DA AMÁLIA - EXISTE UM VÍDEO EDITADO NO YOUTUBE Amália Lançamento do livro estranha forma de vid

AMÁLIA É O HETERÓNIMO DE PORTUGAL - DISSE O POETA

"Este é o livro do sorriso da Amália. Eu creio que se podia fazer um estudo sobre o sorriso da Amália. Porque, o sorriso de Amália exprime, simultaneamente, o que em nós há de sorridente e de triste. Porque, mesmo por baixo do não sorriso, vislumbramos dentro, o sorriso que tem sido como a voz , evidentemente, e com todo o fascínio da sua presença, um dos grande segredos do mito que é a Amália, do milagre que é a Amália e da grande sorte de todos nós sermos seus contemporâneos"

"Este livro leva-nos até à infância de Amália. Revive os lugares, as pessoas e, sobretudo, é um documento indispensável para compreendermos precisamente o seu extraordinário percurso"

"Falar de Portugal ou dizer português em qualquer parte do mundo é imediatamente ouvirmos como um eco o nome de Amália. Eu já disse uma vez que Amália é um heterónimo de Portugal" - David Mourão Ferreira




Está sepultada no Panteão Nacional, entre os portugueses mais ilustres. - De seu nome completo, Amália da Piedade Rodrigues, os pais eram da região de Castelo Branco mas nasceu em Lisboa, 23 de Julho de 1920, faleceu  na mesma cidade, que tantas vezes cantou e celebrou com a sua voz e timbre inigualáveis, em  6 de Outubro de 1999 - Além de fadista, escreveu também poemas e participou como atriz em vários filmes - Foi a maior embaixadora da música portuguesa de todos os tempos.

 Aqui presto, pois, nesta efeméride  do seu nascimento, e uma vez mais, a minha singela homenagem à grande Diva do Fado, que, por três vezes me deu a honra de me receber em sua casa -  Esperandp que este registo sonoro possa também constituir-se  como mais um interessante contributo para  estudiosos e admiradores da mítica  personalidade da Musa do Fado