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domingo, 19 de abril de 2026

Roberto Carlos De Parabéns pelos 85 anos- Entrevistei-o em 1982, em Lisboa - .Comemora hoje 85 anos com show em sua cidade natal, em Cachoeiro com programação especial da Semana do Rei, destacando sua trajetória e legado musical.

                                                                              Jorge Trabulo Marques - jornalista 

 Roberto Carlos De Parabéns pelos 85 anos- Entrevistei-o em 1982, em Lisboa - .Comemora hoje 85 anos  com show em sua cidade natal, em Cachoeiro com  programação especial da Semana do Rei, destacando sua trajetória e legado musical.     

Meus votos de que continue a caminhar e a cantar em espaços alegres, floridos e felizes

Entrevista a Roberto Carlos,  três anos depois do Canecão, caracterizado de palhaço: "Isso para mim era uma coisa nova!... Nunca havia-me caracterizado num palco" – Confessou-nos em 1982, num breve diálogo no aeroporto de Lisboa, momentos  de regressar ao Brasil

Roberto Carlos, considerado um dos cantores mais populares da história do Brasil, o decidiu voltar às origens para celebrar uma data especial: o aniversário de 85 anos

Entrevista a Roberto Carlos,  três anos depois do Canecão, caracterizado de palhaço: "Isso para mim era uma coisa nova!... Nunca havia-me caracterizado num palco" – Confessou-nos em 1982, num breve diálogo no aeroporto de Lisboa, momentos  de regressar ao Brasil

                                                Linda canção dedicada à sua querida Mãe 

Em julho de 1982, Roberto Carlos realizou uma marcante digressão por Portugal, com concertos em Lisboa e Portimão. Pouco antes do seu regresso ao Brasil, concedeu-me uma entrevista, bem como sua querida mãe, Layd Lura. , Laura Moreira Braga,, que viria a falecer aos 96 anos,no dia 17 de abril de 2010, dois dias antes do aniversário de seu filho 




Foi um autêntico voo das carteiras - Na digressão que Roberto Carlos fez a Portugal, em 1982 – a Lisboa, Portimão e Porto – além de falhas de vária ordem da   organização promotora dos espetáculos, que deixava tudo para a última hora, ainda por cima a equipa técnica, de Roberto Técnica, foi aliviada das carteiras, em dinheiro e  documentos. – Declarações de Robinson  Paraíso, para a Rádio Comercial, momentos antes do embarque no aeroporto de Lisboa. a que nos referimos em postagem anterior.  

REGRESSO TRANQUILO – Ao contrário da chegada

O regresso de Roberto Carlos, ao Brasil, após a sua digressão a Portugal, acompanhado por sua mãe e equipa técnica, dir-se-ia ter sido muito tranquilo. Contrariamente à confusão que se gerou com à sua chegada,  com imenso público a esperá-lo, além de um  batalhão de repórteres. 

A partida  passou despercebida à imprensa. Porém, quis um feliz acaso que soubéssemos que, Roberto Carlos, estava no aeroporto de Lisboa, prestes a embarcar. E, mal soubemos, de imediato procurámos ir ao seu encontro para lhe pedirmos uma entrevista para o programa “Hora Ora!”, da então  Rádio Comercial-RDP, que gentilmente nos concedeu, após o que também tivemos oportunidade de entrevistarmos Lady Laura e registarmos umas breves declarações da equipa técnica, que parecia não partir muito satisfeita, tendo-nos confessado, o chefe de produção, "A chegada foi muito tumultuada pela falta de organização inclusive, nossa fomos roubados. Eu fui roubado em todos os documentos e todo o dinheiro que tinha em meu poder. Aproximadamente uns 1800 dólares, mais 23 mil escudos. E o meu colega foi roubado nos documentos: os documentos aparceiram, o dinheiro é que não (… ) Mas, enfim, tudo bateu certo” - Disse-nos Robinson Paraíso


DIGRESSÃO “MUITO BOA”!... MARAVILHOSA!... ESTOU FELIZ COM TUDO!” 
   

"A vida é a minha musa inspiradora” – Recordando a entrevista que  Roberto Carlos, me concedeu, em 1992, no aeroporto de Lisboa e pouco depois de ter entrevistado sua mãe, Lady Laura,  momentos antes de  regressar ao Brasil, após a sua digressão a Portugal - Confessando-se “muito feliz pelos shows que deu em Lisboa, no Porto e no Algarve”  e pela receção que lhe foi proporcionada “ Inquirido, entre outras questões, se se tinha sentido bem ao representar o papel de palhaço, num espetáculo do Canecão, respondeu que para ele “era uma coisa nova, eu nunca havia-me  caracterizado de qualquer coisa no palco e eu queria ter a certeza que sabia fazer bem aquele número.”

JTM – Prestes a partir – a alguns minutos antes da sua partida: que tal a sua partida pro cá?
RC – Muito boa! Maravilhosa! Estou muito feliz com tudo! Com o Show de Lisboa! Do Algarve! Do Porto!...Tudo correu maravilhoso!... Os portugueses  me receberem bem! Em todas as partes!... Como sempre!.. os portugueses, são sempre assim…
(…) JTM -Projetos futuros..
RC – Projetos futuros! Voltar a Portugal!... O mais breve possível…. Agora chegou no Brasil: vou terminar as músicas do próximo disco… Gravo em Setembro e, em Dezembro, temos um novo disco.
JTM – Projetos futuros?...
RC – Projetos futuros! Voltar a Portugal!... O mais breve possível…. Agora chegou no Brasil: vou terminara as músicas do próximo disco… Gravo em Setembro e, em Dezembro, temos um novo disco. 

FÉRIAS, SÓ NO CARNAVAL



JTM – Quanto a férias: pensa gozar férias aonde?...
RC – Ferias, em Fevereiro, na época do carnaval….
JTM – Na época do carnal porquê?.... Entretanto, ainda há muito trabalho…
RC – Porque é  uma boa oportunidade, aproveitar o carnaval e tirar férias!.... (sorrindo) Ou irar férias e aproveitar o carnaval!... Uma coisa combina com a outra!...
JTM – Até lá o Roberto Carlos ainda vai dar as suas passeatas!... Sabemos que, Roberto Carlos, gosta muito do mar! …. Que é um apaixonado pelo mar!..
RC - Ah, sim! Claro, claro… cada vez que eu posso dou uma fugidinha no mar, a pescar!...

RASGADO ELOGIO  ÀS MULHERES PORTUGUESAS – de quem se pode inspirar e qualquer lugar e em qualquer hora.



JTM – Quanto á mulher Portuguesa:  que é que achou?
RC – O que é que achei, não!... O que é que eu acho!... As mulheres portuguesas são maravilhosas! São bonitas!.. São carinhosas!...
JTM  -  O  facto de ter vindo a Portugal, tê-lo-á inspirado para alguma composição, digamos?
RC – e acho que sempre há um motivo para gente fazer uma nova canção. Volvendo e observando a vida…. Digo sempre que a vida é a minha musa inspiradora mais importante... Na vida a gente tira todos os temas. E, logicamente, andando pelo mundo, andado por Portugal e voltando ao Brasil, há sempre alguma coisa  de ver…

JTM – Roberto Carlos cria mais de noite ou em qualquer altura?
RC – Em qualquer hora e em qualquer lugar… É imprevisível!... Porque, num avião ou simplesmente num carro ou em casa…Enfim, em qualquer lugar.

JTM – E até num calhambeque!...
RC – (sorrindo) … Sim, e até num calhambeque

O DIA EM QUE TEVE DE  SE MAQUILHAR DE PALHAÇO  --.”Isso para mim era uma coisa nova!
.
Pelos vistos, uma experiência para o artista, muito interessante, mas que, tal como nos confessou,  foi antecipadamente bem  preparada para não cair no ridículo gratuito..  E da qual então muito se falou – E ainda hoje se fala – Diz-se que “ A idéia do rei-palhaço foi de Ronaldo Bôscoli, que, inspirando-se numa capa de disco de Frank Sinatra (em que este estava trajado de palhaço) apresentou a proposta ao amigo, Miéle, que tinha consciência de que, caso aquilo não desse certo, seria o fim de suas carreiras. Roberto não aceitou de imediato a proposta, ficando de pensar melhor no assunto. Nesse processo de convencimento do artista, os produtores ganharam uma aliada importante: a mãe de Roberto Carlos, dona Laura. Ela se revelou profundamente comovida com a ideia de o filho se maquiar de palhaço em cena e defendeu isso em casa. "Desde criança, fui fascinada por palhaços. Era a minha fantasia preferida quando menina", justifica. Embora forte, esse apoio não garantia por si só que o cantor se deixaria convencer – Excerto de . O Meu Coração É Como Um Palco - 'Show do Palhaço'

Mas eis o que nos confessou, sobre o assunto:

JTM – É verdade que você um dia teve que se maquilhar de palhaço… E exatamente num período difícil da sua vida!...
RC - Não tive que fazer isso!... Eu fiz isso porque foi um número que eu me propus fazer num show do Canecão. Um show de há 3 anos atrás. … E coincidiu que eu havia-me separado da minha ex-mulher, Alice.. E então… Mas não tinha nada uma coisa a ver com a outra.

JTM – Diga lá: gostou… gostou de representar esse papel?... Acho que receou um pouco…
RC – Não… Isso para mim era uma coisa nova!... Nunca havia-me caracterizado num palco!.. Nunca  havia-me caracterizado de qualquer coisa no palco!... Então para mim foi uma experiência nova!... E eu queria ter a certeza que ia fazer bem aquele número!.. Então eu ensaie aquele número durante um mês. Porém, eu só decidi fazer o número, mesmo… uma semana antes do show.

JTM – E que tal foi o espetáculo?
RC - Muito bom
Por fim, Roberto Carlos, teve ainda a amabilidade de dirigir umas amáveis palavras  aos ouvintes do Hora Ora! – que constam no vídeo




O QUE DIZ DE ROBERTO CARLOS – UM ANTIGO PROFISSIONAL DE RÁDIO E TELEVISÃO

Luís Pereira de Sousa, que era então jornalista da RTP e realizador e apresentador do programa Hora Ora!, programas em que participávamos, confessando-se, também, grande admirador das canções e do percurso de Roberto Carlos, num depoimento escrito expressamente para este apontamento, recorda-nos o que então se dizia:

"Piroso, meloso, foleiro, ídolo das “criadas de servir” etc, etc, era assim que apelidavam o jovem que viria a ser o Rei incontestado da canção em todo o Mundo da língua portuguesa e que soma centenas de milhões de admiradores que o acompanham com particular carinho desde há 5 décadas.

Foi então que eu também jovem locutor nos Clube Radiofónico dos Emissores Associados de Lisboa e mais tarde na Rádio Comercial, como muitos mais, recebi então, por indução  os mesmos pretensiosos epítetos.

Curiosamente Roberto foi adaptando a sua idade  às coisas da juventude, (rock) depois à reflexão e ao sentimento (romântico) que se tornaram marcas identificadoras como um Goya ou um Picasso.  



Há mais de 30 anos numa das primeiras idas ao Brasil assisti no Canecão ao espetáculo Emoções onde o Rei contracenava em filme com ele próprio e outros grandes interpretes numa linguagem até aí difícil e inovadora. Inesquecível a sua presença num palco onde com um rigor milimétrico falava, confidenciava, cantava, interagia com subtileza e bom gosto.



E como diria um sociólogo que observasse este fenómeno de popularidade, é bem um caso identificado como macro e microssociológico, porque Roberto que tanto a agradou a tantos também desagradou a muitos mas há que reconhecer que a uns e outros ele tocou em dado momento das suas vidas levando – os a escuta - lo e a sensibilizar – se e a descobrir em si uma emoção. É esta a tarefa de qualquer comunicador mas Robertos são raros, por isso preciosos.


 Só os sem coração não se emocionam com uma canção. Mas esses afinal não existem porque há sempre um dia em que o homem se apaixona por algo ou alguém.

Cada homem gostaria de cantar assim à sua amada e cada amada gostaria de ouvir assim o seu amado. E basta a alusão a essa letra ou melodia para nos aproximarmos. É o favor que Roberto faz a todos nós.

sábado, 18 de abril de 2026

Salgueiro Maia 25 de Abril - Testemunhos em vídeo de como foi sentida a sua morte, a 4 de Abril de 1992, por camaradas, oficiais generais e outras personalidades, designadamente, pelo Almirante Rosa Coutinho, Mário Soares, Hermínio Monteiro do PRD, António Roque Gameiro

Jornalista Salgueiro Maia  

 Fernando José Salgueiro, um dos símbolos dos capitães de Abril –nasceu em Castelo de Vide, no dia 1 de julho de 1944 – Faleceu no dia 4 de Abril de 1992 – Tinha então a patente de tenente Coronel – Foi um dos um dos capitães do Exército Português que liderou as forças revolucionárias da Revolução de 25 de Abril de 1974, que marcou o final da ditadura
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DEPOIMENTOS ACERCA DE UM HOMEM CORAJOSO, HONRADO E HONESTO – UM DOS SÍMBOLOS DA REVOLUÇÃO DO 25 DE ABRIL

Um dos homens responsáveis pela democracia em Portugal e um do símbolos dos capitães de Abril – Um dos militares que arriscou a própria vida e nunca se arrependeu dessa sua ação meritória
Um homem honrado honesto, com brio, um apatriota e é com muita mágoa que se vê perder uma camarada que ainda estava na flor da vida “ – Palavras de um general, cujo nome me não ocorre
Rosa Coutinho - Todos nós que fizemos a Revolução de Abril, consideramos Salgueiro Maia, um dos nossos, vemos, portanto, o seu falecimento como uma perda significativa. É evidente que os capitães de Abril irão morrendo: é pena que, no caso de Salgueiro Maia, e de outros, tenha sido tão cedo. Mas recordá-lo-emos sempre, como um homem muito digno! Um homem de grande coragem moral e física! Um homem de isenção exemplar. Um homem que nunca procurou honrarias, que nunca procurou benefícios pessoais e, cuja atitude, como Capitão de Abril, perdoará para a história: um homem com grande capacidade de sacrifício, não apreciando a Ribalta nem militar nem política


Mário Soares – Senti imenso a morte do Tenente-Coronel, Salgueiro Maia: além de tudo o mais era um amigo dele mas fui sempre um admirador: foi um militar íntegro! Foi um herói do 25 de Abril! Participou no 25 de Novembro! Foi um combatente da liberdade. Devemos-lhe muito! 

Portugal, hoje, democrático e pluralista, deve muito à ação pessoal de Salgueiro Maia e, por isso, todos nós portugueses, se devem inclinar sobre a sua morte, que representa uma grande perda para  o país foi, digamos, um Campeão da Liberdade

Herminio Martino - Salgueiro Maia era um amigo especial e uma amigo particular: pela sua postura na vida, pela sua integridade, pela grande dignidade, com que se comportava e conduzia toda a sua vida, eu penso que ele é merecedor do maior respeito e admiração dos portugueses: pela coragem e determinação, com que conduziu a sua vida, penso que lhe devem muito: não só os portugueses, em geral, como o regime democrático, em que hoje felizmente vivemos

António Roque Gameiro  - Não era pessoa de criar o mais pequeno conflito, fosse com quem fosse; em cada um com quem se relacionava, era uma amigo Era uma honestidade muito grande e não se aproveitou de nada


Fernando José Salgueiro, natural  de Castelo de Vide, 1 de julho de 1944, tendo falécio em Lisboa, 4 de abril de 1992),  foi um dos capitães do Exército Português que liderou as forças revolucionárias durante a Revolução de 25 de Abril de 1974, que marcou o final da ditadura.

Filho de um ferroviário, Francisco da Luz Maia, e de sua mulher, Francisca Silvéria Salgueiro, frequentou a Escola Primária em São Torcato, Coruche, fixando-se subsequentemente em Tomar; concluiu o ensino secundário no Liceu Nacional de Leiria (hoje Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo), ingressando, em outubro de 1964, na Academia Militar, em Lisboa. Acabado o curso, Salgueiro Maia foi colocado na Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, para frequentar o tirocínio. Na mesma instituição, ascendeu a comandante de instrução e integrou uma companhia dos comandos na Guerra Colonial. Depois da revolução, viria a licenciar-se em Ciências Políticas e Sociais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa
Em 1973 iniciam-se as reuniões clandestinas do Movimento das Forças Armadas e, Salgueiro Maia, como Delegado de Cavalaria, integra a Comissão Coordenadora do Movimento. Depois do 16 de Março de 1974 e do Levantamento das Caldas, foi Salgueiro Maia, a 25 de Abril desse ano, quem comandou a coluna de blindados que, vinda de Santarém, montou cerco aos ministérios do Terreiro do Paço forçando, já no final da tarde, a rendição de Marcelo Caetano, no Quartel do Carmo, que entregou a pasta do governo a António de Spínola. Salgueiro Maia escoltou Marcelo Caetano ao avião que o transportaria para o exílio no Brasil. Na madrugada de 25 de Abril de 74, durante a parada da Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, proferiu o célebre discurso: Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui! Todos os 240 homens que ouviram estas palavras, ditas de forma serena mas firme, tão característica de Salgueiro Maia, formaram de imediato à sua frente. Depois seguiram para Lisboa e marcharam sobre a ditadura.[1] [2] A 25 de Novembro de 1975 sai da EPC, comandando um grupo de carros às ordens do Presidente da República. Será transferido para os Açores, só voltando a Santarém em 1979, onde ficou a comandar o Presídio Militar de Santarém. Em 1984 regressa à EPC. Excertos de  Salgueiro Maia –  Outros elementos também em Biografia de Salgueiro Maia (

 


Fernando Namora - Escritor e Médico .15-04-1919 - 31-01-1989 Minha entrevista, em sua casa, dois anos antes de partir para a a eternidade, com o autor “Retalhos da Vida de Um Médico”, entre outras obras

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 



 
Escritor e Médico  O meu último encontro com o autor “Retalhos da Vida de Um Médico”, foi em 1987, doís anos antes  da sua morte – Na altura em que foi nomeado  Cidadão Honorário de Idanha-a-Nova, em 1987  - Hoje o  Presidente Marcelo lembrou o autor, um dos maiores, segundo a Associação Portuguesa de Escritores, Dois anos antes da morte do Fernando Namora, que padecia de doença prolongada, a Câmara Municipal de Idanha a Nova, atribuiu por unanimidade  ao escritor que residiu neste concelho e ali escreveu parte da sua vasta obra literária, o título de cidadão honorário – No dia seguinte, à noticia, avançada pelos jornais, que, segundo nos confessara,  surpreenderia,  agradavelmente,  o próprio autor de Retalhos da Vida de Um Médico (de cerca de três dezenas obras publicados, algumas das quais elevadas ao cinema, das  mais divulgadas e traduzidas nos anos 70 e 80), fomos recebidos em sua casa, para que nos falasse  dessa sua experiência, como médico, como homem e como escritor naquela região.

 Nessa altura, eu era jornalista na redação da Rádio Comercial RDP, colaborava na equipa da 24ª hora, e uma das minhas tarefas diárias, consistia, em todos os programas, apresentar declarações ou entrevistas com personalidades do nosso meio, nos vários domínios de atividade – Tendo tomado conhecimento, da referida distinção, telefonei a Fernando Namora, se não se importava  de me dar a sua opinião, pedido a que acedeu amavelmente, tanto mais que já nos conhecíamos de anteriores entrevistas, e, até de algum convívio, quer na sala de sua casa, como em acontecimentos literários – Sim, pois cheguei a ser quase seu vizinho, da Avenida Infante Santo, quando ali tive um romance amoroso.
Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista (fotos recolhidas da Net) - Ouça as suas palavras (intervaladas com breves sons musicais)




Cidadão Honorário de Idanha-a-Nova, em 1987  - "Eu ontem, tive conhecimento, através dos jornais da manhã…realmente, não me passava pela cabeça que a Câmara de Idanha-a-Nova tivesse tido essa iniciativa!... Como digo, foi para mim uma surpresa muito agradável” 

Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova em 15 de Abril de 1919 e faleceu em Lisboa, 31 de Janeiro de 1989 - .Dois anos depois destas suas declarações
Pertenceu à geração de 40, grupo que reuniu personalidades marcantes como Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado ou João José Cochofel.

O seu volume de estreia foi Relevos (1937), livro de poesia, “porventura sob a influência de Afonso Duarte e do grupo da Presença. Mas já publicara em conjunto com Carlos de Oliveira e Artur Varela, um pequeno livro de contos Cabeças de Barro. E, em 1938”,  o seu primeiro romance, As Sete Partidas do Mundo. A partir daí foi realmente o catapultar de uma obra vasta e rica, que estende por 27 títulos, cujo temática, partindo do espaço português, que o levaria como um viajante em demanda do mais largo conhecimento do mundo e das mais diversas gentes que o habitam.
É justamente considerado, como um dos nomes cimeiros da nossa literatura, e mesmo até Universal!.. Os dois últimos livros foram  Sentados na Relva, cadernos de um escritor – 1986 ; Jornal sem Data, cadernos de um escritor – 1988.

Sem dúvida, um homem simples mas de uma grandeza de alma fantástica, de uma grande generosidade, mas  a quem o destino haveria de reservar um fim de vida de enorme sofrimento – Ele que tinha ainda tanto para nos oferecer! –Morreu aos 69 anos.

 Um dia abriu-me uma das gavetas da sua secretária, e disse-me: Jorge! Está a ver o que aqui tenho ainda por publicar!...  Mas já não vou ter  tempo de o fazer!” – A que eu contrapus:  Senhor Dr: não diga isso!... Como sabe, a medicina, está muito avançada  e vai curar-se com certeza” – Sua resposta: Jorge!... Eu sou médico! Sei o que tenho! – E, de facto, pelo que me apercebi, tinha plena consciência da sua enfermidade, que, segundo ainda me recordo, o teria levado a implante esfíncter artificial.

Uns anos antes, recordo também o dia em que o encontrei num evento cultural, que decorria num dos salões do Hotel Sheraton (onde, afinal, iniciaria o dito romance )
creio que por altura do Natal: apareceu lá vestido com uma espécie de capote, parecendo mais um campesino de que um homem da cidade. Mas não se demorou por ali muito tempo, confessando-me: “já me vou embora! Estas coisas, cansam-me! E, de facto, tal como entrou, discretamente, assim saiu.

Eis como  é recordado pelo jornalista e escritor Baptista Bastos: “A notícia da próxima saída de um livro de Namora causava grande alvoroço. Ocasiões houve em que, antes de sair a público, a primeira edição de alguns dos seus livros (cinco mil, sete mil e quinhentos exemplares) já estavam esgotadas. E há títulos de Namora que constituem importantes documentos literários da vida portuguesa. O seu impressionante êxito: edições de milhares e milhares de exemplares, traduções constantes, ensaios, estudos exegeses, teses sobre a sua obra, amiudadas vezes requisitado pela Imprensa a fim de depor acerca de este e de aquele assunto; entrevistas, comentários - enfim, essa glória que o envolveu não deixou de causar invejas e ressentimentos. A vida literária portuguesa não é diferente da vida literária em outros países [leia-se, a título de exemplo, "Écrits Intimes", de Roger Vailland, outro grande esquecido]. E Namora, cuja generosidade e camaradagem eram lendárias, sentia, profundamente, a circunstância. No entanto, jamais deixou de ser amável e cortês, até efusivo, com muitos daqueles que o atropelavam nas tertúlias dos cafés." 

"Uma boa parte da minha obra, está ligada à Beira-Baixa!"

Eis como, Fernando Namora,  nos descreveu a sua experiência como médico, como homem e como escritor naquela região, referindo que foi uma surpresa agradável ao tomar conhecimento desta distinção

Suponho que devo confessar mais uma vez – já o tenho dito – frequentemente, sempre que se justifica, bem entendido,

A minha ida para a Beira Baixa – e mais concretamente a minha estada, durante dois anos e tal e depois ao longo dos anos que se seguiram, o facto de, com uma certa frequência, eu ir passar férias, enfim, ou ir passar uns tantos dias, a Monsanto, do Concelho de Idanha-a-Nova, deu-me um conhecimento muito íntimo, muito autêntico dessa região!... E teria bastado para isso o facto de eu ter sido lá médico: fui médico, não apenas em Monsanto, como também tinha sido anteriormente numa aldeia dos arredores de Castelo Branco e também médico de umas minas efémeras no concelho de Pena Macor –De qualquer modo, sempre na mesma região.

De modo que, essa experiência, enfim, como cidadão, como homem, e a experiência como médico; ou seja, o quanto essa experiência humana repercutiu depois na minha obra literária?... Pois é um facto!... E é um facto, enfim, confessado da minha parte e sabido  de umas tantas pessoas.

Não há dúvida nenhuma, que uma boa parte da minha obra, está ligada à Beira-Baixa! Está ligada a essa região!... Se eu não tivesse tido essa experiência humana, não a teria escrito!... Teria escrito outros livros, bem entendido, mas não aqueles.

Ora, o facto de ter havido da parte da Câmara de Idanha-a-Nova, o reconhecimento de que, efetivamente, assim aconteceu…. Isto é, que tanto a minha vida, como a minha obra literária foram bastante influenciadas pelo meu conhecimento, tão direto da vivência da Beira-Baixa, pois é um facto agradável e que eu não posso deixar de assinalar para mim próprio, tanto mais que constituiu uma surpresa!... Eu ontem, tive conhecimento, através dos jornais da manhã…realmente, não me passava pela cabeça que a Câmara de Idanha-a-Nova tivesse tido essa iniciativa!... Como digo, foi para mim uma surpresa muito agradável.

Na informação dada, há, no entanto, aqui um elemento que não será inteiramente exato: associa-se, essa tal minha vivência, essa  minha experiência literária da Beira Baixa,  com o livro “Retalhos da Vida de Um Médico”… Ora, efetivamente, eu escrevi, parte da primeira série da Vida de Um Médico, em Monsanto, ou seja, na Beira Baixa, ou seja no concelho de Idanha-a-Nova… mas o resto do livro, foi escrito, já no Alentejo, e, posteriormente, aqui em Lisboa.

O que eu escrevi, inteiramente em Monsanto, foi, por exemplo, A Noite e Madrugada, parcialmente, Minas de São Francisco…. E digo parcialmente, porque eu suponho ter começado esse livro, ainda nos arredores de Castelo Branco!... Depois, em Monsanto, é que eu escrevi, quase tudo, o restante do livro, na sua maioria. E ainda outras obras… Mesmo, quando Monsanto, não está, declaradamente,    presente, Monsanto ou a região, a verdade é que me aconteceu, ou tem-me acontecido ao longo destas últimas décadas, eu, de um modo geral, até terminar os livros em Monsanto!... Ou pelo menos, acelerá-los! … Começo os livros, em Lisboa, e, quando os livros, já adquirem o seu ritmo próprio,  e quase, que, enfim, se me impõem, então eu vou para Monsanto e então é lá que eles são elaborados!... Numa outra atmosfera íntima de  serenidade, de conciliação, entre mim e o meio-ambiente!... Quer dizer, que ao longo destes anos , tem sido muito estimulante do ponto de vista literário, as minhas várias estadas em Monsanto!... Isto é apenas uma informação no que diz respeito  à relacionação de alguns dos títulos do conjunto da minha obra essa região de que acabámos de falar.
Quanto aos “Retalhos da Vida de Um Médico”, poderemos dizer que talvez seja, ainda hoje, o meu livro mais popular, porque transmite uma autenticidade de vida de uma maneira muito mais direta de que outros livros!... Mas não sei se será o mais significativo!....

Quando me fazem a pergunta… e, aliás, ela é-me feita repetidamente: qual o livro que eu suponho ou mais importante ou mais bem acabado!... Ou mais equilibrado!...Em suma, mais significativo no conjunto do meu trabalho?!... Eu costumo dizer que a minha resposta varia de dia para dia!... E não é porque haja leviandade nesse tipo de resposta!... É porque, também os livros correspondem a uma atmosfera íntima!... E a nossa atmosfera íntima … - isso acontece com todas as pessoas, bem entendido – nem sempre é a mesma!... Mas é curioso que eu é raro citar os “Retalhos da Vida de um Médico”, quando essa pergunta me é feita!... Talvez porque há uma tendência valorizar mais  os romances de que qualquer outro género literário, concretamente da ficção!... Se é esse um dos motivos, não sei!...  Agora, que, há da parte dos leitores uma  relativa fidelidade aos “Retalhos da Vida de Um Médico”, há!, isso sim, suponho que é um facto!...

Efetivamente, a Câmara da minha terra natal, ou seja, Condeixa, adquiriu, recentemente, a Casa donde eu nasci e pretende transformá-la numa Casa Museu!... Claro que foi para mim, também muito agradável, este gesto da Câmara da minha terra natal!.. E não posso deixar também de sublinhar essa iniciativa e esse interesse manifestado pelos meus conterrâneos!...

OUTROS DADOS BIOGRÁFICOS DE FERNANDO NAMORA


Ainda estudante e com outros companheiros de geração funda a revista Altitude e envolve-se activamente no projecto do Novo Cancioneiro (1941), colecção poética de 10 volumes que se inicia com o seu livro-poema Terra, assinalando o advento do neo-realismo, tendo esta iniciativa colectiva, nascida nas tertúlias de Coimbra, de João José Cochofel, demarcado esse ponto de viragem na literatura portuguesa. Na mesma linha estética.
A sua obra, em termos de correntes literárias, evoluiu no sentido dum amadurecimento estético do "neo-realismo", o que o levou a enveredar por caminho mais pessoal. Não desprezando a análise social, a sua prosa ficou marcada, sobretudo, pelos aspectos do burlesco, observações naturalistas e algum existencialismo

Colaborou com várias publicações periódicas, como Sol Nascente, O Diabo, Seara Nova, Mundo Literário, Presença, Altitude, Revista de Portugal, Vértice, entre outras.
É Autor de várias colectâneas de poesia e de uma pouco conhecida obra como artista plástico, é sobretudo como ficcionista que o nome de Fernando Namora marca a literatura portuguesa contemporânea, tendo granjeado um sucesso a nível nacional e internacional  e que, durante os anos 70 e 80, foi das mais divulgadas e traduzidas.
Por uma questão de sistematização da sua obra, poderemos  identificar as seguintes fases distintas de criação literária:

O ciclo de juventude, principalmente enquanto estudante em Coimbra, coincidente com o livro-poema Terra e o romance Fogo na Noite Escura;
O ciclo rural, entre 1943 e 1950, representado pelas novelas Casa da Malta (escrita em 8 dias) e Minas de San Francisco, ou pelos romances A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio sem esquecer os Retalhos da Vida de um Médico, cuja edição espanhola (1ª tradução) apresenta o prefácio de (Gregório Marañón);

O ciclo urbano, coincidente com a sua vinda para Lisboa, marcado pela solidão e vivências do quotidiano, e que se terá reflectido no romance O Homem Disfarçado, em Cidade Solitária ou no Domingo à Tarde;

O ciclo cosmopolita, ou seja, dos cadernos de um escritor, balizado no final dos anos 60 e década de 70, explicado pelas muitas viagens que fez, nomeadamente à Escandinávia, e pela sua participação nos encontros de Genebra;
O ciclo final, entre a ficção contemporânea, onde se insere o romance O Rio Triste ou Resposta a Matilde, intitulado pelo próprio divertimento, e as reflexões íntimas de Jornal sem Data (1988)
Em 1981, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura, pela Academia das Ciências de Lisboa e pelo PEN Clube.
O seu espólio constituído por correspondência recebida, rascunhos de cartas enviadas, manuscritos de textos da sua vasta produção e colaboração dispersa por publicações periódicas, textos de conferências, entre outros, encontra-se incorporado no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (ACPC) da Biblioteca Nacional de Portugal,
na casa que foi residência dos seus pais e sua, em Condeixa,  foi inaugurado, em 30 de Junho de 1990, um museu onde se encontram objectos e documentos pessoais, bem como quadros da sua autoria e livros
Entre os muitos títulos que publicou em prosa contam-se:
1943 - Fogo na Noite Escura;
1945 - Casa da Malta;
1946 - As Minas de S. Francisco;
1949 e 1963 - Retalhos da Vida de um Médico;
1950 - A Noite e a Madrugada;
1952 - biografias romanceadas de Deuses e Demónios da Medicina;
1954 - O Trigo e o Joio;
1957 - O Homem Disfarçado;
1959 - Cidade Solitária;
1961- Domingo à Tarde (Prémio José Lins do Rego);
1972 - Os Clandestinos;
1980 - Resposta a Matilde;
1982 - O Rio Triste (Prémio Fernando Chinaglia, Prémio Fialho de Almeida e Prémio D. Dinis);
Em Poesia publicou:
1940 - Mar de Sargaços;
1959 - As Frias Madrugadas (Toda a sua produção poética seminal foi reunida numa antologia)
1969 - Marketing;
1984 - Nome para uma Casa;
Fontes:
Fernando Namora. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-07-21]. Disponível na www: http://www.infopedia.pt/$fernando-namora>