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domingo, 3 de maio de 2026

Dia da Mãe - Rostos da minha aldeia - Chãs- Foz Côa - Deixei de ver a minha mãe aos 18 anos, quando parti para São Tomé e nem sequer cheguei a conhecer os meus avós, nem maternos nem paternos


Dia da Mãe - Chãs - de Foz Côa -Rostos da minha aldeia Eu não cheguei a conhecer os meus avós, nem maternos nem paternos As aldeias vão-se despovoando e envelhecendo, com o Portugal profundo a tocar mais no fundo da sua intemporalidade, a ficar mais deserto e solitário, povoações havendo, muitos casos, em que há mais casas vazias de que habitadas, e, noutras, já nem isso há, mas somente aglomerados de habitações de xisto ou de granito – Ainda não é o caso da freguesia de Chãs, do concelho de Vila Nova de Foz Côa, mas, pelos vistos, para lá se caminha: para o dia em que as aldeias são meras quintas ou já lugares meramente arqueológicos. –Bom era que se invertesse esse rumo, que nos preocupa mais de que apazigua.



"Adeus meu filho, que já não te volto a ver" - Despediu-se de mim, com o último beijo ao 18 anos quando partia para um estágio de técnico agrícola numa roça em S. Tomé -

E, de facto, não se enganou, tal como a premonição, que eu tive, no dia da sua morte, então militar em S. Tomé, antes mesmo de receber o telegrama a dar-me a triste notícia. Hoje lamento a tropa não me ter autorizado a ir dar-lhe o último abraço, quando o câncer minava a sua saúde e tanto desejava voltar a beijar-me e abraçar-me - Sim, vim a saber que todos os dias, se lembrava de mim... Só fui depois autorizado a usar na camisa uma fita de luto


Partira para S. Tomé, em meados de Novembro de 1963, a bordo do paquete Uíge para concluir um estágio da Escola Agrícola de Santo Tirso, na Roça Uba-Budo, mas onde não encontraria o mínimo de condições, devido à rudeza e prepotência colonialista, a raiar o esclavagismo, com que ali me confrontei

Treinos na canoa, S. Tomé-Príncipe
Era jovem e alimentava um mundo de sonhos mas o que fui ali conhecer, naqueles primeiros anos, na beleza paradisíaca de uma Ilha equatorial, foram desilusões e humilhações, umas atrás das outras – Só 12 anos mais tarde voltaria à minha aldeia mas já não ia encontrar a minha mãe viva, que falecera, ao fim de um penoso calvário de doença prolongada, quando eu prestava serviço militar nesta antiga colónia portuguesa.

Sabendo da gravidade da doença que então minha mãe padecia, fiz todos os esforços, junto a instituição militar para a poder visitar mas não fui autorizado: pois a mentalidade da tropa colonial não se compadecia com sentimentos pessoais - Deixara a minha aldeia aos 18 anos e nunca mais a voltaria a ver.

Dizia-me ela no momento da despedia, em que me dava o último beijo: adeus meu filho, que já não te volto a ver - E, de facto, não se enganou, tal como a premonição, que eu tive, no dia da sua morte, antes mesmo de receber o telegrama a dar-me a triste notícia.

VI O FUNERAL DA MINHA MÃE, COMO SE ESTIVESSE A ACOMPANHAR O CORTEJO FÚNEBRE ATRÁS DA SUA URNA ATÉ AO CEMITÉRIO

Foi num Domingo. E, como havia estado de serviço de véspera, após almoço resolvi deitar-me e descansar um pouco Adormeci e, uma hora e meia ou duas depois, acordei a chorar - E porquê? Acabava de assistir, com os olhos rasos de lágrimas, ao funeral de minha mãe a dirigir-se para o cemitério - Com tal evidência e clareza, com tal pormenor, que era como se eu próprio estivesse incorporado no cortejo fúnebre atrás da urna. Via os olhos chorosos do meu pai e dos meus irmãos, Ouvia os sons dos sinos e a sineta a finados e via os seus rostos, todos exprimindo a sua inconformável dor. De tal modo que eu próprio, também sentia a mesma emoção. Acordei a chorar. - Já um dia fiz este relato num jornal.

E assim lá ficou aquele abraço por repetir, o abraço choroso, de uma despedida vertida de lágrimas, quando me beijou e me abraçou à porta do postigo da nossa casa.

Olhe, mãe, se há coisas que não me esquecem, aquele momento é um deles: "Adeus meu filho que nunca mais te volto a ver!" - Foi exatamente assim - naquela sua voz repassada Já de dor e de saudade, e ainda estava a abalar: ainda mal dava os passos do adeus.

Vi-a, depois, limpar as lágrimas ao avental, mas, claro ,longe de acreditar no que te ouvia. Simplesmente lágrimas, sofrimento, dor de mãe, pensava eu. Como foi possível que adivinhasse?

Será que às mães é dado esse dom - esse terrível dom de poderem futurar dolorosas separações? De pressagiarem os maus destinos, entrar nos desígnios da morte e da vida, antever a  de vínculos que as possam desligar das coisas que mais queridas lhes são - os filhos?






Jorge Trabulo Marques - Jornalista




As roças de má memória - Fala-se muito mas desconhece-se o essencial: que eram campos de escravatura. Trabalhei nesses feudos e conheci bem a dureza da vida, nessas grandes propriedades, quer para os chamados serviçais, quer para os nativos que ali iam fazer os mesmos trabalhos, mas também para os empregados de mato, que eram igualmente escravizados, mal pagos e que apenas tinham direito à chamada graciosa, de quatro em quatro anos  

 Desembarquei, ao largo da Baía Ana de Chaves, do navio Uíge,  em Novembro de  1963 para ir fazer um estágio na Roça Uba-Budo,  propriedade da Companhia Agrícola Ultramarina,  de um curso que tirei na Escola Agrícola, Conde S. Bento,  em Santo Tirso. Não tendo condições, devido à forma desprezível como ali eram encarados os técnicos, por indivíduos que ascendiam apenas à custa dos anos de serviço  e de uma certa brutalidade; acabei por concluí-lo na tropa, quando ali fui encarregado do sector da  Messe dos Oficiais e da  Agropecuária do quartel . 



Na verdade,  não guardo da roça, as melhores recordações senão o facto de ter apenas 18 anos, ser um jovem  e da surpreendente beleza daquela paisagem, que todos os dias se me revelava, pese a humilhação a que era submetido desde a alvorada  até ao escurecer -  Pois não posso esquecer-me de como era difícil e dura a  vida na roça, tanto para os empregados de mato como para os trabalhadores - E foi esta a categoria que me foi dada, pelo Administrador da Roça Uba-Budo, quando fui para ali estagiar - 



  O que recordo do meu primeiro contacto com a Roça Uba-budo, é realmente de muito má memória. O administrador, que era praticamente um analfabeto, tinha ódio a quem tivesse mais instrução académica de que ele; por isso mesmo, para me humilhar deu-me a categoria de empregado de mato: pouco tempo depois chamou-me à "Casa Grande" e disse-me: prepare a sua mala, tem ali um jipe à sua espera para o transportar: vai fazer o seu estágio na Ribeira Peixe. Você dá confiança aos pretos e já lhe tinham dito que tem que tratar os serviçais por tu.


Como não obedeceu às minhas ordens, vou mandá-lo para o Sul - E é para o não o pôr imediatamente fora da Roça - E então que é eu fui fazer com um pobre de trabalhador cabo-verdiano, que também tinha sido mandado para lá de castigo? ... Contar cacaueiros velhos numa zona abandonada, coberta por um enorme capinzal e infestada de cobras pretas. 

A vida na roça era boa  para o administrador,
o chefe dos escritórios  e o feitor-geral - E não tanto para o médico,
o enfermeiro do hospital: - a remuneração dificilmente pagaria
o trabalho e o contacto directo com as múltiplas enfermidades. 
-  Mas fortemente penalizadora,  repressiva e escrava para os demais!
Os trabalhadores negros que se recusassem a cumprir
as ordens do empregado de mato ou do capataz
eram severamente castigados  à chibatada e a palmatória
Os empregados brancos que tivessem tido algum desentendimento
com o feitor, o administrador, depressa eram desterrados
para as dependências da roça mais isoladas!

São Tomé, um pequeno rincão de Deus a flutuar
no oceano e no centro do Mundo,  mas um enorme feudo colonial
repartido apenas  por uns quantos abastados proprietários
que viviam, noutras paragens, a milhares de milhas de distância:
entregues aos seus caprichos,  fantasias e gastos superfulos,
longe das doenças endémicas, do paludismo, das chuvas copiosas,
alheios aos imensos sacrifícios dos seus mais humildes servidores,
de costas voltadas  ao enorme sofrimento de todo um povo,
aos filhos do qual haviam saqueado as suas terras
e se apoderado de todas as suas riquezas,
já não falando dos primórdios da colonização
mas da introdução da cana sacarina e do cacau,
após lhes ser concedida a alforria 
e num tempo em que existia
uma consciente e próspera
 elite negra na ilha.

Mas, dessa verdade, inconveniente,
não quisera saber o regime colonial
quanto mais os gananciosos roceiros,
que se achavam donos absolutos
das centenas e centenas de hectares,
administradas por uns tais senhores,  
muitos deles prepotentes e estúpidos,
quase analfabetos, escolhidos a dedo pelos seus patrões
( depois de indicados por outros administradores que os antecederam)
não pela sua formação mas pela rudeza e  prepotência,
despotismo e mão de ferro como subjugavam
empregados e  trabalhadores!
Sim! como impiedosamente os exploravam!
- Esta era a crua realidade
que jamais poderá ser ocultada!
 
Felizmente, esses tempos, já pertencem ao passado!
Mas, eu, que ali passei também os dolorosos passos
de um penoso calvário, não mais os esquecerei!
E bem deles me recordo! - Nitidamente, e de tudo!
Tal qual, como se acabasse agora mesmo de chegar


sábado, 2 de maio de 2026

Lisboa.1º de Maio 2026. – Milhares de manifestantes contrariaram a tese da minoria montenegrista, em Melgaço, contra o pacote liberalista

                                     Reportagem de Jorge Trabulo Marques - 2 Videos com fotos e filme


Lisboa.1º de Maio 2026. –Milhares contrariaram a tese da minoria montenegrista, em Melgaço, contra o pacote liberalista. A manifestação convocada pela CGTP-IN percorreu a Avenida Almirante Reis, entre o Martim Moniz e a Alameda D. Afonso Henriques, entre o Martim Moniz e a Alameda D. Afonso Henriques, empunhando tarjas, bandeiras e cartazes e gritam a uma só voz palavras de ordem como: "Não vamos desistir, o pacote é para cair", "Só interessa ao capital, o pacote laboral", "O pacote laboral é retrocesso social" e "O povo está na rua, a luta continua". Uma tarde que foi ao mesmo tempo motivo de convívio, de fraternal e calorosa confraternização



O primeiro-ministro, Luís Montenegro, afirmou esta sexta-feira que só uma “parte minoritária” dos trabalhadores em Portugal aderiu à greve geral. o Governo “não abandona as suas convicções” em matéria laboral e garantiu que já houve cedências “em todas as traves mestras” da reforma do trabalho em discussão.










As origens do Dia Internacional dos Trabalhadores - Por Olimpio Sobral

As comemorações do 1.º de Maio têm origem num acontecimento trágico ocorrido em 1886 na cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Apesar de hoje ser amplamente celebrado em Portugal e noutros países europeus, este dia não nasceu na Europa, mas sim da luta dos trabalhadores norte-americanos.

No final do século XIX, os operários enfrentavam condições muito duras: jornadas de trabalho de 10 a 12 horas diárias, seis ou até sete dias por semana. Em 1884, sindicatos norte-americanos começaram a exigir a redução do horário para 8 horas diárias, estabelecendo como prazo o dia 1 de maio de 1886
.
Quando chegou essa data, muitas empresas aceitaram a reivindicação, mas outras recusaram. Isso levou a greves e manifestações por todo o país, especialmente em Chicago. A 3 de maio de 1886, durante um protesto, a polícia abriu fogo sobre os manifestantes, matando vários trabalhadores.

No dia seguinte, durante um novo protesto na praça de Haymarket Square, uma bomba foi lançada, provocando várias mortes entre a polícia. A repressão que se seguiu foi severa: vários trabalhadores foram condenados sem provas claras, e alguns acabaram executados. Este episódio ficou conhecido como o “Massacre de Haymarket” e tornou-se um símbolo da luta operária.

Em 1889, durante o congresso da Segunda Internacional, realizado no contexto do centenário da Revolução Francesa, foi decidido instituir o 1.º de Maio como um dia internacional de luta dos trabalhadores, em homenagem aos acontecimentos de Chicago e à reivindicação da jornada de 8 horas.

Historicamente, pode até ter sido uma das primeiras vezes que uma ideia progressista vinda dos Estados Unidos inspirou os europeus. No entanto, apesar disso, os próprios americanos não celebram o trabalho e os trabalhadores no dia 1 de maio:

De forma surpreendente, os americanos não adotaram a reivindicação do 1.º de Maio. Os Estados Unidos são um dos poucos países do mundo que não celebram o trabalho ou os trabalhadores nessa data. Isto deve-se, em parte, ao facto de os sindicatos americanos não se identificarem com a orientação mais marxista que o movimento operário europeu acabou por assumir.
Em Portugal, o 1.º de Maio ganhou especial relevância após a Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura do Estado Novo. Antes disso, as manifestações eram reprimidas e o movimento sindical tinha pouca liberdade.

Após 1974, o Dia do Trabalhador passou a ser celebrado livremente, com manifestações, desfiles e reivindicações por melhores condições de trabalho, salários dignos e direitos sociais. Tornou-se também um símbolo da democracia e da participação cívica.

Hoje, o 1.º de Maio é feriado nacional em Portugal e continua a ser um momento importante de reflexão sobre as condições laborais, num contexto em que persistem desafios como a precariedade, os baixos salários e as desigualdades sociais. (A Central sindical continua a exigir retirada do pacote laboral após nove meses de negociações).

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Alda Graça do Espírito Santo – Centenário do nascimento da Grande Mátria Santomense das Ilhas Verdes do Equador, - Video com imagens e palavras da sua voz

 

Jorge Trabulo Marques - Jornalista


Alda Graça do Espírito Santo - Centenário do nascimento da Grande Mátria Santomense - 30 de Abril de 1926 – Faleceu em Angola 9 de Março de 2010

O arranque da série de atividades intitulada ”Alda nas Escolas”, no âmbito das celebrações do centenário de nascimento de Alda Espírito Santo (30.04.1926-30.04.2026), decorreu, na em São Tomé, na escola Maria de Jesus, cuja patrona é a mãe da poetisa e Combatente da Liberdade, com a participação em massa dos alunos, com declamação de poemas da homenageada e músicas inspiradas nos seus poemas.

O ano de 2026 assinala o Centenário de Alda Espírito Santo (1926 -2010), figura maior da história cultural e política de São Tomé e Príncipe, e dos Cinco, e referência incontornável das literaturas africanas em português. Insigne figura da “Geração de Cabral”, Alda Espírito Santo foi poetisa, professora, militante, deputada e ministra da Educação e Cultura, Alda Espírito Santo deixou um legado multifacetado que une o compromisso cívico, a palavra poética, e a construção nacional.


ALDA- Duas sílabas numa só palavra - Acrescida do apelido divino " do Espírito Santo - Nome da Inesquecível Musa, a Mui Amada e Grande Mãe das Ilhas Maravilha - A Grande Inspiradora Poetiza da liberdade e da Beleza! A Grande Irmã da Dor e do Amor e do sentimento amargo e mui dolorido sofrimento ancestral de um Povo - Quem esquecerá o seu rosto?

Não partiu para o exilio mas, mesmo sob a vigilância da antiga policia politica (PIDE) nem por isso deixou de usar a palavra, os seus versos, como a voz mais ativa e interveniente pelo seu Povo - Considerada, por isso, como expoente máximo do nacionalismo são-tomense, pós independência. Alda Graça, morreu em Angola para onde foi evacuada por razões de saúde. Morreu na terra dos seus compatriotas de luta pela independência nacional, como Mário Pinto de Andrade. Um dos nomes de Angola que Alda Graça muitas vezes citou nas suas intervenções públicas.

A celebração do seu centenário pretende reconhecer a amplitude dessa herança – política, educativa, literária, social e simbólica – e promover um diálogo entre as diferentes dimensões da sua atuação: a escritora que deu voz à nação nascente, a mulher que defendeu a igualdade e a dignidade humana, e a cidadã que fez da cultura um instrumento de libertação e de futuro. Ao revisitar a sua obra e o seu percurso, este centenário convida a uma reflexão sobre o papel da mulher africana na luta anticolonial, sobre a força da palavra como instrumento político e pedagógico e sobre a permanência dos ideais de emancipação, justiça e solidariedade que atravessam a sua escrita.



Celebrar o centenário de Alda Espírito Santo é mais do que homenagear uma poetisa: é reconhecer uma das consciências fundadoras de São Tomé e Príncipe e de toda a África de língua portuguesa. Mulher de ação e de pensamento, de palavra e de gesto, Alda Espírito Santo soube unir, como poucas, a criação literária, o compromisso político e a pedagogia da esperança. A sua vida foi um contínuo diálogo entre o poético e o político, entre a sala de aula e a praça pública, entre o sonho de libertação e o trabalho quotidiano pela dignidade.  

Com esta comemoração, pretende-se afirmar Alda Espírito Santo como património vivo da memória e da imaginação nacional, símbolo de uma geração que fez da poesia uma forma de resistência e da educação uma política de esperança, através das seguintes Linhas Temáticas: 1. Palavra e Pátria: A construção simbólica da nação; 2. Mulher, Educação e Cidadania; 3. Literatura, Política e Utopia; 4. Memória, Arquivo e Património Cultural; 5. Alda Espírito Santo e a Geração da Libertação; 6. Genealogias da Escrita no Feminino e Heranças de Resistência; 7. Da Palavra ao Futuro: Educação, Juventude e Políticas Culturais;  

A Organização convida os interessados em participar dessa comemoração a enviar um resumo da sua intervenção (250-300 palavras), para o email:  100aldaesanto@gmail.com.  Mais informações sobre o programa, modalidades de participação e submissão de propostas podem ser consultadas


ALDA- Duas sílabas numa só palavra - Acrescida do apelido divino " do Espírito Santo - Nome da Inesquecível Musa, a Mui Amada e Grande Mãe das Ilhas Maravilha - A Grande Inspiradora Poetiza da liberdade e da Beleza! A Grande Irmã da Dor e do Amor e do sentimento amargo e mui dolorido sofrimento ancestral de um Povo - Quem esquecerá o seu rosto?

Não partiu para o exilio mas, mesmo sob a vigilância da antiga policia politica (PIDE) nem por isso deixou de usar a palavra, os seus versos, como a voz mais ativa e interveniente pelo seu Povo - Considerada, por isso, como expoente máximo do nacionalismo são-tomense, pós independência. Alda Graça, morreu em Angola para onde foi evacuada por razões de saúde. Morreu na terra dos seus compatriotas de luta pela independência nacional, como Mário Pinto de Andrade. Um dos nomes de Angola que Alda Graça muitas vezes citou nas suas intervenções públicas.

Lá no «Água Grande»

Lá no «Água Grande» a caminho da roça
negritas batem que batem co’a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.

Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta,
brincam na água felizes…
Velam no capim um negrito pequenino.

E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam miúdos lá na hora do regresso…
Jazem quedos no regresso para a roça.

(Poesia negra de expressão portuguesa, 1953)

Fevereiro

Alda Graça do Espírito Santo


Poeta santomense: 1926 – Faleceu em 9 de Maraço de 2010
Nasceu a 30  de abril  de 1936 , na cidade de São Tomé, capital do Arquipélago de São Tomé e Príncipe, Alda Neves da Graça do Espírito Santo. Filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, ainda nova faz seus primeiros estudos em São Tomé. 1940: Em meados de 1940, muda-se com a família para o norte de Portugal, anos depois a família muda-se para Lisboa onde Alda inicia seus estudos universitários. 1950: No início dessa década, morando em Lisboa com a família, Alda Espírito Santo faz contato com alguns dos importantes escritores e intelectuais que viriam a ser os futuros dirigentes dos movimentos de independência das colônias portuguesas de África, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro, entre outros. A casa de sua família, no número 37 da Rua Actor Vale, funciona como local de encontros do CEA (Centro de Estudos Africanos). Os encontros regulares na casa de Alda promoviam palestras sobre temas diversos como Linguística, História e também sobre a consciência cultural e política acerca do colonialismo, do assimilacionismo e da defesa do colonizado.  Excerto de Vidas Lusófonas - Alda Espirito Santo


Combatente da luta pela independência nacional, poetisa, considerada expoente máximo do nacionalismo são-tomense, pós independência. Alda Graça, morreu em Angola para onde foi evacuada desde a última semana por razões de saúde. Morreu na terra dos seus compatriotas de luta pela independência nacional, como Mário Pinto de Andrade. Um dos nomes de Angola que Alda Graça muitas vezes citou nas suas intervenções públicas. – Excerto deAlda Graça do Espírito Santo

quarta-feira, 29 de abril de 2026

25 de Abril – Adelino Palma Carlos -PM (1905-1992 "Entrevista prá História da Revolução" P.M. do Iº Governo Provisório (de 16 de Maio a 18 de Julho de 1974, nomeado pelo General Spínola

 

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e Investigador 



Adelino Palma Carlos –  Primeiro-ministro do Iº Governo Provisório (de 16 de Maio a 18 de Julho de 1974, nomeado pelo General Spínola  – Nesta parte da entrevista que me concedeu em sua casa, editada no vídeo deste post, Palma Carlos, fala   da Revolução de  25 de Abril, que o fez chorar de alegria  até às lágrimas  e do Governo que formou com a participação de Álvaro Cunhal (um ministro consensual E também do seu ideal republicano. da sua oposição ao Salazarismo e dos revolucionários que defendeu, como advogado.

Professor, advogado e político. Destacou-se como primeiro-ministro do I Governo Provisório -(Faro, 3 de Março de 1905 — Lisboa, 25 de Outubro de 1992 (Faro, 
Dou-me a honra e o prazer de me receber em sua  casa e de ali me conceder uma interessante entrevista acerca de alguns dos mais importantes passos da sua vida profissional e politica, nomeadamente, como opositor ao regime ditatorial de Salazar, defensor dos presos políticos, da alegria que sentiu  - até às lágrimas - quando tomou conhecimento do golpe vitorioso da Revolução do 25 de Abril, assim como de vários episódios relacionados com a sua participação como 1º Ministro do 1º Governo Provisório Adelino da Palma Carlos – Wikipédia, 



Considerado como "personalidade forte, inteligente, culto e de extraordinária capacidade de trabalho, foi primeiro-ministro do I Governo Provisório (de 16 de Maio a 18 de Julho de 1974). Como 11.º bastonário da Ordem dos Advogados Portugueses teve um importante papel na consolidação institucional e na internacionalização daquela corporação. Foi grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, a principal organização da maçonaria portuguesa. E fundador do escritório de advogados actualmente designado de G&F Palma Carlos

COMO ELE VIU A REVOLUÇÃO DE ABRIL

 «…fiquei contente!...Chorei, quando soube que era a Revolução!.. Que era para acabar com a ditadura!... Chorei! Chorei comi uma criança!... Não tenho vergonha nenhuma de dizer: chorei!!..

JTM  - Entretanto, chegou o 25 de Abril: o Sr. Prof. foi nomeado Primeiro-Ministro!
APC – Olhe… Essa história é engraçadíssima!... Eu não fazia  ideia nenhuma de que ia haver a Revolução… Aliás, eu era Presidente das companhias reunidas de gás e eletricidade: tinha sido convidado pelo General Gaspar dos Santos e era Presidente das Companhias… Quando eu vim para as Companhias, encontrei lá instalado, um coronel na Reserva, que era o coordenador de segurança das Companhias de Gás  e Eletricidade, da Sacor, da Companhia das Águas, da Companhia Nacional de Eletricidade  e da Petroquímica… Bom, esse homem, estava perfeitamente a par de tudo o que se desenrolava!... E até tinha uma coisa engraçada!... Sabendo que eu era uma pessoa, contra a situação, ele recebia todos os panfletos (não sei da onde) que saíam contra a situação e dava-mos para eu ler!... Ele é que fazia propaganda, junto de mim, contra a situação!... E estava sempre a par!... Quando foi da reunião dos capitães, em Évora, na Intentona de Março, ele disse-me: “Isto está mau!!..Agora o Movimento de Oficiais, em Évora!... Não se o que isto vai dar!...
Bem , continuámos, pacatamente!... No dia 25 de Abril de Madrugada!... Estava a dormir!...Aparece-me uma das empregadas, com o telefone, dizendo-me: “Sr. Douro! É o engenheiro da  Companhia do Gás, que tem muita necessidade de falara consigo!..” -Então traga lá o telefone!
Era o homem a dizer: “Sr. Presidente! Rebentou a Revolução?!...”
- Rebentou a Revolução?!...
-  “Rebentou a Revolução!!”
- E então o coronel, o que é que faz?!...
- “O Coronel, não está cá!... Não se sabe do coronel!...
Telefonei para o coronel, que eu tinha aí o número de telefone dele (que morreu, coitado, dois ou três meses, depois da revolução) … estava a dormir, como um anjo!...
- Então, Sr. Coronel!... Está uma revolução na rua!
- “Esta uma revolução na rua?!...”
- Está!... E então o Sr. não sabe de nada?!...
Está  a ver!... Fui eu que informei o Coordenador de Segurança, que tinha rebentado a revolução!...
Bom, eu fui para a Companhia, juntámo-nos lá os Membros  da Comissão Executiva,  que cá estávamos, que éramos cinco só, e passamos o dia, ali… Veio uma Ordem do Ministério do Interior, por intermédio da Direção Geral dos Serviços Elétricos (a que nós estávamos subordinados) para que se interrompesse a corrente elétrica, lá para cima, par o Parque Eduardo VII… E o Engº da Companhia disse: se nós interrompemos a corrente elétrica, nós ganhamos nada com isso!... Eles têm geradores e continuam a emitir da mesma maneira!
- E então eu disse: há alguma ordem escrita?!..
- Não há nenhuma ordem escrita!
- E então diga-lhe que mandem a ordem por escrito!... Nós estávamos subordinados ao Governo!... Era uma companhia concessionária!... Mandaram a ordem escrita… E então interrompeu!... Até que, às tantas, à tarde, eu mandei ligar!... Porque, já não havia Governo!... Não havia nada!..
Bom, estivemos ali todo o dia, sem saber o que se passava, com a televisão aberta!... Com a telefonia aberta!... Almoçámos, mesmo lá, na cantina da Companhia!. E olhe, nos dias seguintes, fiquei contente!...Chorei, quando soube que era a Revolução!.. Que era para acabar com a ditadura!... Chorei! Chorei comi uma criança!... Não tenho vergonha nenhuma de dizer: chorei!!..

JTM – Depois, foi entretanto nomeado Primeiro-ministro!...
APC – E depois… aí é que a coisa, começa a ter um certo pitoresco, começaram a ouvir dizer-me que eu ia ser nomeado Primeiro-Ministro!... Não sejam tontos!... Porque é que eu havia de ser nomeado Primeiro-ministro?... Que ideia é essa?!...
- Mas eu acho que você é que vai ser o Primeiro-ministro!.. Você é que vai ser o Primeiro-ministro!..
Até, que, um domingo (tenho este telefone, que não está na lista) e ligara-me por este telefone (era confidencialíssimo) as era da Presidência da República, era ali de Belém); era o Capitão António Ramos, a dizer-me: - Ó Sr. Dr.! O Sr. General Spínola, tem muita necessidade de falar consigo!” - Então está bem
Eu conhecia o Spínola, já há bastante tempo: “então quando é que ele quer que eu vá falar com ele?”
- “Amanhã às quatro horas! – No dia seguinte, às quatro horas eu fui lá, e ele disparou:
- Tenho um Governo pronto! Falta-me o Primeiro-ministro!... Você tem de ser o Primeiro-ministro!
- Não me fale nisso!.. Não tenho a minha vida organizada para isso!... Vivo da minha profissão!.. Não pode ser!... Deixe-me pensar!...
- Então pense até amanhã!...
Eu resolvi pensar dois dias mas não pude!... No dia seguinte, telefonava-me ele outra vez!..

JTM – E teve que aceitar!
APC – E tive que aceitar!.. Pronto!...
JTM – Foi um tempo agitado, na altura?
APC – Olhe!... Foi o pior tempo da minha vida!.. Foi o pior tempo da minha vida!... Extremamente agitado!... O Governo era um Governo não homogéneo!... Porque tinham querido fazer um Governo de coligação  - Quem  fazia o Governo não era o Primeiro-Ministro: o que estava na Lei Constitucional nesse tempo:  era o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, só fazia trabalhos num Governo, que lhe tinham oferecido!...
E eu dizia: façam um Governo de Gestão, que é o que é preciso, nesta altura.
-“Ah mas é melhor fazer um Governo de coligação….”
- “Então façam um Governo de coligação” – Eu tive lá, desde o Álvaro Cunhal, até esse homem monárquico, que aí anda, o Ribeiro Teles!.. A Pintassilgo!... Estava no meu Governo!..

JTM - Havia então alguma confusão…
APC- Devo-lhe dizer que, nas reuniões do Conselho de Ministros, havia às vezes divergências… Pois cada um tinha a sua opinião sobre os problemas que se colocavam… Havia muitos problemas a resolver... Havia divergências!... Eu tentava soluciona-las mas elas … mas é uma justiça que eu nunca deixo de fazer ao Cunha, é esta:  é que, quando a coisa estava numa situação quase de impasse, o Cunhal encontrava sempre uma solução de equilíbrio, que todos acabavam por aceitar!... É um político extraordinário!...

JTM – Acha que o Partido Comunista Português devia ser chamado também a contribuir, também no Governo?
APC – Quando eu era Primeiro-ministro, veio cá, o Mitterrand e o d’Ferry, vieram cá: fora-me visitar. Estava um bocado preocupados por haver comunistas no Governo; era o Álvaro Cunhal e mais o Adelino Gonçalves, Ministro do Trabalho, que era um sindicalista bancário, o Porto, que tinham metido lá… O Mitterrand, às tantas, disse-me: - “mas você não se preocupa pelo facto de ter comunistas no Governo?”
- Bom, não sei porque é que você me faz essa pergunta, quando, você, agora, constitui em França,  a União de Esquerda, de Socialistas e de comunistas!... Se você lá, anda de braço dado com eles, não sei  porque estranha que eu tenha aqui dois ministros comunista, num Governo!... Onde estão numa minoria flagrante!...

JTM – Olhe, na altura quais foram os problemas mais difíceis que teve de enfrentar nesse período?
APC -  Tive logo de entrada uma greve dos correios… Passados, dois ou três dias, não havia correios, não havia telefones, não havia coisa nenhuma… E eu disse: isto não pode ser!... Não podemos estar sem comunicações… Chamei o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, que era o Costa Gomes, e disse-lhe: ó Sr. General! Nós temos de ocupar militarmente os correios para acabar com isso!...
- Oh diabo! Isso é uma coisa complicadíssima!"

NOTAS BIOGRÁFICAS  -Adelino Hermitério da Palma Carlos nasce a 3 de Março de 1905, em Faro, vindo a falecer a 25 de Outubro de 1992, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, com a nota final de 18 valores, foi delegado da Faculdade de Direito à Federação Académica. Conclui o doutoramento em Ciências Histórico-Jurídicas, também na Universidade de Lisboa, em 1934. Advogado reconhecido, defendeu inúmeras figuras oposicionistas à ditadura, como Norton de Matos, Bento de Jesus Caraça e Vasco da Gama Fernandes. Foi também professor na Escola Rodrigues Sampaio, no Instituto de Criminologia de Lisboa e, como Catedrático, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, da qual viria a ser director. Foi jubilado em 1975. Em 1949, foi mandatário da candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República. Em 1951 exerceu funções como Bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. A 16 de Maio de 1974 é nomeado primeiro-ministro do I Governo Provisório, pedindo a demissão a 18 de Julho desse ano. Em 1975 funda o Partido Social-Democrata Português. Foi mandatário e membro da comissão de honra da candidatura do general Ramalho Eanes à Presidência da República (1979). Pertenceu ao conselho consultivo do Partido Renovador Democrático. Em 1986 recebe a insígnia de Advogado Honorário. Adelino da Palma Carlos | 1905-1992 - Memórias da .