Jorge Trabulo Marques- Jornalista, investigador, dinamizador cultural, alpinista e navegador solitário em canoas de: Tomé
Meu Poema aos Tubarões. Há quase 51 anos fui atacado, pesquei-os e lutei com eles 38 dias numa piroga; agora, no oceanário, em Lisboa, pude brincar com eles neste último domingo de Maio e viver momentos de muito prazer e alegria, na reportagem a editar da festa do aniversário da neta do Médico Urologista Frederico Recordo, entretanto, aqueles dramáticos momentos,
ao longo de 38 dias numa piroga, nos finais de 1975
Os Tubarões Atacam nas Horas mais fatídicas
O mar não me dá tréguas!...
Não me dá uma pausa de descanso!...
Raros os momentos de absoluta tranquilidade!...
Tenho sempre o meu coração suspenso, em sobressalto!
Todos os meus sentidos em alerta máximo!...
Mas a minha tristeza e o meu infortúnio
nem sempre me deixam isolado... também têm
os seus visitantes inesperados!... –Mas muito indesejados!...
Mesmo assim, ignoram os meus pacíficos sentimentos
e não deixam de voltar com assiduidade!..
- Quando vêm em cardumes, não se demoram...
Espalham-se para todos os lados, e, conforme chegam,
assim desaparecem!... Mas, quando solitários, e bem maiores,
noto que não há nada que os amedronte e lhes refreie o instinto
de vorazes predadores...
Por isso, mesmo antes de os ver, é muito difícil
que a raiz dos meus cabelos, os poros dos meus braços
e dos meus pulmões, a palpitação do meu coração
os não pressintam a rondarem a canoa... a apertarem o cerco!...
Girando em círculos, cada vez mais apertados, concêntricos!...
Até investirem como se fossem disparos de violentos torpedos!...
São os tubarões gigantes!...Surgem nas horas malditas!...
Nas horas que antecedem as tempestades, os habituais tornados,
quando o horizonte se reveste de névoas ameaçadoras,
o céu se cobre de cinza, a cor do mar se altera
e passa de azul cobalto a um agitado mar de chumbo!...
- São a imagem viva da morte aos olhos aterrorizados
dos náufragos e desamparados!... Atacam quase sempre!...
Até parece que sabem escolher os momentos fatídicos
para serem bem sucedidos com os seus fulminantes golpes!...
Vêm sempre ladeados por uma autêntica flotilha
de pequenos peixes zebrados! – Lembram
pequenos submarinos de guerra!... Há quem os endeuse
e diga que são seres pacíficos... Mas tudo isso é muito contingente...
Aqui portam-se como feras! - Quais sinistras criaturas vigilantes,
a fazerem em surdina os seus giros... Com a barbatana dorsal
singrando à flor das águas, tal qual uma navalha apontada aos céus!..
- Investem com inesperada ferocidade!.. . -Afasto-os à machinada!..
Depois deixam-me em paz... Uma paz podre, temporária...
Até agora tenho tido muita sorte...
Algures no Golfo da Guiné, 14 de Novembro de 1975
Algures no Golfo da Guiné, 25 de Novembro de 1975 Há 49 anos - Jorge Trabulo Marques 25 de Nov 1975 - 36º dia Perdido no Golfo da Guiné - Há muito desisti de olhar para a bússola. Ora navego para um lado ora navego para outro. Tento evitar que a canoa fique completamente à deriva ou atravessada à vaga. Tenho a costa de África já próxima para meu espanto!..(..) Mas já é noite!...Estou a velejar!... Estou-me a precipitar como um suicida.... Mas tenho fome!!... Não posso demorar mais tempo
À medida que as forças me vão fraquejando, são mais os pensamentos que me assolam de que as palavras que expresso para o meu diário. Embora com os olhos pregados nos contornos de terra à vista, assim vai decorrer mais um dia perdido no mar, sem todavia a poder alcançar. Mas, só ao 38º dia é que a poderia finalmente pisar.

Diário de Bordo 2 Não sei que horas serão da tarde do 33º dia. A verdade é que até agora tem chovido bastante!... Há bocado não estava a chover... Estava o mar bravo!... Mas de um momento para o outro passou a chover... Só chuva!... E vento!...

Claro que não me sinto vencido ou resignado à minha sorte, e vou lutar, lutar, enquanto puder. Mas a verdade é que, dormir no fundo de um madeiro escavado, flutuante e encharcado, submetido a constantes balanços, a rolar a rolar e à deriva num mar escuro e encapelado, numa confusão tremenda, se, já de si, é um tormentoso calvário, que não me dá tréguas, nem descanso, quem é que, cheio de fome, pode ter o mínimo de repouso e de tranquilidade, ter um sono reparador, com o estômago completamente vazio?!... É que, além de toda a incerteza que me oprime, também o estômago se me contrai , num horrível sofrimento!
Oh, mas quem me dera agora recuar àquela hora ensolarada e brilhante da manhã, em que deixava a linda praia da Vila das Neves, envergando uma simples t shirt, de calção e descalço, empurrando a minha canoa, com todos aqueles meus amigos, que me ajudavam a arrastarem-na para o mar.
Diário de Bordo - 1 Diário de Bordo - É manhã do dia 25 que viajo na minha canoa...De noite não dormi muito. Pois estive quase sempre acordado...O mar esteve bastante agitado, aliás, continua com uma ondulação muito forte e um vento dominante de sul-norte..
Algures no Golfo da Guiné, 25 de Novembro de 1975 Há 49 anos - Jorge Trabulo Marques 25 de Nov 1975 - 36º dia Perdido no Golfo da Guiné - Há muito desisti de olhar para a bússola. Ora navego para um lado ora navego para outro. Tento evitar que a canoa fique completamente à deriva ou atravessada à vaga. Tenho a costa de África já próxima para meu espanto!..(..) Mas já é noite!...Estou a velejar!... Estou-me a precipitar como um suicida.... Mas tenho fome!!... Não posso demorar mais tempo
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À medida que as forças me vão fraquejando, são mais os pensamentos que me assolam de que as palavras que expresso para o meu diário. Embora com os olhos pregados nos contornos de terra à vista, assim vai decorrer mais um dia perdido no mar, sem todavia a poder alcançar. Mas, só ao 38º dia é que a poderia finalmente pisar.
Diário de Bordo 3 Agora volta a haver uma certa calmia... Mas já vejo ameaças de chuva no horizonte... Ainda não comi nada... Aliás, comi agora um bocadinho do resto do tubarão (pescado há vários dias) que está estragado praticamente... Estou cheio de fome! Não consigo pescar!... Não vejo terra... Estou realmente bastante... não direi desmoralizado... mas abatido psicologicamente.
O tubarão é dos peixes, cuja carne não aguenta muito tempo - Mal se pesca, não tarda a que seja uma carcaça em decomposição - No mesmo dia, pesquei dois: um deitei-o fora, o outro guardei-o para iscas e para o que desse e viesse - Mas gera um autêntico fedete. Quando mastigo alguns bocaditos - roendo as barbatanas, sim, é o que tenho feito, quando o vazio do estômago se me torna mais insuportável. Não fecho os olhos, mas fico com uma azia tremenda.

Estou convencido que alguns ataques dos tubarões, que de volta e meia se atiram como torpedos contra o costado da canoa, se devem a isso mesmo: ao cheiro que os atrai. Pois os tubarões veem mal mas têm um notável olfato.
Claro que não me sinto desmoralizado, pois continuo com a convicção de que hei-de chegar a terra. O que eu desconheço é quando a poderei alcançar. Sim, mas, fisicamente, faltam-me as forças, estou muito fraco. Já não tenho a mesma energia que tinha quando deixei São Tomé. A minha canoa é comprida mas frágil – Não tem mais de que um metro de largura, por 60 cm de altura, 40 cm dos quais, estão abaixo da linha de água. Foi talhada num madeiro, cortado na floresta, próximo da Vila das Neves, da praia donde parti.
Diário de Bordo 4 Em relação às correntes, em vez de de me aproximarem para norte, estão-me a levar ao longo da costa de África... Irei ter provavelmente ao recanto do Golfo do Biafra...Não vejo outra alternativa... Agora o que eu não sei é o tempo que irei demorar.
Esta manhã, a canoa, ficou alagadíssima!... devido às chuvadas!... Estou exausto, digamos assim.
Fazer jejum, de vez em quando, até pode ser saudável, mas, sendo no mar e prolongado, é muito doloroso!... Desgasta e abre o apetite - E, então, como eu lhe poderei dar resposta, não tendo alimentos comigo, nem tendo conseguido pescar?!... Sim, a fome, aguça o engenho, mas seguramente que não é a melhor companheira para a tranquilidade do corpo e do espírito
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