expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Taxistas contra a UBER – ao saque sem fronteiras: depois da invasão de lojas orientais – da bagunça desde o comércio à fruta, à banca, água e eletricidade - aí estão as máfias organizadas, furtando-se aos impostos e às formalidades legais, prontas a engolir o último reduto onde os portugueses poderão assegurar algum trabalho para sustento pessoal e da família

A Internet é hoje um vasto campo aproveitado por manobradores, vigaristas,  sacadores, descarados oportunistas, que facilmente se furtam ao controlo da lei, a  coberto do mais  fácil e  imediato acesso às novas tecnologias  – De vendas e de serviços, que o poder fiscal não controla, em detrimento de quem a cumpre e segue os seus trâmites. Uber, en la mira de la justicia y reguladores de varios países - La Prensa


Obviamente, que os taxistas fazem muito bem em marchar, marchar,  em marcha lenta mas firmes dos seus propósitos e das razões que lhes assistem, contra a ilegalidade, a iniquidade, a desenvergonhada corrupção e cobertura   às negociatas, sem escrúpulos  - Em defender  os seus postos de trabalho, contra a indigência, o egoísmo dos apátridas e corruptos, sem rosto e sem alma,   que permitiram que este país  - onde não é preciso vergar a mola e o lucro é mais fácil – desde as cadeias de hotéis, lojas de comércio e de frutas, a banca, as companhias de água e de eletricidade e por aí adiante  – tais interesses fossem objeto da cobiça  de organizações de incalculável  poder económico, em detrimento do povo português  - Vindas de países ditatoriais ou de outros onde a democracia é mera fachada, já porque nas mãos de castas, que desde sempre foram donos e senhores das suas riquezas – E, que, agora, com as liberdades instauradas pela dita Nova Ordem Global, pelo mais despudorado e selvagem liberalismo, atuam impunemente, estendendo os seus tenebrosos tentáculos à escala planetária

Dizem as noticias – e vimo-lo pela televisão – “Contra a Uber, marchar, marchar, lentamente. Esta manhã, os táxis trocaram a bandeirada pelo protesto, porque estão a perder mercado para um serviço que consideram desleal e ilegal. E acusam o Governo de fazer pouco para fiscalizar essas ilegalidades. As marchas lentas estão programas para Lisboa, Porto e Faro.

Cerca de 6.500 taxistas são esperados esta sexta-feira na manifestação nacional de protesto contra a atividade da Uber em Portugal, que será traduzida em marchas lentas pelas cidades de Lisboa, Porto e Faro. - Excerto de Táxis complicam trânsito: ouça e veja aqui as dificuldades


PORTUGAL UM PAÍS CADA VEZ MAIS À DERIVA E MENOS PORTUGUÊS - 


Portugal um pais cada vez mais à deriva e ao sabor da cobiça estrangeira - Em Portugal não há vila que não tenha lojas orientais  – Sim, porque não, mas com conta peso e medida. Favorecer o crédito aos jovens para se poderem estabelecer e evitar que houvesse concorrência desleal com o comércio local – em horários e no fisco. A distribuição da fruta, em Lisboa é dominada por redes
 que importam a fruta lá de fora, enquanto a nossa fica a apodrecer nos pomares; os antigos quiosques dos jornais, onde era tradicional empregaram-se deficientes, estão nas mãos de orientais – A banca e as grandes empresas, tudo sob controlo lá de fora. Ainda se ao menos fossem apenas de países da CPLP!... Mas vêm de ditaduras ou de países, que nada têm a ver com a nossa cultura. E então quais as oportunidades dadas aos portugueses? – A trabalhar no campo?!... – Se este também está votado ao abandono – Não lhe resta outro remédio senão emigrar - Quando é que teremos governantes que sejam amigos dos seus compatriotas e não se vendam aos milhões do oportunista e guloso estrangeiro? - Que nos dá uma morcela para levar um salpicão - Mas este é também o sinal da Nova Ordem Mundial, que permite o saque, sem fronteiras e à escala planetária




segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril – Adelino Palma Carlos “ Está uma revolução na rua!!....E então o coronel, não sabe?!.”. - Está a ver!... Fui eu que informei o Coordenador de Segurança, que tinha rebentado a revolução “– Testemunho para a História de Portugal


Jorge Trabulo Marques - Jornalista e Investigador 



Adelino Palma Carlos –  Primeiro-ministro do Iº Governo Provisório (de 16 de Maio a 18 de Julho de 1974, nomeado pelo General Spínola  – Nesta parte da entrevista que me concedeu em sua casa, editada no vídeo deste post, Palma Carlos, fala   da Revolução de  25 de Abril, que o fez chorar de alegria  até às lágrimas  e do Governo que formou com a participação de Álvaro Cunhal (um ministro consensual E também do seu ideal republicano. da sua oposição ao Salazarismo e dos revolucionários que defendeu, como advogado.

Professor, advogado e político. Destacou-se como primeiro-ministro do I Governo Provisório -(Faro, 3 de Março de 1905 — Lisboa, 25 de Outubro de 1992 (Faro, 
Dou-me a honra e o prazer de me receber em sua  casa e de ali me conceder uma interessante entrevista acerca de alguns dos mais importantes passos da sua vida profissional e politica, nomeadamente, como opositor ao regime ditatorial de Salazar, defensor dos presos políticos, da alegria que sentiu  - até às lágrimas - quando tomou conhecimento do golpe vitorioso da Revolução do 25 de Abril, assim como de vários episódios relacionados com a sua participação como 1º Ministro do 1º Governo Provisório Adelino da Palma Carlos – Wikipédia, 



Considerado como "personalidade forte, inteligente, culto e de extraordinária capacidade de trabalho, foi primeiro-ministro do I Governo Provisório (de 16 de Maio a 18 de Julho de 1974). Como 11.º bastonário da Ordem dos Advogados Portugueses teve um importante papel na consolidação institucional e na internacionalização daquela corporação. Foi grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, a principal organização da maçonaria portuguesa. E fundador do escritório de advogados actualmente designado de G&F Palma Carlos

COMO ELE VIU A REVOLUÇÃO DE ABRIL

 «…fiquei contente!...Chorei, quando soube que era a Revolução!.. Que era para acabar com a ditadura!... Chorei! Chorei comi uma criança!... Não tenho vergonha nenhuma de dizer: chorei!!..

JTM  - Entretanto, chegou o 25 de Abril: o Sr. Prof. foi nomeado Primeiro-Ministro!
APC – Olhe… Essa história é engraçadíssima!... Eu não fazia  ideia nenhuma de que ia haver a Revolução… Aliás, eu era Presidente das companhias reunidas de gás e eletricidade: tinha sido convidado pelo General Gaspar dos Santos e era Presidente das Companhias… Quando eu vim para as Companhias, encontrei lá instalado, um coronel na Reserva, que era o coordenador de segurança das Companhias de Gás  e Eletricidade, da Sacor, da Companhia das Águas, da Companhia Nacional de Eletricidade  e da Petroquímica… Bom, esse homem, estava perfeitamente a par de tudo o que se desenrolava!... E até tinha uma coisa engraçada!... Sabendo que eu era uma pessoa, contra a situação, ele recebia todos os panfletos (não sei da onde) que saíam contra a situação e dava-mos para eu ler!... Ele é que fazia propaganda, junto de mim, contra a situação!... E estava sempre a par!... Quando foi da reunião dos capitães, em Évora, na Intentona de Março, ele disse-me: “Isto está mau!!..Agora o Movimento de Oficiais, em Évora!... Não se o que isto vai dar!...
Bem , continuámos, pacatamente!... No dia 25 de Abril de Madrugada!... Estava a dormir!...Aparece-me uma das empregadas, com o telefone, dizendo-me: “Sr. Douro! É o engenheiro da  Companhia do Gás, que tem muita necessidade de falara consigo!..” -Então traga lá o telefone!
Era o homem a dizer: “Sr. Presidente! Rebentou a Revolução?!...”
- Rebentou a Revolução?!...
-  “Rebentou a Revolução!!”
- E então o coronel, o que é que faz?!...
- “O Coronel, não está cá!... Não se sabe do coronel!...
Telefonei para o coronel, que eu tinha aí o número de telefone dele (que morreu, coitado, dois ou três meses, depois da revolução) … estava a dormir, como um anjo!...
- Então, Sr. Coronel!... Está uma revolução na rua!
- “Esta uma revolução na rua?!...”
- Está!... E então o Sr. não sabe de nada?!...
Está  a ver!... Fui eu que informei o Coordenador de Segurança, que tinha rebentado a revolução!...
Bom, eu fui para a Companhia, juntámo-nos lá os Membros  da Comissão Executiva,  que cá estávamos, que éramos cinco só, e passamos o dia, ali… Veio uma Ordem do Ministério do Interior, por intermédio da Direção Geral dos Serviços Elétricos (a que nós estávamos subordinados) para que se interrompesse a corrente elétrica, lá para cima, par o Parque Eduardo VII… E o Engº da Companhia disse: se nós interrompemos a corrente elétrica, nós ganhamos nada com isso!... Eles têm geradores e continuam a emitir da mesma maneira!
- E então eu disse: há alguma ordem escrita?!..
- Não há nenhuma ordem escrita!
- E então diga-lhe que mandem a ordem por escrito!... Nós estávamos subordinados ao Governo!... Era uma companhia concessionária!... Mandaram a ordem escrita… E então interrompeu!... Até que, às tantas, à tarde, eu mandei ligar!... Porque, já não havia Governo!... Não havia nada!..
Bom, estivemos ali todo o dia, sem saber o que se passava, com a televisão aberta!... Com a telefonia aberta!... Almoçámos, mesmo lá, na cantina da Companhia!. E olhe, nos dias seguintes, fiquei contente!...Chorei, quando soube que era a Revolução!.. Que era para acabar com a ditadura!... Chorei! Chorei comi uma criança!... Não tenho vergonha nenhuma de dizer: chorei!!..

JTM – Depois, foi entretanto nomeado Primeiro-ministro!...
APC – E depois… aí é que a coisa, começa a ter um certo pitoresco, começaram a ouvir dizer-me que eu ia ser nomeado Primeiro-Ministro!... Não sejam tontos!... Porque é que eu havia de ser nomeado Primeiro-ministro?... Que ideia é essa?!...
- Mas eu acho que você é que vai ser o Primeiro-ministro!.. Você é que vai ser o Primeiro-ministro!..
Até, que, um domingo (tenho este telefone, que não está na lista) e ligara-me por este telefone (era confidencialíssimo) as era da Presidência da República, era ali de Belém); era o Capitão António Ramos, a dizer-me: - Ó Sr. Dr.! O Sr. General Spínola, tem muita necessidade de falar consigo!” - Então está bem
Eu conhecia o Spínola, já há bastante tempo: “então quando é que ele quer que eu vá falar com ele?”
- “Amanhã às quatro horas! – No dia seguinte, às quatro horas eu fui lá, e ele disparou:
- Tenho um Governo pronto! Falta-me o Primeiro-ministro!... Você tem de ser o Primeiro-ministro!
- Não me fale nisso!.. Não tenho a minha vida organizada para isso!... Vivo da minha profissão!.. Não pode ser!... Deixe-me pensar!...
- Então pense até amanhã!...
Eu resolvi pensar dois dias mas não pude!... No dia seguinte, telefonava-me ele outra vez!..

JTM – E teve que aceitar!
APC – E tive que aceitar!.. Pronto!...
JTM – Foi um tempo agitado, na altura?
APC – Olhe!... Foi o pior tempo da minha vida!.. Foi o pior tempo da minha vida!... Extremamente agitado!... O Governo era um Governo não homogéneo!... Porque tinham querido fazer um Governo de coligação  - Quem  fazia o Governo não era o Primeiro-Ministro: o que estava na Lei Constitucional nesse tempo:  era o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, só fazia trabalhos num Governo, que lhe tinham oferecido!...
E eu dizia: façam um Governo de Gestão, que é o que é preciso, nesta altura.
-“Ah mas é melhor fazer um Governo de coligação….”
- “Então façam um Governo de coligação” – Eu tive lá, desde o Álvaro Cunhal, até esse homem monárquico, que aí anda, o Ribeiro Teles!.. A Pintassilgo!... Estava no meu Governo!..

JTM - Havia então alguma confusão…
APC- Devo-lhe dizer que, nas reuniões do Conselho de Ministros, havia às vezes divergências… Pois cada um tinha a sua opinião sobre os problemas que se colocavam… Havia muitos problemas a resolver... Havia divergências!... Eu tentava soluciona-las mas elas … mas é uma justiça que eu nunca deixo de fazer ao Cunha, é esta:  é que, quando a coisa estava numa situação quase de impasse, o Cunhal encontrava sempre uma solução de equilíbrio, que todos acabavam por aceitar!... É um político extraordinário!...

JTM – Acha que o Partido Comunista Português devia ser chamado também a contribuir, também no Governo?
APC – Quando eu era Primeiro-ministro, veio cá, o Mitterrand e o d’Ferry, vieram cá: fora-me visitar. Estava um bocado preocupados por haver comunistas no Governo; era o Álvaro Cunhal e mais o Adelino Gonçalves, Ministro do Trabalho, que era um sindicalista bancário, o Porto, que tinham metido lá… O Mitterrand, às tantas, disse-me: - “mas você não se preocupa pelo facto de ter comunistas no Governo?”
- Bom, não sei porque é que você me faz essa pergunta, quando, você, agora, constitui em França,  a União de Esquerda, de Socialistas e de comunistas!... Se você lá, anda de braço dado com eles, não sei  porque estranha que eu tenha aqui dois ministros comunista, num Governo!... Onde estão numa minoria flagrante!...

JTM – Olhe, na altura quais foram os problemas mais difíceis que teve de enfrentar nesse período?
APC -  Tive logo de entrada uma greve dos correios… Passados, dois ou três dias, não havia correios, não havia telefones, não havia coisa nenhuma… E eu disse: isto não pode ser!... Não podemos estar sem comunicações… Chamei o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, que era o Costa Gomes, e disse-lhe: ó Sr. General! Nós temos de ocupar militarmente os correios para acabar com isso!...
- Oh diabo! Isso é uma coisa complicadíssima!"

NOTAS BIOGRÁFICAS  -Adelino Hermitério da Palma Carlos nasce a 3 de Março de 1905, em Faro, vindo a falecer a 25 de Outubro de 1992, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, com a nota final de 18 valores, foi delegado da Faculdade de Direito à Federação Académica. Conclui o doutoramento em Ciências Histórico-Jurídicas, também na Universidade de Lisboa, em 1934. Advogado reconhecido, defendeu inúmeras figuras oposicionistas à ditadura, como Norton de Matos, Bento de Jesus Caraça e Vasco da Gama Fernandes. Foi também professor na Escola Rodrigues Sampaio, no Instituto de Criminologia de Lisboa e, como Catedrático, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, da qual viria a ser director. Foi jubilado em 1975. Em 1949, foi mandatário da candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República. Em 1951 exerceu funções como Bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. A 16 de Maio de 1974 é nomeado primeiro-ministro do I Governo Provisório, pedindo a demissão a 18 de Julho desse ano. Em 1975 funda o Partido Social-Democrata Português. Foi mandatário e membro da comissão de honra da candidatura do general Ramalho Eanes à Presidência da República (1979). Pertenceu ao conselho consultivo do Partido Renovador Democrático. Em 1986 recebe a insígnia de Advogado Honorário. Adelino da Palma Carlos | 1905-1992 - Memórias da .





sábado, 23 de abril de 2016

25 de Abril -74 – Assalto à RTP pelo Capitão Teófilo Bento – 72 Longas Horas, apoiado por um pequeno grupo de soldados, apenas vocacionados para os serviços internos do quartel – Houve muita ansiedade, alguma confusão e disparos, com a entrada de uma patrulha da PSP por uma das portas laterais

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador- O atual Coronel do Exército, Teófilo Bento, então Capitão, foi o herói da tomada das instalações da RTP, às 03.05 da manhã do dia 25 de Abril  -    Foram 72 longas horas, de ansiedade e até de alguma confusão e disparos, apoiado por um pequeno grupo das chamadas tropas logísticas, mais conhecidas por “padeiros”, vocacionadas para serviços internos no quartel de que a intervir em operações, portanto, sem a preparação da que têm tropas operacionais. Na breve entrevista que nos concedeu, confessa-nos  o que ele considerou  ter sido um autêntico “jogo de poker”, tendo a sua vida chegado a estar a linha de fogo por um dos seus próprios soldados, quando uma patrulha da policia de Segurança Pública, logrou entrar por uma das portas laterais da instalações  – Horas desgastantes e de risco, que, no final, o levariam a ser conduzido para o hospital 

UM TRANSMONTANO DE ORIGEM HUMILDE E UMA VIDA SUBIDA A PULSO

Natural da freguesia de   Picote, concelho de Miranda do Douro.  – Eis alguns passos da sua vida, contados numa entrevista concedida ao Jornal Nordeste, em 2011

"Até aos seis anos vivi em Picote, depois transferi-me para Sendim, ou seja, os meus pais é que se transferiram. O meu pai era Guarda Fiscal. Podia começar já por dizer que pertencia a uma família em que havia dinheiro, porque a maior parte das famílias, como se sabe, nessa altura, não conhecia a cor do dinheiro.

Eram tempos difíceis nessa altura. O dinheiro era escasso, o que potenciava muitas famílias necessitadas…

Eram famílias necessitadas na generalidade. Em Sendim havia duas ou três famílias ricas, havia depois estas ditas remediadas, em que o chefe de família poderia ser Guarda Fiscal, tinha uma remuneração e, já tinham possibilidades de adquirir coisas com dinheiro que a maior parte das pessoas não tinha. Sem querer, isso faz-me lembrar que, li uma história da evolução económica da Europa, em que dei por mim a fazer uma comparação muito estreita entre a economia, a sociedade da idade média e a sociedade que eu conheci quando miúdo, em Picote e em Sendim. Eram os mesmos instrumentos de trabalho, os mesmos sistemas de troca de bens; trocavam-se sardinhas por ovos, por exemplo. Recordo-me de a minha mãe me contar que levava dois sacos de trigo a Carviçais, primeiro ao Pocinho e depois a Carviçais; isto é, onde chegava o comboio, para trazer sal. Isto, só para dizer, como era a situação nessa altura agora, se quiserem, comecem a fazer comparações com os dias de hoje.

Que outras recordações é que guarda da sua meninice, da sua juventude?

Além das dificuldades referidas que eram muito notórias, principalmente antes de as barragens aparecerem e começaram a dar algum trabalho, o que potenciou que algum dinheiro começasse a circular, fez com que as pessoas despertassem e descobrissem a existência de outros mundos e, também contribuiu para que nos apercebêssemos do mundo fechado em que vivíamos, o que levou, precisamente, a que milhares de transmontanos emigrassem para a França, clandestinamente, isto é, sem autorização. Quando eram apanhados, eram devolvidos, muitas vezes, em condições extremamente difíceis, porque até as pessoas da minha idade se lembram. Chamavam-se passadores as pessoas que auxiliavam esses indivíduos a dar “o salto”, assim se chamava o transferir-se para França, tentando, portanto, ganhar algum dinheiro.

Muitos transmontanos deram “o salto", realmente…

Sim, é verdade! Há pouco disse-me que esta entrevista tinha um nome que era “À procura da Liberdade”; deixe-me falar sobre isso. 
É evidente que a liberdade, como a fome, como outras situações extremas, como a guerra por exemplo, só quem a viveu… ou melhor, no caso da liberdade, só quem não a teve é que sabe o que é não ter liberdade. Por mais metáforas, por mais palavreado, por mais frases que se utilizem, é difícil caracterizar uma situação extrema e a falta de liberdade é realmente uma situação extrema. 
Já dei algumas entrevistas em que dizia que, só com o passar do tempo, me fui apercebendo do que era a falta de liberdade; a privação de liberdade para ganhar o seu pão, a sua vida, levou tanta gente a emigrar, clandestinamente, porque não lhes era permitido sair livremente. As pessoas não tinham liberdade para procurar melhores condições de vida.

Senti, por volta dos anos 60, ao acabar o curso na academia militar, onde era aspirante, uma necessidade premente de sair daqui, de conhecer outras culturas e resolvi fazer uma coisa que era habitual: viajar para o estrangeiro, normalmente França, Inglaterra… recorríamos a algumas associações que nos arranjavam trabalho. Trabalhava-se durante as férias o que nos dava o suficiente para viver, não diria que dava para pagar as despesas todas, mas auxiliava muito e era uma nova experiência. 
Eu fui para Inglaterra. Estamos no ano de 69, precisamente no ano que apareceu a minissaia, tínhamos tido notícia dela, é evidente que em Lisboa não havia, em Portugal não havia mas, tínhamos tido notícia dela. Foi nessa altura que fui para a Inglaterra onde trabalhei num hotel. Inicialmente pensei que era para trabalhar como porteiro para ganhar umas boas gorjetas, mas afinal era trabalho não especializado, internamente, lá no hotel. 
Foi uma experiência interessantíssima mas, o que mais me impressionou e, era esta a ideia que queria vincular, foi que eu tive a sensação de que tocava na liberdade. A liberdade via-se em tantas coisas… na minissaia, via-se na forma das pessoas trajarem, Londres já nessa altura era um cidade muito cosmopolita, havia indianos, havia tudo. Enfim, faziam o que queriam, cada um vestia-se como queria vivenciando os seus usos e costumes, havia “speakers corners” onde se reunia muita gente e se falava contra tudo e contra todos. Pegavam no caixote, subiam para cima dele, expunham as suas ideias livremente, de tal maneira que, se tinham audiência estava bem, se não tinham, não havia problema; às vezes, via-se um indivíduo a falar para três ou quatro pessoas, outras vezes a falar para um conjunto de pessoas. Realmente, todas essas coisas e, mesmo a actuação da polícia, ensinavam liberdade.

Assisti, sem querer, a uma cena que me impressionou. Uma altura em que eu passava peloPiccadilly's Circus, um sítio em que se juntavam os hippies que, também nessa altura, estavam na moda. Eu passava muitas vezes por ali e via esse pequeno largo cheio deles; tinha umas escadas internas e o pessoal sentava-se por ali, de qualquer maneira e, houve um dia em que passei e percebi que devia ter havido uma decisão da polícia para evacuar. Já tinham evacuado, praticamente, a praça toda, estavam apenas dois casais, que estavam instalados, rodeados por dois polícias, notoriamente, a tentar convencê-los a saírem de lá e eles, provavelmente, inventando explicações e mais explicações, estou a dizer inventando, porque eu estive, sem exagero, meia hora a assistir à cena e dizia para mim próprio: isto, em Portugal, seria impossível. Verifiquei, sei lá, qualquer má resposta que ofendeu a polícia, ou que a polícia achou mais incorrecta. Pegaram neles pelas costas e meteram-nos em duas carrinhas e foram embora, primeiro impressionou-me a eficácia da polícia. Isto só para dizer que tudo era diferente e tudo me dizia que era quase como se tocasse a liberdade, o que não existia em Portugal.

Realmente, essa sua experiência deve tê-lo marcado profundamente. Temos, no entanto, que voltar um pouco atrás no tempo para lhe perguntar de que forma o marcou o facto de ter nascido nesta região?

Penso que o ter participado no “25 de Abril” teve um pouco que ver, ou talvez muito, com o ter nascido nesta região. Como disse, sou filho de um guarda-fiscal, sou um filho já tardio, tinha dois irmãos muito mais velhos que, por acaso, estiveram em África mas, tinham regressado antes dos acontecimentos que se verificaram, os acontecimentos relacionados com a guerra ultramarina. O regresso, de pelo menos um deles, deveu-se ao falecimento do meu pai. A minha mãe viu-se com um miúdo de oito anos para criar. A única coisa que sabia fazer era a lida da casa. Como o meu pai era guarda-fiscal e, numa aldeia, isso significava mais que ser remediado, quase significava ser duma classe alta, porque havia dinheiro, a minha mãe fez das tripas coração, virou-se como se costuma dizer. Ela ainda está viva, tem 98 anos, está num lar em Miranda, mas foi sempre uma pessoa que me marcou muito porque fez realmente um esforço fabuloso para conseguir educar-me com aquilo que ficou. Quase diria que teve de inventar formas de fazer dinheiro para me educar. Tive o azar de ser de uma aldeia, de não ter feito o exame de admissão na devida altura, o que me obrigou a ir para um colégio em vez do liceu que ficava mais caro e, assim, estudei em Miranda e diga-se de passagem que ao fim do primeiro ano já estava a dizer que não queria estudar mais, porque via os miúdos que estavam a trabalhar na barragem e não tinham que ir preparar as lições para casa. Aí valeu o meu irmão, regressado de África por causa da morte do meu pai que disse: se tivesses tirado más notas, talvez, assim como tiraste boas notas tens de continuar a estudar. Também lhe devo muito a ele, como é evidente, por causa disso. Fui criado de maneira a perceber as dificuldades que existiam em casa. Fiz o 2.º e 5.º anos, vim fazer exames a Bragança e, depois do 5.º, tive de mudar para o Porto. 

Eu não podia vir para o liceu, como disse e tudo isso ficava bastante caro. Fiz os estudos equivalentes ao terceiro ciclo e aí voltei a Bragança. Tive sempre uma ligação com Bragança e quando chegou a altura de ir para a universidade escolhi a academia militar fundamentalmente por questões económicas. Percebia, perfeitamente, que não podia ir para a universidade. Até gostaria de ter ido para engenharia, mas percebia perfeitamente que não tinha condições financeiras para tal. Ouvi dizer que na academia militar pagavam um salariozinho, enfim, davam subsídio, davam alimentação e não pagava pensão. Foi isso que condicionou a minha ida para a vida militar, não foi efectivamente a minha vocação especial. Foi mais uma condição económica que, diga-se de passagem, aconteceu a muita gente que depois veio a participar no “25 de Abril”, vieram a ser capitães de Abril. Temos que nos lembrar que nessa altura já tinha começado a guerra. A frequência na academia era alimentada, fundamentalmente, por classes ricas. Enfim toda a tradição da nobreza, mas quando começou a guerra deixaram isso para os pobres e os pobres preferencialmente, do interior, por isso é que nessa altura a frequência na academia militar era de Trás-os-Montes e das Beiras.as que me está a impressionar - Excerto de  

Entrevista com Coronel Teófilo Bento - Capitão de Abril

nordestecomcarinho.blogspot.c

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa – 80 anos de existência contados em livro: de 1935-2015 – Memorial de uma Associação Humanitária “de um punhado de homens dedicados à sua terra e à solidariedade” , pondo em risco as suas vidas, dando o melhor da sua generosidade e sacrifício, .

Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa . Sim, cumpriu-se mais um belo sonho, que se concretizou neste último domingo, no salão nobre do seu quartel. 

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista

 Sim, cumpriu-se mais um belo sonho da Associação Humanitária dos  Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa - O que é prometido é devido - Em 20  de Dezembro, último, aquando da sua  festa natalícia, que contou com a presença de muitos dos familiares e antigos dirigentes e Antigos Presidentes da Câmara, e ainda se procedeu à bênção de uma nova viatura de 9 lugares,  na mesma cerimónia em que era inaugurada a exposição fotográfica de algumas das suas admiráveis e abnegadas páginas desde a sua fundação, anunciava-se o propósito da publicação  de um livro, sobre o “ Memorial  do Bombeiros Voluntários de Foz Côa de 1933 a 2015 ao serviço da Humanidade" 

E foi justamente o  lançamento, que decorreu,  neste último domingo, dia 17, no salão nobre, do seu quartel  - Numa cerimónia, igualmente muito participada e da qual aqui lhe mostramos algumas imagens que tomei a liberdade de extrair da página do Facebook, de Amélia Lourenço, esposa de António Loureço, Presidente da Direção, além de outras fotos de minha autoria, anteriormente  editadas neste site, já que  é minha intenção aproveitar para editar um excerto de autoria de Artur Saraiva, também ele um dos cofundadores desta humanitária Associação, e que  transcrevi do extinto jornal ECÔA, onde fui um dos seus colaboradores - 


E também o excerto de um texto, editado no FOZCOENSE, pelo  Dr. Manuel Daniel, uma das personalidades do nosso concelho, que é também um dos rostos desta humanitária associação, natural de Meda, mas que aqui casou em Foz Coa, aqui tem feito a sua vida, quer como advogado, quer  nos vários cargos que tem desempenhado, na vida da autarquia e da misericórdia local – Mas também como poeta, como escritor e colaborador da Imprensa local e regional.

 
LONGE VÃO OS DIAS DE POVO ACUDIR A APAGAR O INCÊNDIO COM OS SINOS A REBATE 



Quando   eu nasci, já Vila Nova de Foz Côa tinha o seu Corpo Voluntário – modestamente equipado e, praticamente, para socorro da própria vila. Nas aldeias, com as vias de acesso, ainda do tipo de calçada romana ou ainda pior, não chegava lá a carripana dos bombeiros, nem as suas maquinetas com as suas bombas manuais.

Sim, já  lá vai o tempo em que, em vez do grito da sirene, se ouvia o repicar dos sinos, chamando homens, mulheres e crianças, trazendo pela mão ou à cabeça, cântaros ou caldeiros de água para apagarem o incêndio - Ainda conheci esse tempo na minha aldeia.

Quase um século de esforço e de dedicação, em defesa da comunidade, pondo em risco as suas  vidas, dando o melhor da sua  generosidade, abnegação e  sacrifício, acorrendo sempre à chamada, no momento mais crítico ou difícil, sem olhar a quem .


Sim,  aos bombeiros, o que lhe sobra em dedicação e espírito de voluntariedade, escasseia-lhe nas ajudas materiais. Pois, "com  as receitas a diminuir para cerca de metade e alguns custos a crescer, só com muito esforço dos dirigentes, comando e a generalidade dos bombeiros, tem sido possível dar a devida resposta à população"  - Palavras ditas, há  três anos, por  António Pimentel Lourenço, Presidente desta Associação, e, por certo, ainda muito atuais.

"Nª SENHORA DA VEIGA ESTÁ NO MOMENTO DA SUA CRIAÇÃO" - Escreve Manuel Pires Daniel - que, já em 1994, proferia esta afirmação: "O sonho do Quartel levou 40 anos para se construir" (...) "Todos temos o dever de ajudar"

"Um pouco da história dos nossos Bombeiros  recordada nas Jornadas de Solidariedade, quando completaram 60 anos (em 1994)

Os nossos bombeiros “nasceram”  em 22 de Junho de 1934

Até aí não havia bombeiros? Pois não. O povo acudia impulsiva e improvisadamente, chamado pelos sinos a rebate, para actuar, depois, de forma desorganizada, com prejuízo para os sinistrados. 

Havia, desde há muito, em Foz Côa, o sonho de ter bombeiros, à semelhança do que sucedia em muitas terras. 

E esse era, de facto, outro sonho que vinha de longe. O Cónego José Marrana, através do jornal "Notícias de Foz Côa" que se publicava nesta terra entre os anos 20 e 30, foi animando a sua possível criação. Mas todas as tentativas ficavam pelo caminho. A terra não estaria suficientemente adubada para receber tão excelente semente. 

É certo que já havia uma bomba, maltratada, que andava por aí aos baldões do rapazio. Ninguém cuidava dela e foi preciso repará-la. Nas horas dos incêndios, como S. Bárbara, é que se lembravam da sua utilidade e se falava da falta dos bombeiros .. 

Nº Srª da Veiga está no momento da sua criação




Só na festa de Nossa Senhora da Veiga, em Setembro de 1933, é que a ideia de se criar uma Associação Humanitária, com o respectivo Corpo de Bombeiros, começou a criar corpo. Juntaram-se alguns homens de boa vontade. A dar ânimo à iniciativa lá estavam José Joaquim de Almeida Pinheiro e Júlio António Lopes. Em Novembro havia já inscrições para o primeiro Corpo Activo. Em Janeiro de 1934, no dia 14, saíram à rua, pela primeira vez, já fardados, para simular um ataque a um incêndio, suposto na Câmara Municipal. Feitos os estatutos, organizados os seus corpos sociais, com José Augusto Pinto à frente da Direcção, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa nasceu finalmente no dia 22 de Junho de 1934, (.). 
Nos tempos da II Guerra Mundial

A partir daí, os Bombeiros de Foz Côa e os seus problemas andaram juntos por vários anos. Não se conheciam uns sem os outros. Os homens que dão "vida por vida", à medida em que melhoravam os seus serviços, viam multiplicadas as suas dificuldades. As guerras de 1936-1939 (em Espanha) e de 1939-1945 (na Europa) marcaram indelevelmente a sua história, mal conseguindo sobreviver. Foi necessário, inclusivamente, nomear comissões administrativas. 

Grandes homens foram aparecendo, entretanto. Dr. Amílcar de Sousa Donas Botto, Dr. José Augusto Saraiva de Aguilar, Dr. António Augusto Correia Farinhotc, Moisés Martins, Herculano Pais, Cipriano Saraiva, Adão Mário Salgado, José Joaquim Torres Teles, Manuel José Pires, Loisik José Candoso, Amílcar Chéu, Jorge Coelho, Mário José Salgado, José Augusto dos Santos, e para encurtar uma lista que seria extensa, o nome inesquecível do antigo Presidente da Câmara fozcoense, Dr. Manuel Gonçalves dos Santos. 

Fazia falta um quartel condigno

Era preciso construir um Quartel, no lugar onde funcionara a antiga Central Eléctrica:Enquanto o não havia, os Bombeiros ocuparam precariamente o Clube Fozcoense, que deixara de ter actividade. As obras, entregues ao empreiteiro Abílio Araújo Soares, foram andando com as dificuldades financeiras típicas destes empreendimentos. Os próprios Paços do Concelho iniciaram um processo de remodelação. E foi no edifício do Quartel, então em vias, de acabamento, que a Câmara se instalou, antecipando a sua utilização pelos Bombeiros. 

E é curioso que foi aqui, neste salão nobre, ainda inacabado, e no gabinete da Direcção, que se fizeram reuniões que conduziram à criação do Apoio Domiciliário a Idosos, quando o Lar ainda era um sonho, o Hospital estava em obras e a Misericórdia não tinha um lugar próprio para as suas reuniões.

O sonho do Quartel levou 40 anos para se construir

A inauguração do Quartel fez-se, mais tarde, em 1982, num dia em que Nossa Senhora da Veiga era trazida para a Vila. Um dia grande para os Bombeiros e, sobretudo para um elenco de homens de Foz Côa, que se agarrou de alma e coração a esta benemérita Associação, mantendo-a em pleno até aos nossos dias. 

Não pode nem deve ficar sem o devido_ relevo o nome de António Ferreira Sebadelhe, no seu posto de Presidente da Direcção desde 3 de Fevereiro de 1979 (já lá vão 14 anos), ao lado de Mário Raúl Ferreira, Fernando Anacleto Veríssimo, Amílcar Fernandes Chéu, António Eurico Flor Guerra, José Silvério Maximino de Almeida, José dos Santos Pires, e outros, não podendo deixar de lembrar também os nomes de Dr. Jorge Caldeira, Tenente Coronel José Clementino Pais, José Ilídio Antão, António Fernando Mimoso, Adriano Manso, Alberto Coelho, Elói Ernesto Manso, António Lourenço e outros mais recentemente chegados. 

Tem sido enorme o esforço desenvolvido por este punhado de homens dedicados à sua terra e à solidariedade.

Todos temos o dever de ajudar

Agora (estávamos em 1994) já sabemos: o Quartel-sede já não chega para as viaturas, amanhã vamos inaugurar uma nova garagem, temos várias necessidades de melhoria de serviços, está aí a barragem com a mais extensa albufeira do País, estamos longe dos principais hospitais distritais e as ambulâncias não chegam para as encomendas ... Os Bombeiros são chamados para tudo o que é necessidade ... 

O seu rosário é, infelizmente, uma oração que só com insistência os santos escutam. 

Manuel Daniel  (Excertos de uma palestra  proferida nas  “Jornadas de Solidariedade”, em 1994 – no livro “Foz Côa Solidária”




OS BOMBEIROS VOLUNTÁRIO DE  VILA NOVA DE FOZ CÔA  - "Quantos, por vezes, chegam a casa com queimaduras, outros meios intoxicados pelos fumos emanados pelas chamas." (..) Por tudo isto, lhes foi atribuído o glorioso nome de "SOLDADOS DA PAZ".  - Escreveu no ECÔA, Artur Saraiva, em 1 de Junho de 1995

 "Logo à entrada do 'Hall", encontra-se uma fotografia ampliada, onde podemos ver em primeiro plano, sentado da esquerda para a direita, os seus primeiros fundadores: José Pinto, José Pinheiro, Júlio António Lopes, José António Saraiva Caldeira e por último, o  Luiz Moura, todos já falecidos, nomes que muitos ainda se devem recordar até com saudade.

Na mesma, e de pé, podem ver-se "os nossos valentes soldados da paz".
Estes, com escassos meios que na altura dispunham, conseguiram operar verdadeiros milagres, chegando até a pôr em risco as suas próprias vidas, em prof das nossas populações.
Para todos estes, já falecidos não podemos ficar indiferentes, devendo sempre manifestaremos a nossa eterna gratidão.
(…)Estes briosos bombeiros são voluntários e sem quaisquer remunerações a não ser as que auferem nos seus serviços onde de trabalham.


Todos os anos, no Verão, temos assistido a incêndios grandiosos que devastam hectares das nossas lindíssimas e frondosas florestas.
É com tristeza que percorremos quilómetros e quilómetros de terra queimada.
A maior parte destes são provocados por mãos criminosas, ficando os responsáveis na maior parte fora da alçada da Justiça.

Outros há' que são provocados por incúria da nossa parte que inadvertidamente ao conduzirmos o carro ou a moto atiramos para o lado, uma ponta de cigarro ainda acesa, não pensando no acto irreflectido que cometemos.
Estes gloriosos Soldados da Paz chegam por vezes, ao deflagrarem-se estes violentos incêndios, a estarem 24 horas e mais sem conhecerem o conforto dos seus lares, deixando os seus familiares em estado de grande tensão e ansiedade por tão funesto resultado, acabando muitas vezes em grandes tragédias.

De facto é preciso ter amor a esta perigosa profissão que abraçaram voluntariamente e pela qual prestaram um juramento solene.
Ei-los, logo que a sirene começa a retumbar, a correrem para o quartel, deixando os seus empregos para poderem chegar a tempo da chamada, afim de evitar que um incêndio já incontrolável se propague aos seus vizinhos.
Quantos, por vezes, chegam a casa com queimaduras, outros meios intoxicados pelos fumos emanados pelas chamas.
É este o espírito de solidariedade destes bravos heróis, que os leva a sacrificar as suas próprias vidas pelas dos seus semelhantes.

Por tudo isto, lhes foi atribuído o glorioso nome de "SOLDADOS DA PAZ". r


Antes de terminar esta primeira parte referente aos nossos Bombeiros Voluntários municipais ou sapadores (parte mais perigosa e por vezes injusta) e antes  de entrar na segunda parte, quero que todos os nossos leitores fiquem a saber duma terrível verdade ao  lerem este artigo e depois de meditarem um pouco, também os vossos olhos se encherão de lágrimas com o final deste episódio.

Quando os voluntariosos os bombeiros, na época destes calores abrasadores que de ano para ano vão sendo mais quentes, são chamados para tentarem extinguir um flagrante incêndio, num monte coberto de majestosas florestas, lá conseguem chegar com os seus Auto-Tanques, antigos ou modernos ao sopé destes, sentem-se impotentes para extinguirem as chamas assustadores que vão subindo até ao cume, sem que lhes permitam entranharem-se no meio delas.

Após o acto consumado, apenas se vê terra queimada, negra e perante estes flagelos, os nossos bravos soldados, com lágrimas a deslizarem pelas faces e raivosos porque não conseguirem atingirem o seu objectivo, parecem que ouvem com voz bastante ténue uma ou outra árvore rachada ao meio, antes de dar o último suspiro dizer muito baixinho:
"Não choreis meus amigos! Fizestes os possíveis e os impossíveis, nada vos poderá roer nas vossas consciências. O Governo tudo tem feito ao seu alcance para vos ajudar construindo belíssimas auto-estradas e pontes maravilhosas, para que vós possais chegar mais depressa junto de nós chegar sem estragarem os vossos meios de locomoção".

"Também aparecem uns pássaros voadores (a que lhe dão o nome de Helicópteros) com um saco pendurado cheio de água, mas estes também a maior parte das vezes inúteis para nós, mas lucrativos para os seus proprietários e para os pilotos que (estes não são voluntários) trabalham à hora".
"Não percais nem a Fé nem a Esperança porque o Governo todos os anos estuda meios de nos salvar''.
''Hoje morremos nós, mas amanhã serão plantadas outras e a vida continua num ritmo acelerado aguardando melhores dias".
"E sabeis uma coisa?
Mesmo depois de queimadas, ainda somos produtivas para alguém".

Para terminar a parte 1, quem não se lembra de há pouco tempo 4 soldados da paz perderam a vida enorme incêndio.
Mas infelizmente estes não foram os primeiros nem serão os últimos.
Quantas mães ficam sem filhos? Quantas esposas ficam sem os maridos? Quantas crianças ficam sem os pais? 

(...) Portanto, lanço desde já um apelo:  Deixem-se de colóquios, de projectos e entrem imediatamente  em acção, antes que seja tarde e vejamos mais uns hectares das nossas florestas a arder por esse país fora sem meios suficientes para os debelar.
Não se esqueçam de que para tudo há sempre uma solução, apenas para uma não existe. “A MORTE”.
Não deixem que as nossas florestas morram!...

Quando à parte Directiva dos Bombeiros Voluntários desta vila, são já quase todos veteranos e sobejamente conhecidos, começando pelo Presidente (António Sebadelhe) um jovem embora de meia idade, inteligente, dinâmico, impulsionador e há vários anos à frente desta Direcção, estimado pelos seus subordinados, pelas populações de Foz Côa e de todo o nosso Concelho, sempre pronto a dialogar, a acatar sugestões que porventura sejam em proveito da melhoria dos nossos “SOLDADOS DA PAZ”.

É nesta faceta de um dirigente que tem sabido com a colaboração de Mário Ferreira, José Naldinho e tantos outros orientar com eficiência e dedicação toda esta grande cooperação
Na parte técnica também não podemos olvidar os nomes dos seus comandantes, Francisco Gouveia, Aníbal Carvalho, Adriano Beijoco que se esforçam para os manter fisicamente em boa forma a fim de estarem aptos a actuarem para qualquer emergência que de momento surja. -Excerto -  Artur Saraiva