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segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Chãs de Foz Côa – Tradicional jantar pré-natalício de um grupo de chanenses em Algés – Calorosos momentos de confraternização e de convívio


Jorge Trabulo Marques

Decorreu  na noite de 18 de Novembro, no típico restaurante Caravela de Ouro,  em Algés, propriedade do Sr. António Lopes, exemplar empresário de Santa Comba, do nosso concelho, que acolheu e proporcionou um alegre, entusiástico e amistoso encontro de várias famílias, com os pais, filhos, avós e netos, naturais  da aldeia de Chãs, que se reuniram com  os residentes em Lisboa e arredores,  bem como a outros aos quais se unem laços de amizade ou de familiaridade.


Uma vez mais organizado, graças ao dinamizo de Daniel Ferreira, a que se juntaram outras generosas vontades, pago por todos os participantes. Uma vez mais num amplo e excelente espaço que se ergue no Jardim de Algés, sobranceiro ao  estuário do Tejo, no qual se pôde desfrutar, a par do caloroso convívio, de muitos abraços e beijos, uma  saborosa ementa regional confecionada à moda antiga, acompanhada de ótimos legumes, vinho da nossa região, um branco e tinto Ladeiras de Santa Comba, ceia esta antecedida por tentadores aperitivos, um repasto de fazer arregalar o olhar e abrir o apetite, servido  com muita simpatia e familiaridade pelos seus diligentes e amáveis empregados, e, como não podia deixar de ser,  também pelo Sr. António Joaquim  Lopes - esposa e filho -  que pessoalmente também se associaram ao convívio, confraternizarem  e  nos presentearam com a sua cordialidade e amizade, bem como o Presidente da Junta de Freguesia de Chãs, Carlos Sobral.

Mais conhecido pelo  Sr. Lopes, sem dúvida, um homem que infunde natural simpatia  - Natural de Santa Comba, de uma freguesia vizinha a Chãs, do mesmo concelho, grande parte dos quais vividos na região de Lisboa, para onde veio ainda jovem e logrou subir a vida a pulso: sem dúvida, uma figura muito querida e admirada, quer na sua aldeia, onde tem sido um dos principais apoiantes da festa anual de Nª Senhora dos Remédios, bem como noutras louváveis iniciativas de cunho social, quer em todo o concelho de Foz Côa, Meda, Trancoso, sim muito conhecido e admirado em todo o Distrito da Guarda, bem como, naturalmente, em Algés, Cascais e em Lisboa, elo proporcionado pelos muitos frequentadores da sua casa, que, o tomam como amigo, que admiram o seu relacionamento humano e a excelente qualidade dos serviços prestados pelo seu restaurante, no qual se podem desfrutar os mais saborosos pratos da gastronomia portuguesa, num amplo espaço, com vários pisos, com uma magnifica vista sobre o Tejo. Pessoalmente, embora residindo em Lisboa, mas, com certeza, sempre com a minha aldeia n coração, também quis aproveitar para me associar ao amistoso convívio, nomeadamente para registar as fotografias que tenho o prazer de apresentar em vídeo

Tal como já foi recordado pelo jornal Luso-Press, António Joaquim Lopes nasceu e viveu a sua infância na aldeia de Santa Comba, em Vila Nova de Foz Côa. É de origem de uma família pobre e, por essa razão, foi obrigado a sair da escola com apenas nove anos de idade para ir guardar as ovelhas no campo. “Ganhava 30 escudos por mês”, conta.

As possibilidades na aldeia eram poucas e os mais velhos tinham de trabalhar para ajudar a criar os mais novos, sendo o caso de António Joaquim Lopes. Só saiu da aldeia para cumprir o serviço militar em Angola, estando na guerra durante 27 meses. Ao regressar à terra, decide emigrar para França em busca de uma vida melhor. Aprendeu e trabalhava numa profissão que lhe permitiu arranjar umas económicas. “Decidi, por isso, investir num restaurante na Cruz Quebrada, em Lisboa”.

Juntamente com a esposa, também de Santa Comba, tiveram de abandonar França e tinham no restaurante uma hipótese de uma nova vida. Sem perceber nada de restauração, António Joaquim Lopes viu-se abraçava uma nova vida com o seu restaurante na Cruz Quebrada. “Tive a felicidade de o restaurante ser perto da Universidade de Educação Física, a única que existia no país e o único centro de estágio que havia na altura. Não percebia nada de restauração, mas adaptei-me, fui vendo como é que os profissionais faziam e venci. Tive noites sem ir à cama, mas consegui vencer”.

Começou na restauração em 1974, estando nesse restaurante durante 20 anos consecutivos. Posteriormente, adquiriu um novo restaurante em Algés, onde aqui concentra toda a sua família a trabalhar há 25 anos. Faz ainda parte do Lar de Santa Comba, tendo sido convidado para trabalhar e ajudar a desenvolver a instituição, “porque os velhinhos precisam muito. Está num sítio rural onde as pessoas têm baixas reformas e é preciso ajudar”. Apesar de ter começado a trabalhar em França, é a Portugal que pertence e onde gosta de estar. “Para mim ser português é desenvolvermos o nosso país, a nossa terra. A frança ajudou-me a começar uma vida, mas é aqui que eu quero viver, é o nosso sol, é aqui que eu gosto de trabalhar. Sou 100% patriota”. A todos os portugueses que se encontram espalhados pelo mundo, António Joaquim Lopes lembra que é em Portugal que devem investir, trabalhar e fazer pela vida.


sábado, 18 de novembro de 2023

“O Futuro em Aberto - Pensar Portugal” –- 7º livro do coronel Manuel Pedroso Marques, antigo capitão do “Movimento de Beja”, em 1961, contra a ditadura salazarista, que lhe valeram vários anos de exilio mas também uma larga experiência de vida em vários ramos de atividade, foi apresentado em Gaia e em Lisboa - Em 9 e 14 de novembro.

                                                Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Com videos 

Reportagem também editada em  https://canoasdomar.blogspot.com/2023/11/o-futuro-em-aberto-pensar-portugal-7.html

A obra, que pretende demonstrar o contraponto entre o espírito progressista e o conservadorismo, tem a chancela da   Âncora editora e, por coincidência,   foi editada num tempo de uma certa  incerteza política pelas razões já conhecidas, mas o autor diz que não tem nada de premonitório, porque, o livro começou a ser escrito  há vários anos reconhecendo, no entanto, que outro está em aberto! Essa ideia deve ser a assumida pelo comum das pessoas

A primeira sessão contou com apresentação do  professor universitário e presidente da Misericórdia do Porto, António Tavares, na Sala de Âmbito Cultural, do El Corte Inglês de Gaia – E, depois,   na passada terça-feira, no  espaço cultural da mesma empresa, em Lisboa, com apresentação da Professora de Direito da Saúde e da Bioética da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, Helena Pereira de Melo



O lançamento decorreu no seio de um auditório muito atento, e caloroso, num salão repleto, em que o autor confessou encontrar-se num ambiente familiar.  Pelo que vimos, não só pelos muitos dos rostos, que marcaram presença, lhe são amigos e admiradores do seu percurso e afinidade política e  da sua obra literária –inclusivamente da vida militar, como o capitão de Abril, Vasco Lourenço, entre outras figuras militares e de diferentes ramos,  bem como  a sua esposa, a antiga jornalista e ativista de temas culturais e sociais, Maria Antónia Palla, mãe de António Costa, com quem vive há mais de 40 anos.  Mas, naturalmente, sentindo-se perfeitamente também à vontade,  atendendo à larga e riquíssima experiência que diz possuir  no meio jornalístico e editorial.

Eu estou num cenário que me é familiar…. Porque, a profissão que eu exerci durante mais tempo, como exilado político no Brasil, foi próximo da Comunicação Social e das Editoras. Fui editor, durante seis anos, de uma grande editora, que tinha três chancelas editorais e editei 300 livros, deste género de livros, e, portanto, apresentação de um livro, é uma coisa que me é muito familiar … E devo dizer que tenho uma grande felicidade de ter reparado agora mesmo a uma das melhores apresentações que eu vi na minha vida

Penso, que, em Portugal, há uma certa dificuldade em antecipar a chegada do futuro e há uma certa dificuldade em afastar o passado

 O futuro é incerto, mas só o futuro nos traz novas oportunidades. Forma de conciliar as reflexões sobre as dificuldades atuais do nosso país e sobre a procura das capacidades de as ultrapassar”.

Nesta obra, referem-se alguns “males portugueses”. Denunciam-se vícios, erros, deficiências culturais, indecisões ridículas, ausências de planeamento e outras máculas coletivas, responsáveis pelo atraso do nosso país, relativamente a outros.

Continuamos na cauda da Europa desde os alvores do “comércio da pimenta”. Porém, vencemos ameaças e adversidades à própria soberania. E temos dado saltos em frente, granjeando respeito e alguma notoriedade internacional em relação a certos valores, aproximando-nos de um futuro melhor do que o presente.

As perspetivas de futuro atemorizam as coletividades, no mundo atual, como se refere: competições por hegemonia económica e política entre países, guerras, alterações climáticas, etc.

Mas só a democracia consegue enunciar as alternativas e as opções políticas nacionais, capazes de motivar as sociedades, no sentido do progresso e do desenvolvimento humano. Só em democracia se consegue eleger uma estratégia nacional capaz de alcançar estes objetivos.

A nossa comunidade condicionará o seu futuro pela ideia que fizer dele. Pensar o futuro de Portugal constitui uma obrigatoriedade estratégica. E o estratégico consiste em definir objetivos que se considerem essenciais, em função das capacidades existentes e a adquirir, tendo em vista a estratégia dos Outros, aliados e concorrentes, com a prospetiva sobre as oportunidades que o futuro nos facilita ou dificulta. É o que este livro ensaia.

A diferença entre os Homens e os Deuses é que só estes conseguem ler o futuro”, disse Platão. E o repete ainda hoje, quem desista de pensar — “o Futuro a Deus pertence”.

Álvaro de Campos disse que “pertencia àquela classe de portugueses que depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia ficou sem emprego”. Ideia errada de Fernando Pessoa, que pressupõe que o país só teve uma estratégia — a dos Descobrimentos.

 “Quando a indecisão cai no ridículo, qualquer decisão é boa”. Esperemos que esta ideia de Balzac não seja aproveitada para a localização do novo aeroporto de Lisboa.

  “Quando se desconfia de tudo e de todos, o fascismo vem aí”, Madeleine Albright. A Democracia tem de constituir a base subjacente da Confiança dos cidadãos no Futuro.  A história das relações entre os poderes políticos instalados e Os emergentes regista guerras e alianças. À opção do Ocidente e do Oriente, do Norte e do Sul do mundo atual só pode ser uma — a Paz.

A história das relações entre os poderes políticos instalados e Os emergentes regista guerras e alianças. À opção do Ocidente e do Oriente, do Norte e do Sul do mundo atual só pode ser uma — a Paz. - É destaque de algumas passagens na contra-capa do livro

            OUTRAS  OBRAS DO CORONEL MANUEL PEDROSO MARQUES


                                                                  " DIÁLOGOS IMPROVÁVEIS" 

Breve entrevista com o autor numa sessão de autógrafos na 93ª feira do livro de Lisboa, que encerrtou no passado dia 13 de Junho - Diálogos Improváveis –Diz o autor Manuel Pedroso Marques - é um diálogo entre o populista, a democracia, o radical e a opinião pública – Que dão força às palavras ditas, clarificam "conceitos em forma de personagens" que dialogam sobre mudanças, mitos, crises e divisões sociais. Todas as personagens, consoante os temas, revelam opiniões de esquerda, direita ou sem nenhum enquadramento político.

Falam da crise da democracia, do passado e do futuro, na voz e nas vontades que solicitam o leitor a identificar e a identificar-se sob o ponto de vista político. Falam da globalização (suas dificuldades e perspetivas), do Brexit e dos referendos como modo democrático de consulta ou forma populista de decidir; falam da questão social - uma discussão em aberto, sem fim, como as desigualdades, o poder do laicismo, o entendimento democrático ou não do nacionalismo, e as pressões dos supra e dos subnacionalismos. A conversa, no campo internacional, aborda a situação no Médio Oriente, o terrorismo, as intenções e as dissensões, a guerra e os seus efeitos mais graves - as migrações e as manifestações de ciberguerra. Comenta práticas da teoria da conspiração, da pandemia da Covid vista por leigos e, enfim, "da liberdade - o tudo ou o nada na sociedade". Nestes diálogos não há teses esmagadoras de todas as objeções. A reflexão enriquece-se com contrapontos externos a ela mesma: as personagens afinaram ou até corrigiram alguns pontos de vista. Os Diálogos Improváveis aqui ensaiados estimulam também o leitor a criar certezas ou dúvidas, afetos ou rejeições, mas sem excluir a diferença do humano.

"OS EXILADOS” – Por que é que há tantos exilados políticos em Portugal? Por que é que isso aconteceu?”- A resposta  é dada  no livro de autoria do  coronel Manuel Pedroso Marques, lançado, em 2016 sobre a temática do exílio, uma situação marcante na sociedade portuguesa, desde os descobrimentos, mas escassamente abordada, em que os protagonistas desta obra são exilados, deportados, banidos, torturados, refugiados e comuns emigrantes, portugueses, brasileiros, espanhóis, do exílio judeu, do galego e de outros, em diferentes épocas e circunstâncias. No caso de Portugal, salienta-se o quadro estratégico e político responsável pelo elevado número de emigrantes, exilados e estrangeirados, ao longo da nossa história. Também o Brasil e os exilados brasileiros em Portugal merecem especial referência.

 

É referido que não se mitificam sacrifícios, nem valentias. Mas denunciam.se os crimes, as contradições e o ridículo de muitos ditadores

Na parte final da entrevista, que me concedeu na Feira do Livro, em 2016, recordou a crise de 2008, a primeira crise económica, em que, publicamente, as entidades responsáveis, na maioria dos países diz que é uma crise que tem de ser paga pelo contribuintes. É a primeira vez em que isso se diz:

Nas outras, na crise de 29, faliram 10 mil bancos nos EU; suicidaram-se muitos banqueiros e investidores; agora não se suicidou nenhum, não morreu ninguém e também não se prendeu ninguém e alguns deviam estar presos

Manuel Pedroso Marques, nasceu em Lisboa mas tem raízes nos Escalos do Meio, concelho de Pedrógão Grande. , é casado com Maria Antónia Palla Doze anos de exilio - Participou, como capitão, numa ação militar e civil contra a ditadura em 1961. Em Portugal, foi redator, editor, gestor e escreveu sobre temas de Administração, sociais e políticos. Redator da Enciclopédia Delta Larousse, dirigida por António Houaiss, foi editor de três chancelas editoriais no Brasil. Em Portugal foi presidente da RTP, da empresa do Diário Notícias e da Capital, administrador da Bertrand e da Difel, de empresas de publicidade e da Agência Lusa de Notícias.

Em funções militares esteve por duas vezes colocado no gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército, foi assessor militar do Primeiro-Ministro, Mário Soares, e foi instrutor de capitães de Administração Militar nas aulas de Estratégia e Teoria de Administração.
Publicou: Liberdade é também vontade (coautoria), Relações de Poder na EmpresaO Jogo estratégico na GestãoTempos difíceis Decisões urgentesOs Exilados não esquecem nada mas falam pouco. - Entre outros títulos. 

Escreveu artigos de opinião, sobre temas políticos. Publicou: Relações de Poder na Empresa, em Publicações Europa-América, 1980; O Jogo Estratégico na gestão, Difel 1996: Tempos Difíceis ; Divisões Urgentes, Bnomics, 2010


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Apanha da azeitona - Tempo de se colher o fruto escuro, nas terras do Douro, no xisto que produz o mais fino e apurado elixir doirado dos céus

                                    Jorge Trabulo Marques  - Jornalista e filho destas terras

APANHA ANTIGA DA AZEITONA - Em manhãs e tardes, já mais geladas e invernais de que suaves e outonais, rostos vergados sob a terra acastanhada, curvados por lenços e xailes escuros, buscando os bagos polidos que crepitam como vagas de frios chuviscos que desprendem dos ramos agitados pelas varas que se perfilam em torno da oliveira, como dedos apontados aos teto dos turvos e acinzentados céus, agarrados por mãos também já cansadas de os fazerem ondular, estremecer e desprender




Sim, os toldos amarelados esmaltam-se de bagos de negro aveludado, que se desprendem com as verdes folhas, como salpicos iluminados de brilho sob a claridade cinzenta dos dias nublosos e frios, enquanto se varejam os ramos das centenárias árvores, que vão cobrindo em manchas negras e dispersas tão cetinosos mas adorados tapetes ,que entretanto, também vão ocultando os ressequidos espinhos da terra ainda não lavrada pela rabiça do arado, quando ainda ali não chegava a rodada do trator nos terrenos e ladeiras de menores declives e encostas e que terão de ser depois  carregados sob a albarda das bestas ou em simples carroças ou carros de bois, mais das vezes puxados por burros ou machos

Por isso, de quando em vez, rostos por tão estafados, que mal disfarçam o esforço do seu desgaste ou a sua  dor, sob o teto cinzento e infinito dos céus,  lá vão fazendo uma ou outra breve pausa , erguendo a vara ao seu lado ou levantado o costado, aquecendo as mãos nalguma fogaz fogueira ateada por alguns ramos da oliveira ou de palhas e vides da videira,  cavaqueando soltas palavras de antigas memórias, apreensões dos muitas canseiras e sacrifícios  do dia a dia ou dando graças a Deus por mais uma jornada que a terra do chão  acastanhados mas sagrado, lhes ofereceu. .

sábado, 11 de novembro de 2023

Angola independente há 48 anos – em 11-11-1975 - Parabéns ao Povo Angolano e votos de Paz Nacional e não volte a naufragar numa guerra civil – Nesse dia andava eu naufragado há 22 dias numa piroga no golfo da Guiné e ainda tinha pela frente mais 16 dias – “Não sei qual o destino onde vou ter!… É difícil neste momento fazer qualquer prognóstico…”

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo navegador solitário em pirogas de S. Tomé



JAMAIS PODEREI ESQUECER-ME  DESSA LONGA  NOITE, ANTE A SOLIDÃO DO MAR E DO CÉU - Até porque, se tratava de uma data em que nasceu a minha saudosa mãe: ou seja, no dia de S. Martinho

Angola comemora, este sábado, o 48.º aniversário da Independência Nacional, cujo acto central vai decorrer em Saurimo, província da Lunda-Sul.

Naquele dia 11-11-1975  Quando, na madrugada de 11 de Novembro de 1975, o saudoso Presidente António Agostinho Neto proclamou solenemente, em nome do Povo Angolano, perante a África e o Mundo a Independência Nacional, nascia um novo país e sagrava-se a esperança de todo um Povo – Infelizmente, ainda hoje os dois maiores partidos – MPLA e UNITA -  acusam-se mutuamente e não se entendem, lá muito bem. 

“Um dia de muita alegria para muita gente e para mim um dia tão triste!”  - Desabafava  eu para um pequeno gravador, o meu diário de bordo,  dia em que minha mãe, nascida em 11-11-1915,  completaria 62 anos, mas faleceria em 08-09-1967


Baú onde pude preservar as memórias que me restam

Sim, pude testemunhar esse ambiente de entusiasmo e de grande esperança, algures no Golfo da Guiné, depois da meia noite e  por algumas horas  ao correr da  madrugada, ao sabor do vento e das correntes, perdido a bordo de uma frágil piroga; através de um pequeno transístor a pilhas, que pude preservar num simples contentor do lixo das constantes tempestades e das vagas que me flagelavam, além de um pequeno gravador onde fazia o registo do diário de bordo e da máquina fotográfica. Tenho ainda comigo esse registo histórico, bem como, de resto, as seis cassetes de todo o diário, das quais me venho servindo para  o transcrever

rAlgures no Golfo da Guiné, 11 de Novembro de 1975



Um dos tubarões pescado

Diário de Bordo 1 - Já é manhã do 22º dia. Passei uma noite normal. Estive muitas vezes acordado. Não dormi assim muito mas não choveu. Estive a ouvir a rádio até altas horas, até quase de manhã, sobre a reportagem da independência de Angola. Portanto, hoje é dia 11 em terra.

Amanheceu uma manhã bastante agradável: o mar não está assim muito agitado e o céu não muito encoberto. Apenas umas nuvens de onde em onde.

Meus pais, que nunca os esqueci e cedo me deixaram
Eu disse, ontem, que, quando não se possuía uma boa vela, um perfeito domínio da embarcação, era preferível deixá-la à deriva. De facto, cheguei a essa conclusão, mas, atendendo a que devo estar muito próximo de terra e porque as correntes já não devem ter grande força, talvez valha a pena pôr à prova os modestos recursos que disponho.

Não podia deixar de me referir à companhia dos meus fiéis tubarões...continuam!...Isso é infalível!... A dar aqui as suas voltinhas, a fazer a sua escolta à canoa.

SENTIA-ME ARREDADO DE TUDO - O MEU CALENDÁRIO NO MAR ERA DIFERENTE DOS DIAS QUE CORRIAM EM TERRA

Diário de Bordo 2 - São mais ou menos oito horas da manhã do 22º dia, ou seja dia 11 em terra. Realmente experimentei a vela. Andei cerca de uma hora e tal, mas praticamente já não havia vento. Há uma calmaria muito grande. Tudo leva a crer que haja trovoada lá para o fim da manhã ou princípio da tarde. Oxalá que sim; uma trovoadazita até faz bem para acelerar o andamento da canoa, se não nunca mais saio daqui!... O problema é este: só há vento quando há trovoadas. O pior é que nessas circunstâncias é difícil navegar, porque há que ter toda atenção na segurança da canoa. Portanto, neste momento, limito-me a aguentar os balanços da canoa e o calor, que está já a fazer sentir-se, até que venha um bocado de vento, que, com certeza, virá acompanhado de alguma trovoada, que está já a formar-se ali para leste. Aguardemos.

Diário de Bordo 3 - Quanto ao meu estado de saúde, doem-me bastante as costas, o pescoço, tenho inúmeras borbulhas nos braços e nas pernas e a vista muita cansada de olhar para o horizonte e também dos reflexos do sol. De resto ainda não sinto qualquer perturbação: mas tenho aqui medicina, uns comprimidos e algumas vitaminas. Enfim, espero que não surja qualquer complicação no meu estado de saúde.

Estou ouvindo rádio, que uma vezes constitui realmente o meu passatempo favorito, outras, enfim, é o silêncio, a solidão única coisa que me agrada.

AO FIM DA MANHÃ, CONFIRMAVAM-SE OS MEUS RECEIOS - Surge a tempestade: o que eram sinais de velada ameaça, subitamente, transformam-se num afrontoso pesadelo - O mar!... O mar!... Quando se enfurece, o mar é sempre igual em qualquer parte.




Diário de Bordo 4- Neste momento estou a enfrentar violenta tempestade! Tive que lançar a âncora flutuante. A canoa correu sérios riscos!...Nunca estive em tantas dificuldades como agora!… mesmo assim o tempo acalmou ligeiramente, mas ainda continua a tempestade a sentir-se e arrastar-me agora de este para oeste!… Está a retardar novamente a minha viagem!... Devem ser aí umas 11 horas da manhã!…Estava uma manhã estupenda e, de um momento para o outro, apareceu esta tempestade que ameaça a todo o instante virar a minha canoa.

Diário de Bordo 5 -O mau tempo continua a fazer sentir-se!... Não sei qual o destino onde vou ter!… É difícil neste momento fazer qualquer prognóstico… É um tornado dos maiores que tenho enfrentado...E o pior foi encontrar a minha canoa na posição pior de segurança, porque, a canoa, tem uma posição em que pode enfrentar mais ou menos as tempestades...Tive que lançar a âncora e um bidão de plástico que força com que a canoa fique ligeiramente de proa à vaga…De qualquer modo, a situação continua melindrosa!... Agora não chove mas está a fazer uma grande ventania e o mar está muito cavado!... Estou a ser arrastado para Sul, portanto, estou a ser retardado!... As perspetivas de chegar a terra, estão a ser cada vez mais morosas. É realmente uma situação verdadeiramente dramática!... A canoa esteve há pouco à beira de se virar!... Só por muita sorte, só por milagre não se virou!...

NESTES MARES, EM QUE OS DIAS SE REPARTEM POR IGUAL COM AS NOITES, TUDO É SÚBITO E INESPERADO: Uma simples nuvem no horizonte num claro céu azul e limpo, tanto pode significar o princípio de uma tempestade, como de uma podre calmaria  - Agora, as alterações climáticas estão profundamente alteradas, em todo o planeta; não sei se, naqueles mares, para pior ou melhor - Mas há 44 anos, eu vivia ali um longo e tormentoso drama  Ao sabor dos ventos e das correntes e balanceado para todos os quadrantes. 

Diário de Bordo 6 - Sinceramente, o tornado já passou... Está agora a notar-se a ressaca... Estou bastante afastado da Ilha de Fernando Pó, muito afastado!...Estou convencido que não vou ter a oportunidade que já tive...Neste momento, não sei qual a minha posição; estou bastante para Sul!... Não sei se voltarei a ter a oportunidade que já tive!... Afinal o que me interessa é terra e eu parece que estou a brincar com o meu destino!... Não pode ser!... Estou francamente perturbado neste momento!... Vou ver se consigo conservar o máximo de calma!... Mas já estou saturado... Estou cansado... Estou com fome!… Estou longe de terra! Agora estou muito mais longe do que já estive!

Mais afastado de terra e fatigado.  Não estou desiludido ou desesperançado. Pelo contrário, sinto-me mais forte e mais habilitado. O mar já não é aquele lençol líquido rebelde e ondulante, a sua fisionomia está moribunda  e não demorará a quedar-se numa ténue e plácida superfície.


Minha Mãe nasceu em 11 de Nov 1915, dia , de S. Martinho - Mas partiu aos 52 para a eternidade - Minha irmã, deixaria as duas duas filhas, ainda crianças, ao 38 anos - O meu irmão, José, aos 48, deixando também um filho e uma filha, ainda menores.
Estava em S. Tomé, era militar para onde embarcara a bordo do paquete Uíge para concluir um estágio da Escola Agrícola de Santo Tirso, na Roça Uba-Budo,mas onde não encontraria o mínimo de condições, devido à rudeza e à prepotência colonial com que ali me confrontei.
Tinha então 18 anos, era jovem e alimentava um mundo de sonhos mas o que fui ali conhecer, naqueles primeiros anos, na beleza paradisíaca de uma Ilha equatorial, foram desilusões e humilhações, umas atrás das outras – Só 12 anos mais tarde voltaria à minha aldeia mas já não ia encontrar a minha mãe viva, que falecera, ao fim de um penoso calvário de doença prolongada, quando eu prestava serviço militar nesta antiga colónia portuguesa.
Estava em S. Tomé, era militar  para onde embarcara  a bordo do paquete Uíge para concluir um estágio da Escola Agrícola de Santo Tirso, na Roça Uba-Budo, mas onde não encontraria o mínimo de condições, devido à rudeza  e  à prepotência colonial com que ali me confrontei.

Tinha  então 18 anos, era jovem e alimentava um mundo de sonhos mas o que fui ali conhecer, naqueles primeiros anos, na beleza paradisíaca de uma Ilha equatorial, foram desilusões e humilhações, umas atrás das outras   – Só 12 anos mais tarde voltaria à minha aldeia mas já não ia encontrar a minha mãe viva, que falecera, ao fim de um penoso calvário de doença prolongada,  quando eu prestava serviço militar nesta antiga colónia portuguesa.

  Cumpria então parte do serviço militar - visto a recruta tê-la ido fazer a Angola;  seis meses no curso de sargentos milicianos, na ex-Nova Lisboa e, depois, mais seis meses no curso dos  Comandos, em Luanda.


 Sabendo da gravidade da doença que então minha mãe padecia, fiz todos os esforços, junto a instituição militar para a poder visitar mas não fui autorizado: pois a mentalidade da tropa colonial não se compadecia com sentimentos pessoais - Deixara a minha aldeia aos 18 anos e nunca mais a voltaria a ver.

Dizia-me ela no momento da despedia, em que me dava o último beijo: adeus meu filho, que já não te volto a ver - E, de facto,  não se enganou, tal como a  premonição, que eu tive,  no dia da sua morte, antes mesmo de receber o telegrama a dar-me a triste notícia