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domingo, 23 de outubro de 2016

Tributo ao Jornalista Mário Lindolfo (11 Dez 1941 -21 de Outubro 2014) ” “Eu não acredito no Inferno, nem no purgatório, nessas coisas…. Mas também tenho alguma dificuldade em admitir a morte” – “E, nos extraterrestres, o que pensa do assunto?... Eu penso que eles existem!... E, já que existem, bom seria que nos contatassem” – Entrevistei-o nos anos 80, sobre a morte, ovnis e a sua profissão, num casual encontro na feira do livro de lisboa, que recordo em vídeo

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - A entrevista - separada em dois pequenos blocos, com alguns sons  - pode se lida ou ouvida no video aqui editado

“O Mário Lindolfo, grande intérprete do tumulto da vida, deixou-nos com o “Bairro Negro”, ontem, aos 72 anos.” 22 de Outubro, 2014 –   Era assim que começava uma das noticias sobre a sua morte. http://www.esquerda.net/opiniao/na-despedida-do-mario-lindolfo/34560

Era jornalista, e um grande jornalista dos jornais e da televisão – Nasceu em Lisboa em 11 de Dezembro de 1941 e faleceu em 21 de Outubro de 2014.- Trinta anos antes de sua morte, ainda sem completar os 40, fiz-lhe a breve entrevista, tendo como tema a morte e  que aqui reproduzo num vídeo, com o som de  uma das cassetes, do meu arquivo das  várias entrevistas e reportagens que fiz para a RDP-Rádio Comercial  - Nomeadamente para o programa Hora Ora!, de Luís Pereira de Sousa; Café Concerto de Maria José Mauperein, num dos programas de Matos Maia, em vários de Rui Castelar e na 24ª Hora, além da própria redaçao.

Escrevia então o Expresso: Mário Lindolfo, jornalista de coisas sérias e de outras bem humoradas, argumentista e, sobretudo, grande repórter, morreu. Tinha 72 anos.
Costumava dizer, brincando, que era "o melhor jornalista português vivo". E foi um grande repórter e um muito bem-humorado jornalista e argumentista. Mário Lindolfo, morreu esta terça-feira, no Hospital de Torres Vedras, aos 72 anos.

Nascido em Lisboa, no dia 11 de dezembro de 1941, Mário Lindolfo Ramos Ferreira, que foi diretor-adjunto do semanário satírico "O Inimigo", trabalhou no "Diário de Lourenço Marques", no "Diário de Lisboa", no "Sempre Fixe", na revista "Notícia", no "Expresso no "Pasquim", no "Portugal Hoje" e na RTP, entre outros órgãos de comunicação. http://expresso.sapo.pt/sociedade/morreu-o-jornalista-mario-lindolfo=f894647

Alexandre Pais – “Depois da morte de Fernando Sousa voltei a ser surpreendido com a quase anónima partida, aos 72 anos, de um dos maiores jornalistas com quem tive o privilégio de trabalhar: Mário Lindolfo (foto). Fomos companheiros no Portugal Hoje, no início da década de 80, e continuámos depois a encontrar-nos, regularmente, no Bairro Alto – ele já na direcção do jornal satírico O Fiel Inimigo, para matarmos um vício comum: o do snooker. Ainda estivemos juntos no projeto embrionário de um semanário ligado a temas de crime, polícias e tribunais, mas o Bang-Bang, assim se chamaria, não passou no teste seguinte, que era o de encontrar quem o pagasse. Mário Lindolfo: partiu outro dos maiores « Quinta do Careca





"Tenho alguma dificuldade em admitir a morte”

Comecei por lhe fazer esta pergunta: Acredita na existência da vida para além da morte?... E no que se diz do Inferno, do Purgatório, do céu?.. Acredita na existência da vida para além da morte?
ML – Não. Não acredito. Eu não acredito no Inferno, nem no purgatório, nessas coisas…. Mas também tenho alguma dificuldade em admitir a morte” -

No fundo, eu não acredito mas não sei muito bem o que se vai passar depois...
JTM – São questões que o preocupam?..
ML – Preocupam-me porque eu estou a dobrar o cabo dos 40: é um caso extremamente difícil…E, claro, que estou preocupado.

JTM – É uma interrogação, que, portanto, de vez em quando se lhe coloca ao espírito: mas de modo assustador ou apenas como uma das muitas interrogações, que, no dia a dia, se vão pondo?
ML – É mais uma interrogação: não é tão assustador como isso, porque não passo o tempo a pensar nisso…. Mas, uma vez por outra, lá me vou lembrando, não é… Há uns colegas, que estão a morrer…. E não apenas colegas, amigos… E, nesta profissão, como você sabe, o enfarte de miocárdio e o aperto mitral e coisas assim, acontecem muito!...

JTM – E, nos ditos extraterrestres: o que é que pensa do assunto?

ML . Não sei… Eu penso que eles existem!... E, já que existem, bom seria que nos contatassem rapidamente!... Eu, pelo menos, gostava que isso acontecesse no meu tempo!... Gostava que eles aparecessem  e que conversassem connosco e que se arranjasse alguma maneira para contatar com eles, porque é quase uma cretinice que não haja vida noutros planetas!...
JTM – Admite essa hipótese, portanto?
ML – Claro que sim.
JTM  Se tivesse a possibilidade de o contatarem, que pergunta é que lhe faria?
ML – Estou assim um bocado embaraçado, porque, de facto… Preferia que isso surgisse numa altura em que eu não estivesse de serviço!... E, porquê?... Eu acho que ficava bloqueado!..
.
JTM – No que se percebe  através dos livros e dos jornais, no que se vê nos filmes e na televisão, que impressão é que lhe deixa isso?... Acha que isso é mera ficção ou que traz algo de concreto ou é mera especulação?
ML -  Eu não lhe chamaria especulação… tem a ver com a pessoa que fez o filme!... SE você fosse chamado a faze um filme de extraterrestres, se calhar eles não seriam verdes, talvez fossem amarelos ou azuis!... Sim, depende da imaginação de quem cria a história.

JTM – Como é que os imaginaria? … Admite-os como seres parecidos a nós?... Com que estrutura ou fisionomia, digamos assim?
ML  - Eu tenho dificuldade de imaginá-los diferentes  de nós!... Eu acho que eles têm mesmo de ter nariz! Dois olhos!. Duas pernas!... Dois braços!...

JTM – Quais foram os aspectos que mais o impressionaram, até agora?...

ML – Na minha profissão?... No meu país?...
ML – Dentro da sua profissão: o que é que gostou mais de fazer, até hoje?...
ML – Obviamente, reportagem.
JTM – Pode apontar um caso, uma reportagem que lhe tenha dado muito gosto em fazer?
ML – Olhe, deu-me um gozo imenso fazer com o Joaquim Furtado e com a Eduarda Pimenta a reportagem no hospital de Santa Maria, quando o Carlos Antunes, estava em greve de fome!... Deu-nos muito gozo… Embora tenhamos sido alvo de processos, colocados pela televisão mas deu-nos muito gozo fazer isso.

JTM – Vim surpreendê-lo em pleno exercício da profissão?
Ml – Veio… Eu estou a tentar fazer uma pequena reportagem para o Pasquim, que é um semanário que não existia!... Era tempo de o inventar, como diz o poeta… Vou a  fazer uma reportagem sobre a  feira do livro
JTM – Assim… aqui…tão discretamente, olhando para as pessoas… Isso é trabalhar também  ou apenas a passar por alguns momentos de distração?...
ML – É trabalhar!... É trabalhar… Eu, devo dizer-lhe que andei por aí a ver quais eram os livros do dia!... E tomei as minhas notas… Não sei se vou tão longe, como queria… Como um colega, que afirmava que na feira do livro só se vendiam monos!... Mas, de facto, há imensos monos a ser vendidos!... Isto é muito engraçado.

JTM – Ainda em relação à profissão… É jornalista, já mo disse!... Ser-se jornalista requer-se qualidades!... Que qualidades é que aponta para se ser um bom jornalista?

ML – Eu não acho nada que se nasça jornalista… porque, as pessoas quando nascem é tontas!... É preciso dedicação… E, sobretudo, de gostar de fazer jornalismo!... De gostar deste trabalho!...Mas era preciso outra coisa: era preciso que os jornalistas que não exercem esta profissão em part-time! … Exercem por inteiro e em regime de exclusividade, no seu jornal ou no seu órgão de comunicação social!... Infelizmente o que  se está passar, como você sabe, pois também é jornalista, que as pessoas para terem uma terem uma renumeração compensatória têm que se distribuir pelos jornais todos!...

JTM – Nunca pensou mudar de profissão?... Nunca se arrependeu?...
ML – Não. Nunca me arrependi!... Gosto imenso desta profissão!... Isto dá um gozo imenso!... E acaba por ser compensador!... Se não em termos materiais, pelo menos é uma profissão muito boa de fazermos um trabalho, que achamos que está bem feito, e, que, de alguma maneira, foi útil para a comunidade.
JTM – Fazer jornalismo na televisão e num jornal é completamente diferente?
ML – É diferente... É totalmente diferente!... Você sabe, que, na televisão, nós trabalhamos mais com a imagem!... Nos jornais, temos muito mais espaço.

JTM – Em qual dos campos sente mais prazer ou as coisas completam-se?
ML – Eu gosto de trabalhar na televisão!... E muito mais se as condições fossem outras!... Eu não me refiro a outra dificuldade  que não seja esta: é que, enquanto, num jornal, +e muito mais independente, porque  depende da sua dique e do bloco de notas… Como sabe,  na televisão, você depende  do trabalho de toda uma equipa!
JLM – E condiciona?
Ml – Claro que condiciona!...Porque não é apenas o meu trabalho que é importante, é também  o da cameramen, do homem do som, por exemplo…

EXPRESSO  (..)21/10/2014  “Foi prémio Gazeta de Jornalismo de Televisão, em 1985, pela coautoria com Carlos Narciso da primeira reportagem na televisão pública sobre o racismo em Portugal. Intitulada "Bairro Negro", a reportagem foi um trabalho na Pedreira dos Húngaros.
"Ainda hoje gostamos de dizer que não somos racistas, mas é mentira. A verdade é que em 1984 poucos africanos tinham hipótese de sair dos bairros da lata e, hoje, não sei se vivem muito melhor...", escreveu em 2006 Carlos Narciso.
"Viagem no tempo, à Procura do Socialismo" foi um dos seus trabalhos também de grande destaque, concretizado em 1993. Um documentário feito a meias com o jornalista Alípio Freitas sobre o período pós 25 de abril, focando o movimento operário e as ideias socialistas em Portugal, dos finais do século XIX aos anos do PREC (1974/75).
Outra sua coautoria, desta feita com o ator Júlio César, passou quase despercebida mas marcou a teledramaturgia portuguesa. A série "O Cacilheiro do Amor", com "um registo de humor pouco frequente, beirando o 'nonsense'", foi para o ar na RTP, em 1990. "Gala dos Bigodes de Ouro" (1991) e "Há Lobos na Aldeia" (1990) são outras duas suas realizações.
Mário Lindolfo tinha perdido a mulher, Ângela Caires, também ela jornalista, no ano passado. 


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Sporting 1- 2 Borussia de Dortmund – Leões fora da Liga dos Campeões - Garra leonina sem voo de asa







Sporting com garra leonina mas sem unhas afiadas – Perde por 2-1 com os alemães de Borussia Dortmund e compromete a passagem à fase seguinte da Liga milionária dos Campeões europeus – Mais cambalhota de que domínio de bola em jogo da terceira jornada do grupo F da prova.

Na segunda parte, mesmo já com dois sofridos, ainda tentou estrebuchar mas faltou-lhe um pouco de sorte e arbitragem mais justa. Os golos foram de Pierre-Emerick Aubameyang, aos nove minutos, e de Julian Weigl, aos 43 e um genial golo de  Bruno César, aos 67.





segunda-feira, 17 de outubro de 2016

“A morte não me assusta mas tenho pena de morrer” –- Tributo ao barítono José de Oliveira Lopes - considerado o melhor intérprete de ‘lieder’ no XIX Concurso Internacional de Canto da Baviera, na Alemanha, no início da carreira, altura em que frequentou a escola de altos estudos de música de Munique – Deixou-nos em Abril de 2013.

Castelo Melhor - V. N. de Foz Côa - Ermida de S. Gabriel 

O barítono José de Oliveira Lopes, foi uma das vozes líricas mais relevantes dos cantores portugueses da segunda metade do século XX, dentro e fora de Portugal. – Faleceu  no dia 11 de Abril de 2013, aos 71 anos, na cidade do Porto, onde era natural – Cerca de três décadas atrás, fiz-lhe  lhe uma breve entrevista, que aqui vou reproduzir em sua memória, acerca da morte.

O que pensa da morte? - “A morte não me assusta mas tenho pena de morrer” – Acrescentando que gostaria de viver  além do ano 2000 e, se possível muito mais além, desde que não ficasse velho e caquético: afinal, nem sequer morreu velho.
Deu-me esta  resposta, em pleno auge da sua carreira artística, em meados da década de 80, no final de um pequeno concerto improvisado que  decorrera no famoso Botequim  de Natália Correia  – Numa das minhas incursões ao vasto arquivo das minhas memórias de repórter da Rádio Comercial, sou surpreendido com esse curioso apontamento.

Disse-me que cantou muitos temas sobre a morte, especialmente de autores alemães mas quando lhe perguntei se lhe agradava cantar a morte, respondeu-me: eu prefiro cantar a vida; gosto de cantar coisas alegres. Porém,, no dia em que lhe fazia esta pergunta, acerca de um inquérito radiofónico, que estava a realizar, sobre a morte e também  do então apregoado fim do mundo que certas profecias  profetizavam para o ano 2000, ele havia justamente acabado de cantar  um tema de opera sobre a menina e a morte de um compositor alemão

Por isso, tratando-se, de tão relevante talento artístico, decidi editar como singelo tributo à sua memória o então imprevisto apontamento, que ilustro com algumas imagens de Lisboa, Aveiro  e Porto, as cidades portuguesas, que, em Portugal, mais terão feito parte do roteiro da sua vida  artística e académica

ALGUNS EXCERTOS DO QUE ENTÃO SE ESCREVEU NA  ALTURA DA SUA MORTE
“José de Oliveira Lopes, barítono português e primeiro professor de canto da Universidade de Aveiro. Oliveira Lopes foi um dos barítonos mais importantes da sua geração, com uma longa e ilustre carreira nacional e internacional. Foi solista convidado de prestigiadas orquestras e festivais em Portugal, França, Espanha, Bélgica, Polónia, Japão, EUA, Brasil, China, Rússia. Era particularmente reconhecido como exímio intérprete de Lied e Oratória, mas também dominava vários papéis de ópera, que apresentou em Portugal e no estrangeiro”
Panorâmica do Monte de S. Gabriel sobre o Vale do Côa - O Vale Sagrado













“EXPRESSO - "Considerado, por unanimidade do júri, como o melhor intérprete de Lieder no XIX Concurso internacional de Canto da Baviera, na Alemanha. O corpo do baixo português, que faleceu ontem aos 71 anos no Hospital de São João, foi hoje cremado no Porto.

Com mais de 1500 atuações como solista, em concertos, óperas e recitais por todo o mundo, atuou durante mais de 20 anos nas temporadas musicais do Teatro São Carlos e Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo contracenado com míticos cantores como Franco Corelli, Zylis-Gara, Kraus, Elly Amelling, Vanzo, Cotrubas, Bergonzi, Giacomini.


Representou em palco cerca de 40 personagens de ópera, com destaque para Don Alfonso (Così fan tutte), Conde de Almaviva (Le nozze de Fígaro), Albert (Werther), Sharpless (Madama Butterfly), Scarpia (Tosca), Bártolo ( Il Barbiere di Siviglia), orpheo (Orpheo ed Euridice), Mago Tcelio (Lámour dês trois Oranges), entre outras.
Foi figura principal em óperas portuguesas como Arsénio (Spinalba), Rei (Variedade de Proteu) e Prisioneiro (Em Nome da Paz).
Teve, ainda, uma breve passagem pelo cinema, como ator e cantor, desempenhando papéis, por exemplo, como o de apresentador no filme-ópera "Os Canibais" de Manoel de Oliveira e João Pães. Interpretou também as partes cantadas de Frohlo e Arcebispo na versão portuguesa do filme "O Corcunda de Notre Dame", das produções Disney.

José de Oliveira Lopes foi professor na Universidade de Aveiro, Academia Superior Metropolitana,  Escola Superior de Música do Porto e no Conservatório Nacional em Lisboa,  e era frequentemente convidado para masterclasses na Europa, Brasil, China, Japão, Rússia e USA. Integrava ainda, regularmente, júris de concursos internacionais de canto.
Foi solista de grandes orquestras como as sinfónicas de São Paulo e do Rio de Janeiro (Brasil), Denver (USA), Filarmónicas de Pequim, Moscovo, Bogotá e Varsóvia, entre outras, sob a direção de maestros consagrados como Eliot Gardiner, Maurice Gendron, Philipe Entremont e Dimitri Kitaenko.
Tem vários álbuns gravados com os pianistas Takashi Yamasaki, Noël Lee, Filipe de Sousa, Adriano Jordão e com as Orquestras Gulbenkian, da Rádio Húngara, da RDP e com a Sinfónica de Budapeste.
Em 2001, publicou "A voz, a fala e o canto",  sobre quatro décadas de prática musical e de pesquisa de técnica vocal. Expresso | Morreu José de Oliveira Lopes

domingo, 16 de outubro de 2016

Peregrinando por calçadas romanas de outrora em demanda do silêncio e do recolhimento de antigos e já ermos lugares


Por vezes ao caminhar pelos antigos caminhos que moldaram meus passos
Ou chegado a lugares onde as antigas casas são agora meros fantasmas,
Também eu mesmo me sinto desdobrar em vaga e etérea imagem espetral
Como se o mundo por onde caminho apenas fosse mero trampolim espiritual



Diálogo com Jorge de Mello, em 1986, ainda longe de 2013, ano da sua morte mas perto das memórias do exilio no Brasil e da destruição do império CUF, 12% do PNB, o maior grupo económico da Península Ibérica e um dos cinco maiores da Europa – “O 25 de Abril existiu, não o desejei mas previ-o” “Não, não esqueço as injustiças cometidas… Mas procuro que isso não domine a minha vida agora,”. “O nosso grupo, julgo que existia 60 anos antes do regime anterior….

Memórias da RDP-Rádio Comercial – programa Hora Ora!  - Realização e apresentação de Luís Pereira de Sousa – Repórter, Jorge Trabulo Marques –        C     Registo sonoro de 1986 neste post

Entrevista a Jorge de Mello, aos 65 anos, em 1986, ainda longe de atingir os 92 da sua morte, em 2013, mas ainda quase sobre o regresso da sua estadia forçada no Brasil e com a memória ainda bem presente – se bem que despida de ressentimentos e de azedumes – da revolução do 25 de Abril de 1975, que ele previra (Sim, o 25 de Abril existiu, não o desejei mas previ-o),o qual ditaria a nacionalização (destruição) das empresas do  império  CUF,  que chegou a aglutinar cerca de 180 empresas no seu auge, a empregar perto de 110 mil pessoas e a constituir 12% do PIB, sendo considerado  o maior grupo económico da Península Ibérica e um dos cinco maiores da Europa. 



Além do vídeo  - Poderá ler a transcrição integral da entrevista mais  à frente neste post

Mesmo assim, no seu diálogo afável, profundamente humano, de pessoa delicada, inteligente e sensível, franco sem ser expansivo nem ressentido – Se bem que tendo bastas razões para as tropelias que lhe fizeram:  com os excessos revolucionários, Jorge de Mello é preso no edifício da CUF na Infante Santo, em Lisboa. Esteve dez dias na prisão de Caxias, ao lado de uma cela ocupada pela família Espírito Santo, após o que teve que se se refugiar no outro lado do atlântico, 

EXCERTOS ...  JTM  -. Depois houve as nacionalizações e Jorge de Mello teve que partir para o Brasil: - Como é que viu essa partida, como é que encarou esse período?

1919 - Atentado a Alfredo da  Silva 
JM – Bom, foi um período difícil!... Principalmente no Brasil e sempre com a incógnita  de poder ou não regressar ao meu país!... Felizmente, passados uns anos, pude regressar… Embora… tive que refazer a vida, enfim, já  com uma idade que estava mais própria da idade da reforma de que da idade de recomeçar

“Não, não esqueço as injustiças cometidas… Mas procuro que isso não me domine a minha vida agora, porque senão era impossível trabalhar!... Tantas coisas que sucederam na minha vida… Se vivesse traumatizado com esses factos, então era incapaz de trabalhar e de ler e de estudar!...” –

(…) JTM – Está interessado em voltar-se para a África?
JM –  Para a África, para a antiga África portuguesa, pessoalmente não
JTM – Posso saber, porquê?
JM - Os países de expressão portuguesa, o antigo ultramar português, como sabe muito bem, sofre uma instabilidade tremenda!... Há muitas indefinições!... Eu não vejo um empresário a trabalhar sem saber quais são os parâmetros sobre os quais se pode mover… Tem que haver uma certa segurança!... 

(…) JTM – Jorge de Melo: como é o seu dia a dia?... É um homem que se deita cedo, que se levanta cedo?!...
JM – Deito-me cedo e levanto-me cedo, sempre o fiz em toda a minha vida… Levanto-me cedo, faço um pouco de desportos, apesar de já ter 65 anos… E depois vou ao trabalho e volto para casa e deito-me cedo… Não é uma vida muito excitante… mas, enfim…

(…)JTM – Não é um homem que esteja  interessado em ligar-se aí à vida oficial, aos coquetéis? … Vive arredado disso?... Desse ambiente!
JM – Eu nunca gostei disso. Nunca gostei muito da vida social… Gosto de jantar com meia dúzia de amigos… De estar com pessoas amigas e tal … Os ambientes da vida social, nunca me atraíram muito.

(…) JTM -  começou muito novo na atividade empresarial?
JM – Há,  sim… Comecei com 23 anos…eu quando era miúdo o que eu gostaria de ser era médico!... Mas o destino proporcionou outro caminho… E, portanto, eu nunca gostei de discutir aquilo que podia ser e não  ou… É passado, é passado!... Passou!....

Alfredo da Silva
(…) JTM – Sr. Dr. considera que o vosso grupo era privilegiado no regime anterior?
JM – O nosso grupo, julgo que existia  60 anos antes do regime anterior…. Nunca fomos privilegiados, e que eu saiba, nunca o regime anterior  privilegiou ninguém… Não posso… não posso pronunciar-me!...  Lutámos e trabalhámos, que é uma coisa que nem toda a gente faz!...  Trabalhámos muito!!...

São quase 30 minutos mas não deixe de ouvir o testemunho de um dos mais esclarecidos, visionários  empreendedores empresários portugueses: o último grande líder da enclítica  geração deixada pelo fundador da CUF,   Alfredo da Silva, enquanto o grupo não foi nacionalizado e desmembrado



BIOGRAFIA – “De seu nome completo Jorge Augusto Caetano da Silva José de Mello, nasceu em Sintra em 1921 no seio de uma família aristocrática com elevado peso no tecido produtivo da nação.  Desde cedo lhe fizeram compreender a importância de ser um Mello e de ter por avô Alfredo da Silva. Vivendo uma infância repartida entre Sintra e Estoril, Jorge de Mello fez os primeiros estudos na Escola Primaria de Cascais, ingressando depois no Colégio Infante de Sagres. No seu livro de memórias Jorge de Mello refere que:

"nunca senti nenhum privilégio especial, nem os meus pais alguma vez alimentaram essa ideia, quer comigo, quer com as minhas irmãs e o meu irmão. Ia para a escola a pé. Quando chovia, lembrava-me que havia automóveis na garagem, que estavam parados mas nunca tive a ousadia de falar nisso à minha mãe. É verdade que tinha gabardina e os meus colegas de escola, que apanhavam a mesma chuva, talvez não tivessem sapatos com solas tao grossas como os meus. Mas essa diferença não era sentida por mim, não era importante não me sentia diferente deles."

Efetuou depois os estudos superiores (muito a contra gosto) no Instituto Superior Técnico (ali se manteve ate ao 2 ano do Curso, tendo interrompido o mesmo para cumprir o serviço militar  entre 1942 e 1945) onde Jorge se deveria formar em Engenharia Química, como era vontade expressa do seu avô. Porém Jorge sempre manifestou grande interesse pelo universo da gestão económica, assim e apos a morte do seu avô decide inscrever-se no ISCEF, passando a ter uma vida bastante preenchida. Nestes primeiros anos, os estudos e as responsabilidades que lhe são atribuídas na CUF ocupam-lhe muito do seu tempo.

Jorge entra para a empresa em 1945, nunca época na qual a empresa estava a passar por grandes transformações e modernizações, que foram fulcrais para o crescimento e consolidação da CUF em novos sectores económicos do pós-guerra. É restruturado e fortalecido o seu quadro de pessoal técnico, aumentado o seu nivel cientifico, com o recrutamento gradual e selecionado de dezenas de engenheiros, economistas, médicos, e outros especialistas para o desenvolvimento ou criação de novos serviços.  É feita uma aposta muito significativa na área técnica e na área de investigação de forma a criar condições para se atingirem níveis de produtividade e eficiência paralelos aos observados em países estrangeiros mais desenvolvidos. Neste período é descoberto a seu pai (D. Manuel de Mello) a doença de Parkinson, o que leva Jorge e o seu irmão José a assumirem responsabilidades e cargos de cada vez maior importância nos destinos da companhia. – Excerto de  In Memoriam - Jorge de Mello 1921-2013 - O Grupo CUF

(….) O relançamento empresarial foi alavancado com financiamento bancário e com o produto da venda da casa onde nasceu, a Quinta da Riba Fria, e da Herdade do Peral, neste caso a Américo Amorim.
Jorge de Mello dedicou-se então aos negócios na área do azeite e dos óleos alimentares, onde detém uma das mais fortes marcas portuguesas, o azeite Oliveira da Serra. O grupo Nutrinveste, da família, tem negócios em cinco países[2]. – Excerto de Jorge de Mello 

TESTEMUNHO  (,,,) Tive oportunidade de verificar, ao longo dos anos, que o sr. Dr. Jorge de Mello era de facto assim: acentuadamente humano no contacto, sobretudo com os mais humildes, era escrupulosamente respeitador das hierarquias, mesmo em relação às que lhes estavam directamente subordinadas.
Quase no final da viagem pude confirmar que para além destas apreciáveis qualidades, uma outra as completava: o seu zelo pelos interesses das Empresas. Vale a pena referi-lo. Uns dias antes de chegar a S. Tomé, na rota para Luanda, o Sr. Dr. Jorge de Mello tinha programado naquela Ilha uma visita à Roça Água lze, também propriedade do Grupo CUF, e pela qual nutria particular interesse. Convidara para essa visita vários dos seus acompanhantes e notava-se o seu entusiasmo à medida que o navio se ia aproximando. Tudo parecia decidido e seria natural que assim viesse a acontecer. Testemunho sobre Jorge de Mello - PÚBLICO




ENTREVISTA A JORGE DE MELLO -  "O 25 de Abril, não o desejei mas previ-o".

JTM – Jorge de Melo, neste momento, que empresas é que tem a seu cargo?
JM –Limito-me a orientar e a tomar as grandes decisões: cada uma dessas empresas – são umas quatro ou cinco -  têm o seu conselho de administração, têm, portanto, os seus executivos. E eu tenho aqui uma pequena equipa, que me ajuda no controle  dessas empresas, na definição, enfim, das linha a seguir, portanto, eu não dirijo empresa nenhuma; não tenho qualquer cargo e empresa nenhuma; sou acionista!... Por caso, o maior…

 – Uma pequena parcela do que teve, há uns anos atrás…
JM – Sim, mas esse facto passou: o 25 de Abril existiu. Não o desejei mas previ-o.
JTM – Previ-o? Previu isso!..
JM – Ah, sim, com certeza… E culpe mais os meus antigos colegas empresários de que outras entidades…
JTM – Chegou aperceber-se que essa situação, vinha acontecer?  
JM – Ah, sim, com certeza!... Era inevitável…Ou por outra, era inevitável não reagindo os empresários; não reagiram, não quiseram aperceber-se de algumas transformações que tinham a fazer… Mas eu falo, como empresário, não como político.
Não há dúvida, que, a determinada altura, o meu grupo, que era um grupo dinâmico, encontra-se completamente sozinho!... Que é um perigo político enorme!...Eu compreendo, perfeitamente… Portanto, foi logo um alvo.

"Era regime bastante razoável para as realidades portuguesas. Basta ver o que era o país, naquela altura e o que é hoje"

JTM  - Chegou a ter choques, com o regime anterior?... Há quem diga que, o Jorge de Melo, era uma pessoa bem vista pelo regime anterior, é verdade que teve alguns choques, digamos assim?...
JM – Choques, tive…  Mas, sabe, eu nunca digo aquilo que não era verdade… Não fui nem sou adversário… Acho que era   um regime bastante razoável para as realidades portuguesas. Basta ver o que era o país, naquela altura e o que é hoje… Mas, eu não culpo o governo e os governos… Os empresários tiveram muita culpa!...
JTM – Em que aspetos?
JM - Um pais não se pode dar ao luxo de ter praticamente um único grupo económico! E põem a esse grupo económico, um drama: ou pára para não ficar sozinho e morre ou se desenvolve e fica sozinho!... E ser, praticamente, um dos quatro ou cinco grupos económicos, num país, é politicamente muito perigoso!....E haver um único grupo económico, num país, é realmente muito perigoso”

JTM Acha que a culpa era dos empresários ou do governo que protegia esses grupos económicos?
JM – O Governo de então não protegia grupos económicos nenhuns… A gente tem que ser justa… Eu não renego…  Mas é um regime que passou e temos de funcionar, hoje em dia com o que há….
De, facto, não ter surgido outros grupos, e se ter desenvolvido outros grupos, nunca me apercebi que o governo protegesse determinados grupos  (.. )Nunca me senti magoado por isso
JTM - Havia falta de garra de alguns empresários, de algum dinamismo?

JM  - Eu não gosto de acusar ninguém… Mas, de alguns sim; alguns poderiam ter feito mais… Houve um pais, que teve o ultramar, a Holanda… A Holanda não sofreu a crise que nós sofremos… Porque, a Holanda tinha grandes grupos económicos, tinha vários! Não era um! … E não aconteceu isso… E, portanto, os três ou quatro grupos económicos, que haviam, obviamente que, naquela confusão política, que se seguiu ao 25 de Abril, caíram as almas!

“o antigo ultramar português, como sabe muto bem, sofre uma instabilidade tremenda”

Roça Água Izé - CUF 

JTM – Como é que vê, atualmente,  as relações de Portugal com os novos países de expressão portuguesa?
JM – Não sei… Não conheço muito bem; eu não acredito que haja assim grandes relações… Mas, não sei; não conheço a fundo isso…
JTM – Está interessado em voltar-se para a África?
JM –  Para a África, para a antiga áfrica portuguesa, pessoalmente não
JTM – Posso saber, porquê?
JM – Não sei… É uma questão de maneira de ser…
JTM – Leva-me então a querer que pensa mais na Europa? E. nomeadamente – já que Portugal entrou na CEE – voltar-se para Portugal, integrado na CEE
JM – Para mim, é uma fatalidade que Portugal tem estar integrado na CEE… Não temos outro remédio… Os países de expressão portuguesa, o antigo ultramar português, como sabe muto bem, sofre uma instabilidade tremenda!... Há muitas indefinições!... Eu não vejo um empresário a trabalhar sem saber quais são os parâmetros sobre os quais se pode mover… Tem que haver uma certa segurança!... Que eu julgo que não há em África.
JTM – É então esta a razão que o não leva a investir em África?
JM – Eu não tenho capitais para investir: os títulos que investi são os tais títulos da vida pública, resultantes das expropriações… Os países africanos não os aceitam…

“Não é uma vida muito excitante… mas, enfim…”



JTM – Jorge de Melo: como é o seu dia a dia?... É um homem que se deita cedo, que se levanta cedo?!...
JM – Deito-me cedo e levanto-me cedo, sempre o fiz em toda a minha vida… Levanto-me cedo, faço um pouco de desportos, apesar de já ter 65 anos… E depois vou ao trabalho e volto para casa e deito-me cedo… Não é uma vida muito excitante… mas, enfim…
JTM – Há pouco, falava-me que praticava ginástica… Que praticava ténis... Faz isso regularmente?
JM – Faço isso todos os dias… é uma forma agradável de fazer ginástica.
JTM – Para além desse desporto, outro… Apenas o ténis?
JM  -  Sim, mas eu faço o ténis apenas por uma questão de saúde!.. Eu já não tenho idade para praticar o ténis a nível de competição.

JTM – Não é um homem que esteja  interessado em ligar-se aí à vida oficial, aos coquetéis? … Vive arredado disso?... Desse ambiente!
JM – Eu nunca gostei disso. Nunca gostei muito da vida social… Gosto de jantar com meia dúzia de amigos… De estar com pessoas amigas e tal … Os ambientes da vida social, nunca me atraíram muito.
JTM – Lê muito?.. Os seus passatempos preferidos, como são?
JM . – Bom, hoje em dia, há poucos passatempos para quem trabalha, não é!... Leio um bocadinho, leio um pouco!... Procuro, especialmente manter-me a par do que se passa… Sou profundamente alérgico àquilo a que se chama muitas vezes de meter o tacho na areia… Sou alérgico às pessoas que são inconscientes àquilo que se passa… Portanto, é preciso ler para estar…
JTM – É um homem bem informado.... Lê os jornais…
JM – Sim, procuro informar-me, porque, como é natural, não se pode trabalhar no vago!...

“Não, não esqueço as injustiças cometidas… Mas procuro que isso não domine a minha vida”

Só Ferrugem e Abandono - 2016 
JTM – Dizia-me que é um homem sentimental… Isto leva-me a outra pergunta: é um homem ressentido com o passado?.. Ou que, o passado, enfim, como tal, deve ser esquecido ou que ainda continua a doer?...
JM – Evidentemente, que, esquecido? … Não, não esqueço as injustiças cometidas… Mas procuro que isso não domine a minha vida agora, porque senão era impossível trabalhar!... Tantas coisas que sucederam na minha vida… Se vivesse traumatizado com esses factos, então era incapaz de trabalhar e de ler e de estudar!... Não…
JTM – É homem voltado essencialmente para o trabalho!
JM – Bom… Não tenho outro remédio!... Se preciso de reformar-me, não tenho remédio  senão trabalhar!...

JTM – Não pensa retirar-se da atividade … Em pensar – desculpe a expressão – enfim, naquela reforma que leva um homem a deixar de trabalhar e a fazer uma vida mais pacata, mais calma!...
JM – Mas a minha vida é pacata e calma!... Antes da revolução, até tinha programada a minha reforma… Não me recordo agora, se aos 60 anos – mas, enfim, as realidade alteraram  isso tudo.. Claro que tenho de me reformar-me, mais cedo ou mais tarde mas neste momento, não isso o  que mais me preocupa… Preocupa-me, que as empresas que tenho,  tenham o seu equilibro!... Que estejam bem programadas!... Enfim, estudar novas aplicações complementares aquilo que existe… Que nós temos aqui, a que nós chamamos, pomposamente, o Grupo!...  Mas não é Grupo nenhum, é uma coisinha pequena!

“Eu acho que se deve ser grande em determinado tipo de atividades”

CUF - Também fez história no Futebol
JTM – Mas a vida, começa pequena…. Acredita que ainda venha a tomar-se com dimensão?
JM – O meu grupo tem alguma dimensão…
JTM - Com dimensão grande!...
JM – Com dimensão grande é difícil … Eu acho que se deve ser grande em determinado tipo de atividades… Esta ideia, que se seguiu à revolução, de que só empresas pequenas e médias… é um absurdo, é um disparate!… Se há atividades que se coadunam  serem geridas por empresas pequenas ou médias, há outras que não!... O Sr. concebe alguma empresa de automóveis, pequena?... Morre, imediatamente! Está condenada à mote antes de nascer… A economia tem as suas leis… Não podemos exercer qualquer atividade com o complexo pseudopolíticos!... É impossível!... Não somos nós que alteramos as regras da economia… Portanto, ou queremos transformar este país em algo válido, economicamente, ou então, melhor, se misturamos a politica com a economia, não vamos a parte nenhuma!
JTM – Acha que, tendo a economia as suas leis próprias, ela tem que existir à margem da política, mas, por outro lado, a própria politica também tem que impor as suas leis à própria economia!
JM – Com certeza… Impõe as suas leis mas depois mantém-nas para o empresário saber em que pais vive!.. Alterar as políticas económicas constantemente é que não interessa ao país, nem interessa a ninguém, não é!...

“Eu quando era miúdo o que eu gostaria de ser era médico!... Mas o destino proporcionou outro caminho

JTM -  Logo após a sua licenciatura, praticamente, desde essa altura, começou a trabalhar na atividade empresarial…
JM – Já estava trabalhando antes  - e até tive que interromper o curso, por isso – e retornei mais tarde.
JTM – A pergunta que lhe quero colocar é esta: começou muito novo na atividade empresarial?
JM – Há,  sim… Comecei com 23 anos…
JTM – Portanto, foi sempre um homem ligado à vida empresarial: nunca pensou noutro trabalho, em ter outra profissão? Gostou sempre do seu trabalho?..
JM – Bom, eu quando era miúdo o que eu gostaria de ser era médico!... Mas o destino proporcionou outro caminho… E, portanto, eu nunca gostei de discutir aquilo que podia ser e não  ou… É passado, é passado!... Passou!....
Agora, uma coisa: o sr. há bocado falou-me em relação ao antigo regime… Há uma grande confusão… Os empresários, não apoiaram nem desapoiaram o antigo regime … E tínhamos que ver, com uma cosia que se tem hoje: viver em estreita ligação com o Governo, chamamos-lhes assim. Isso não significa nem apoio nem condenação, é um facto!... O Sr já pensou que  não se pode construir uma empresa, sem autorização!... Portanto, que envolve  falar, requerer, explicar porquê… Enfim, apresentar  determinados estudos, determinados projetos… Isso é apoio?!... É desapoio?!..  Não é nem uma coisa nem outra: isso é o indispensável!... Tal como o Sr. tem contactos com os seus colegas de trabalho…
Eu considerava, considero, que um governo, os empresários, os trabalhadores, no fundo faz parte de uma equipa que se chama o país!...  E têm que falar uns com os outros.

“Empresas públicas…salvo uma ou outra,  num estado de grande degradação!”

JTM – Qual a sua opinião das empresas que foram nacionalizadas e que pertencem ao vosso grupo?
JM – Bom,  é muito fácil!...  É ver os balanços no fim do ano dessas empresas e comparar com era antigamente!...  E ver qual é o passivo acumulado dessas empresas, quando antigamente acumulavam ativos!... Eu julgo que os factos demonstraram  que  essas empresas hoje devem estar quase todas,  salvo uma ou outra,  num estado de grande degradação!
JTM – Porque razões?
JTM – São empresas públicas!… Governadas, portanto… não estou a  falar de  ninguém em especial… Por exemplo, em França, a “Danau” é uma empresa pública e é administrada, como se fosse uma empresa privada!... E os gestores da “Danau” tem que prestar contas ao seu acionista, que é o Estado!... Mas, a administração da “Danau” funciona como se se fosse uma empresa privada!
Aqui, não é assim!... Essas empresas vivem debaixo  da asa do Estado, que, de volta e meia têm que cobrir passivos enormes!... Que se vêm criando e acumulando… Eu não sei qual deve ser a saída dessas empresas….

 JTM – Que futuro é que prevê para essas empresas?
JM – Mau!... Ou se reprivatizam ou, salvo num campo ou outro…. Por exemplo, sei lá, na energia, talvez na indústria pesada, com a nossa entrada na CEE…  Eu não vejo em que  possa existir industria pesada, aqui em Portugal,  a não ser, talvez, no campo do cobre, onde existem grandes jazidas, aliás descobertas pela antiga sociedade de  CUF, os jazigos de Neves-Corvo…
De resto, há um tipo de empresas, que, de facto, havendo uns parâmetros  bem definidos para o empresário deste país, que podem progredir, que se podem desenvolver e que podem criar..

“O bom empresário, é um homem que sonha com os pés no chão!…”

JTM – O Sr. Dr., há pouco dizia-me que os nossos empresários… O que é que pensa dos nossos empresários?
JM – Bom, vou só fazer aqui uma pequena ressalva: havia alguns bons empresários, conscientes, isso havia, o que eram poucos!... O que é eu penso dos atuais empresários?!... Confesso, não lhe sei responder….
O que é um empresário?... Um empresário é um homem que sonha! E, o bom empresário, é um homem que sonha com os pés no chão!… O mau empresário, então, pode-se chamar-lhe  idealista mas é no país da fantasia!...  E a economia não se coaduna com isso… Mas se for pensado ou sonhado, com os pês bem assentes no chão, pois, mas é preciso saber qual é o chão?... Quais são as regras?...

JTM – Não se pode ser idealista, na economia, nas empresas?
JM – Pode e deve!... Se não se for idealista, não se é um bom empresário! … Mas  uma coisa é ser um idealista, como estava a dizer, mas com  os pés assentes no chão!... Portanto, realista!... Não um poeta!...
JTM – E nós somos o país dos poetas, não é?...
JM – Sim, eu não sei se temos muitos poetas! E não sei se temos  muitos poetas de grande qualidade”… Não sei… Não é a minha especialidade a poesia…

“O nosso grupo, julgo que existia  60 anos antes do regime anterior”

JTM – Sr. Dr. considera que o vosso grupo era privilegiado no regime anterior?
JM – O nosso grupo, julgo que existia  60 anos antes do regime anterior…. Nunca fomos privilegiados, e que eu saiba, nunca o regime anterior  privilegiou ninguém… Não posso… não posso pronunciar-me!...  Lutámos e trabalhámos, que é uma coisa que nem toda a gente faz!...  Trabalhámos muito!!...
JTM –Mas, na altura, segundo me disse, chegaram a constituir 12% do produto nacional bruto!... Era um empório!....
 JM – Por outras circunstâncias…. De facto, trabalhava-se muito, e, como as  atividades, têm que se desenvolver, têm que se alterar, têm que se modernizar, as coisas crescem!... E, por isso, é que nós víamos sempre com angústia, que outros grupos não crescessem ao nosso lado!... Competissem, connosco!... Até para nossa própria defesa.

JTM – E, a competição, na altura, era praticamente resumida a dois ou três grupos!.... Que, por sinal, pouco competissem uns com os outros…Eram áreas, talvez diferentes!...
JM – Não sei…  Este país é um país pequeno!... Também não pode ter 20 ou 30 grupos grandes!... Repare: nem, Inglaterra, os tem!

“A partida para o Brasil: foi um período difícil”

JTM  - Um conhecido empresário, durante muitos anos, até ao 25 de Abril. Depois houve as nacionalizações e Jorge de Mello teve que partir para o Brasil: - Como é que viu essa partida, como é que encarou esse período?
JM – Bom, foi um período difícil!... Principalmente no Brasil e sempre com a incógnita  de poder ou não regressar ao meu país!... Felizmente, passados uns anos, pude regressar… Embora… tive que refazer a vida, enfim, já  com uma idade que estava mais própria da idade da reforma de que da idade de recomeçar.

JTM – E já recomeçou!... Atualmente, já recomeçou a sua atividade! …E, digamos, em que moldes?
JM – Como Sr. sabe, os expropriados das antigas empresas, receberam em valores depositórios, em títulos da dívida pública, um certo número de títulos,  que, duas portarias ou três, autorizavam que, com esses títulos, se acudisse a situações de empresas públicas e que se fizessem saneamentos financeiros noutras empresas… Evidentemente, tinham que ser aprovados … Enfim, que era um facto real e válido, e fui isso que eu fiz.

JTM – Está satisfeito, com as indemnizações, que lhe fizeram?
JM – Obviamente que não!... Nem considero que isso sejam indemnizações!...
JTM – É um homem ressentido com o passado?...
JM – Sabe, o passado não volta mais!... E nós temos que ser realistas e  compreender que é assim… Agora, é ainda recente para que se possa esquecer, totalmente..

“CEE: - Bom, não temos outro remédio!...”

JTM – Que projetos?... Apontam para que tipo de serviços?
JM – Bom, desenvolver aquilo que neste momento, já tenho!... E, duas empresas das que tenho, uma é praticamente irrecuperável,  que era  a Oliveirinha e Farinha, que é uma empresa de fundição alemã, está hoje totalmente recuperada e é uma empresa que exporta, cerca de 68 ou 70% da sua produção para países da Europa, ao abrigo da entrada de Portugal na CEE. Outra, que é mais difícil, porque é mais complexa, é a Molaflex, que está neste momento numa viragem muito interessante e estamos a caminho de recuperarmos totalmente a empresa,  e dá-nos a possibilidade de ocuparmos uma posição razoável no mercado europeu, principalmente no campo dos bancos e dos estofos da indústria automóvel. Neste momento, a Molaflex, só pesa no mercado europeu,  1,5% mas o nosso objetivo, neste momento, é de chegar rapidamente aos 10%...
JTM – E voltar-se especialmente para a CEE!

JM – Bom, não temos outro remédio!... Porque, o país aderiu à CEE e a CEE é constituída por uma série de países europeus… A Europa, por sua vez, tem um desafio grande! Ou compete com  os outros países, como os Estados Unidos e o Japão, ou morre… E, portanto, é a Europa, tem que fazer um esforço para ter empresas competitivas a esse nível. Ora, Portugal, que está na cauda da Europa, tem que começar por ser europeu se quer sobreviver… E, portanto, há tanta coisa a alterar aqui, especialmente a mentalidade das pessoas: nas regras, nas leis, em tudo, para, de facto, a nossa entrada na CEE, ser um fator positivo para o desenvolvimento do meu país, porque senão é um desastre!

JTM – Como é que encara esse desafio? – Sim, já que de desafio se trata, evidentemente.
JM – Pois, eu não sei de filosofia, sei de factos:  a nossa entrada na CEE, não lhe  vou dizer se a aprovaria ou não, a questão transcende-me, mas é um facto!... E, portanto, tem que se aceitar o facto e tirar o partido que se pode tirar…. Temos que trabalhar!...Temos que pôr os Portugueses a trabalhar! Têm que se cumprir regras! Temos que saber em que lei é que vivemos; as decisões têm que ser rápidas a nível governamental!... Não se coaduna, qualquer atividade, qualquer investimento, com demoras em decisões!…  É impossível!

JTM – Na pratica, o que é teria de se fazer, o que é que haveria a fazer no respeitante à nossa entrada  para a CEE?… Há que fazer com que as burocracias sejam evitadas, essas perdas de tempo?..
JM – Com certeza: as burocracias, são incríveis! Inconcebíveis!... Mas isso tem de desaparecer!... Se nós, de facto, não queremos desaparecer – passe  a expressão – sob o ponto de visto económico  -  na Europa!... Temos que ter pelo menos as mesmas condições que têm os restantes países  da CEE!... Vou  dar-lhe um exemplo, que me recorde agora: a energia é uma componente, muito grande em muitas indústrias…  Algumas que serão viáveis, em Portugal!...   Mas o preço no nosso pais é o mais caro da Europa… Apesar disso, o caso da Oliveira e Ferreirinha, que tem muitos fornos elétricos, que é, portanto, uma grande consumidora de energia, ainda conseguimos competir… O que seria uma Oliveira e Ferreirinha, no mercado europeu,  com preços de energia semelhantes aos dos outros países europeus!...