Amália Rodrigues – Entrevista sobre o Amor e o Sexo na sua vida, 1981 - Tributo de saudade à Rainha do Fado. Faleceu, em 6 de Outubro de 1999, aos 79 anos, tendo sido a 1ª mulher a ser sepultada no Panteão nacional
Amália Rodrigues – Entrevista Amor e Sexo na sua vida, em sua casa, 1981 -
Tributo de saudade à Rainha do Fado - Faleceu, em 6 de Outubro de 1999, aos 79 anos, tendo sido a 1ª mulher a ser sepultada no Panteão nacional.
Amália Rodrigues, no registo de nascimento consta a data de 23 de Julho de 1920, porém, dado existirem algumas dúvidas quanto ao dia exato, a artista adoptou o dia 1 de Julho como data de aniversário durante toda a sua vida.
Editou mais de 170 álbuns em cerca de 30 países. Atuou em palcos prestigiados por todo o mundo, desde a mítica sala Olympia em Paris até ao Japão e aos Estados Unidos
Amália Rodrigues, uma das mais importantes personagens da história da música do século XX, nasceu a 23 de Junho de 1920, em Lisboa, faleceu aos 79, a 6 de Outubro de 1999. A sua carreira internacional foi das mais longas e globais de todo o século XX
COMO SUCEDEU A ENTREVISTA Telefonara-lhe na véspera e ela havia manifestado a sua concordância. Mas, às tantas da gravação, arrependeu-se e quis ficar-me com o gravador e a cassete. Ainda procurei sugerir-lhe uma segunda entrevista mas a Maluda, veio complicar mais o diálogo Eu não tive outro remédio senão precipitar-me numa corrida apressada pelas escadas abaixo, à frente dela e do grupo de amigas, que se encontravam em sua casa.
Recebeu-me em sua casa, em 1981 – Era a terceira vez que me franqueava amavelmente a subida para a sala onde recebia as visitas – Desta para me falar de amor e da sua primeira relação sexual, na sequência de uma série de entrevistas que estava a realizar para o Jornal Tal & Qual, com várias personalidades da vida portuguesa, acerca da "primeira vez". ou seja, sobre a primeira relação sexual Foi no principio da década 80, num período em que, certos tabus, acerca da sexualidade, se rompiam graças aos ventos da revolução de Abril - Entre as figuras entrevistadas, contam-se: Carlos Botelho, Graça Lobo, Simone de Oliveira, Raul Solnado, Vitoriano Almeida, Ary dos Santos, Narana Coixoró, Raúl Calado, Ivone Silva, Afonso Moura Guedes, entre outras figuras - A Amália aceitou o desafio mas, a dada altura do momento da entrevista, arrependeu-se
Tal como se poderá ver na gravação, tentei fazer uma segunda gravação, com perguntas da sua concordância e respostas mais ponderadas: Mesmo assim, estava hesitante.
Logo que transpus o último degrau, cumprimentou-me com um beijinho, levando-me de seguida para junto de um grupo de amigas, que estavam lá mais à frente, a um canto da casa do lado esquerdo e junto à janela, que corresponderam simpaticamente. E lá passei um grande bocado da tarde. Curiosamente, não se falava de outra coisa senão de sexo. Claro, de uma forma trivial, sem qualquer carácter obsceno. E foi com estas palavras que me apresentou às suas amigas: "Você também gosta de falar de sexo?!... Elas são marotas!... Não faça caso que elas sabem muito mais do que eu!..." - "Estejam à vontade"- respondi. "Eu também gosto de conversar sobre essas coisas...
Ainda lhe propus desgravarmos e começarmos outra entrevista, anuiu mas acabaria por não aceitar. Eu é que não podia era ficar sem o gravador, porque não era meu mas da estação onde trabalhava - Tirou-mo das mãos. Tentou tirar a cassete do seu interior mas a mola estava partida e não saltava para fora.Eu disse-lhe: "Amália, tenha calma... Eu dou-lhe já a cassete... Dê-me o gravador por favor que não é meu ou então vamos começar de novo...
Eu já havia passado por uma experiência, com quase idênticos contornos, com as confissões de um elemento da ETA, em Las Palmas. Deu-me a entrevista à noite (contando-me como ele e o seu grupo haviam assassinado um general em Madrid - olhos vendados e de cano de pistola apontado aos ouvidos , jogando à roleta russa ), mas, o diabo do sujeito, pouco depois, arrependeu-se e foi bater ao meu quarto para que lhe devolvesse a cassete. Disse-lhe que lha entregaria de manha. Só que eu levantei-me mais cedo e mudei de pensão. Era das mais modestas da cidade onde não eram pedidos elementos de identificação pessoais.
EM VEZ DE UM REGISTO, PASSEI A DISPOR DE DOIS
Na sequência do inesperado diálogo, acabava por dispor, não apenas de um registo mas dois: o da entrevista, de que ela se arrependeu e depois os lamentos dela, as suas justificações, durante vários minutos. Foi então que me voltou apanhar gravador: "Você não leva o gravador!!!... Vá à sua vida que não leva o gravador!!... A mim não me engana!!..." Bom, nisto o grupo (que até aí se manteve indiferente junto à janela) pára de conversar e faz-se um silêncio sepulcral na sala... Já só se ouve então a Amália a dizer, meia arreliada: "Você não leva o gravador! Vá à sua vida!.."e eu a pedir-lhe, insistentemente, que mo devolvesse. E a Maluda, que já tinha olhado várias vezes para nós e parecia algo desconfiada de que havia por ali gato, pergunta, com voz alterada e meia zangada: "Amália!... o que se passa?!!...O que é que esse gajo te quer fazer?!....Eu já corro com ele!!!.. ...Já trato dele!!.."
Vendo a ameaça iminente da presença da Maluda, seguida pelo grupo, e quando ela lhe responde. "Eu disse umas coisas parvas e não quero que ele leve o gravador!.. Ele não vai levar o gravador!...Não vai levar o gravador!... quero que ele se vá já embora!" Pois bem, aproveitando então o instante em que ela olha em direcção à Maluda, sim, apanhando-a distraída, tiro-lho o gravador e desato a fugir escada
abaixo.
AS PAZES...E A HOMENAGEM DE UMA FOTO EXCLUSIVA
A fotografia que aqui edito, com uma pose de fadista, da Amália, à frente do retrato da Severa, foi registada no dia do lançamento do livro, " Uma Estranha Forma de Vida", de autoria de Vítor Pavão dos Santos, que teve lugar na Adega Machado - A imagem é de minha autoria e trata-se de uma pose, espontaneamente da Amália, selando, de forma gentil, artística e carinhosa, o termo de um período de agastamento e distanciamento , depois da fuga precipitada de sua casa. A imagem foi obtida por uma pequena compacta de bolso.
Creio que houve mais uma pessoa que terá aproveitado a oportunidade para registar a mesma pose. Mas ela voltou-se, foi para mim e perguntou-me: "Você está aqui?!..." Eu respondi-lhe: "
Sim, estou aqui porque não hei-de estar aqui?!... Quem não deve não teme!... Amália, sabe dizer-me se alguma vez eu usei as suas palavras da entrevista? .. As transmiti ou as publiquei nalgum jornal?!...Desculpe não ter-lhe dado a cassete e tê-la deixado se calhar preocupada mas Amália também queria o gravador e eu não podia ficar sem ele"
Porém, embora nesse reencontro, com o repórter, reconhecesse que não havia razões para ficar preocupada, me autorizasse a divulga-la, mesmo assim decidi por enquanto não o fazer
-Isto passou-se já na ponta final da cerimónia, quando os repórteres fotográficos e a maioria das pessoas, haviam saído. Eu fizera outras fotografias mas andara por ali discretamente. Aguardei para o fim, cauteloso, pois não sabia como ela ia reagir à minha presença: surpreendentemente foi amistosa: "Vá... entãodê cá um beijinho e tire-me aí uma fotografia!".... Não cabia em mim de contente.... Até já parecia que estávamos mais à vontade que o resto da sua comitiva...Finalmente acabou-se o pesadelo.. Autografou-me a obra (a que se juntou o autógrafo de Victor Pavão) e parti dali como se fosse um velho amigo....
Amália sempre foi um coração de oiro, expansivo, alegre e frontal; muito generosa e soube perdoar. Mas o nosso país pequeno demais para a sua grandeza mas uma grande quinta para os invejosos. Tinha muitas razões para se acautelar....Não foi a queda do regime que a magoou mas certos extremismos e oportunismos . Aliás, foi até depois do 25 de Abril, que Amália recebeu as maiores homenagens e distinções. .Foi condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então presidente da República, Mário Soares. Ao mesmo tempo, atravessa dissabores financeiros que a obrigam a desfazer-se de algum do seu património - In..Amália Rodrigues – Wikipédia,
Curiosamente as farpas vieram dos que se notabilizaram em boa parte à sua custa.. Foi alvo de boatos pelos jornais e por algumas pessoas de uma certa esquerda oportunista e extremista que se meteram na sua vida íntima e a acusaram de gatos e lagartos. .
Mais tarde fizemos as pazes: foi no lançamento do livro de Victor Pavão - "Uma Estranha forma de vida", que decorreu na Adega Machado. Autografou-me o livro e deu-me um beijinho muito querido. Depois pousou expressamente para mim, à frente do retrato da Severa – Obrigado Amália Rodrigues por tão belo momento, cuja foto guardo como um relicário.
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