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terça-feira, 11 de abril de 2023

Maria Antónia Palla, Jornalista e escritora - A voz do testemunho de uma vida – 90 anos em 10 de janeiro 2023 - Autora de vários livros - Editou há dois anos “O Relógio de Cuco”, apresentado na Fundação Gulbenkian.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - Fotos de várias fontes - Algumas de minha autoria


"Eu digo no livro, que, antes do 25 de Abril, Portugal, era um país dividido: havia nós e eles" Referindo que foi graças à democracia que conheceu pessoas dos vários quadrantes políticos. E que "a mulher que sou hoje é bem diferente da criança e adolescente que fui!... Fui apreendendo... e muito!.. Observando as pessoas,... E é realmente aquilo que verdadeiramente me interessa... É um prazer conviver com pessoas diferentes e tornar-me amigas delas"

 




Testemunho de vida de Maria Antónia Palla, Jornalista e escritora, feminista, 90 anos, feitos em janeiro 2023 .. Editou em 2021 “O Relógio de Cuco” seu último livro, apresentado na Fundação Gulbenkian - Uma das primeiras mulheres jornalistas em Portugal, ainda viva mas já com a saúde fragilizada, pelo que lhe desejamos as suas melhoras - Que a jovialidade, manifestada há dois anos, nas suas palavras e naquela conferência, da qual recordo algumas passagens, seja retomada com os mesmos sorrisos, a mesma memória e alegria. - Possuidora de uma carreira longa e marcante em diversos jornais, revistas e televisão, que norteou toda a sua vida pela liberdade, lutando não só pela sua como pela dos outros: das mulheres, das minorias, dos desfavorecidos. Sem ter medo de ir contra o sistema, as regras, as instituições, as opiniões dos outros 

 

Mulher de uma vida intensa, autora de vários livros, incansável combatente de causas, em que a sua sede de liberdade e a sua coragem a levaram a rasgar fronteiras, a emblemática figura do feminismo e da luta pela liberdade e pelo inconformismo, tal como a despenalização do aborto, que a levaria à barra do tribunal, apresentou o seu último livro, em Nov de 2021, na Fundação Gulbenkian, intitulado "O Relógio de Cuco", no qual descreve vivências pessoais e íntimas, mas também profissionais e políticas, que nos transportam para contextos socioculturais da Primeira República, do Estado Novo, da Revolução e do pós - Revolução do 25 de Abril de 1974. – A breve autobiografia da incansável feminista e jornalista, é o segundo volume da coleção "Autorretratos" (ligada à revista Faces de Eva) que tem por objetivo homenagear mulheres portuguesas que se destacaram na luta por uma sociedade democrática e igualitária.

 


Maria Antónia Palla , distinguida, em 2004, com o grau de comendadora da Ordem da Liberdade. É autora de vários livros, entre os quais Revolução, Meu Amor (de 1969). Apreendido pela PIDE, Revolução, Meu Amor aborda os acontecimentos do Maio de 1968. Escreveu também Só Acontece aos Outros – Crónicas de Violência (1979) e A Condição Feminina (1989). Já Viver pela Liberdade (2014), em coautoria com a jornalista Patrícia Reis, é um livro das suas memórias; Savimbi: Um sonho africano, em co-autoria com João Soares (Nova Ática, editado em 2003


Foi das primeiras mulheres jornalistas em Portugal, teve uma carreira longa e muito ativa  em diversos jornais, revistas e televisão, destacando-se no tratamento de temas culturais e sociais, despedida do Diário Popular por insistir em fazer um balanço do Maio de 68 em Paris, tendo depois integrado o Século Ilustrado e a Vida Mundial, a ANOP e A Capital, cronista do Diário de Notícias, grande repórter da RTP e chefe de redação da revista Máxima. a primeira mulher a estar inscrita no Sindicato dos Jornalistas, ascendendo à sua direção após a Revolução de 25 de Abril, com mais duas mulheres, Maria Antónia de Sousa e Maria Antónia Fiadeiro, chamadas "as três Antónias, tendo sido também a primeira mulher que assumiu a presidência da Caixa de Previdência dos Jornalistas, uma das fundadoras do Fórum Português para a Paz e Democracia em Angola, que presta apoio às forças democráticas daquele país. , membro da União das Mulheres Antifascistas e Revolucionárias (UMAR) e Membro Vitalício do Conselho Geral da Fundação Mário Soares desde 10 de Março de 1996.

Defensora de que “as mulheres são as pessoas que sabem organizar-se melhor, sabem conciliar atividades diferentes, têm um sentido de responsabilidade mais apurado. Defendo a participação das mulheres, enquanto mulheres, em todas as instâncias, em todos os organismos, em todas as instituições decisivas para a sociedade porque elas têm mais sensibilidade e mais capacidade para perceber o que é a vida quotidiana

Maria Antónia Palla, nasceu no Seixal, a 10 de Janeiro de 1933, numa família laica, republicana e liberal, filha de Ítalo Ferrer dos Santos, o primeiro na sua família a não ser batizado, e de sua mulher Angelina Painço de Assis e irmã de Jorge Ítalo de Assis dos Santos. Frequentou o Liceu Francês em Lisboa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Tida como “uma mulher que norteou toda a sua vida pela liberdade, lutando não só pela sua como pela dos outros: das mulheres, das minorias, dos desfavorecidos. Sem ter medo de ir contra o sistema, as regras, as instituições, as opiniões dos outros. https://expresso.pt/podcasts/a-beleza-das-pequenas-coisas/2018-09-21-Maria-Antonia-Palla-O-meu-filho-Antonio-Costa-e-bem-educado.-Em-Angola-ha-protocolo-a-mais-e-coisas-importantes-a-menos---a-democracia  

Casou-se três vezes: - aos 20 anos  com o escritor, poeta e dramaturgo moçambicano de origem goesa Orlando da Costa  (2 de julho de 1929 Lourenço Marques -        27 de janeiro de 2006 Lisboa, de quem teve um filho, António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal, nascido em 17 de julho de 1961. Meio-irmão, apenas do lado paterno do jornalista Ricardo Costa, nascido em Lisboa, a 25 de julho de 1968 .  Orlando António Fernandes da Costa, autor de várias obras, considerado o  sétimo autor português com mais livros proibidos pela censura do Estado Novo, cinco no total.

Maria Antónia de Assis dos Santos, mais conhecida por Maria Antónia Palla, apelido que adotaria no segundo casamento  com Victor Manuel Palla e Carmo, conhecido como Victor Palla, (Lisboa, 13 de Março de 1922, Lisboa, 28 de Abril de 2006), arquiteto, fotógrafo, pintor, designer, escritor e editor português. A sua obra de pintura e fotografia encontra-se presente em algumas das mais notáveis coleções do país, como seja a Fundação Calouste Gulbenkian, a Museu Coleção Berardo ou o Museu do Chiado.

Em 1974, casou com o coronel  do exército Manuel Pedroso Marques. Também ele autor de vários livros e possuidor de uma carreira notável; participou, como capitão, numa ação militar e civil contra a ditadura em 1961.  Julgado, condenado, exilado em França e no Brasil, reintegrado após o 25 de Abril.
Foi redator, editor, gestor e escreveu sobre temas de Administração, sociais e políticos.
Redator da Enciclopédia Delta Larousse, dirigida por António Houaiss, foi editor de três chancelas editoriais no Brasil. Em Portugal, além de outras funções militares e de acessória, foi presidente da RTP, da empresa do Diário Notícias e da Capital, administrador da Bertrand e da Difel, de empresas de publicidade e da Agência Lusa de Notícias




Maria Antónia Palla não deixa também de retratar casos mais pessoais, como a forma como o seu filho, António Costa, hoje primeiro-ministro de Portugal, aceitou a sua relação com o então capitão Manuel Pedroso Marques.

"O meu filho e eu tínhamos o hábito de discutir todos os problemas. Mas era a primeira vez que se deparava com um assunto tão delicado. Falámos. Com o sentido prático que sempre teve, disse-me: ‘convide-o para vir passar um fim de semana a casa, depois veremos'".

"Assim fizemos. O Manuel ficou aprovado", relata Maria Antónia Palla.

Confessa ter tido  a sorte de ter nascido numa família - e falo da minha família paterna - republicana, laica, e meio socialista, meio anarquista. Os meus avós maternos já eram bastante diferentes, eram muito conservadores.

Nasci em casa dos meus avós paternos, no Seixal, e saí de casa deles aos quatro anos, quando os meus pais foram viver para perto de Sintra. Mas passei sempre muito tempo com eles, porque era lá que gostava realmente de estar.

Quando eu nasci, em 1933, estávamos no começo da ditadura, e o meu avô fazia parte da Oposição. A casa dos meus avós era uma casa onde nunca se fechava a porta. A todas as horas havia gente a entrar e a sair. A minha avó gostava muito de jogar às cartas, pelo que a casa se enchia de pessoas à noite. Vinham conspirar com o meu avô e falar de livros proibidos ou jogar com a minha avó.. https://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-maria-antonia-palla/48964

 

domingo, 9 de abril de 2023

Guiné Equatorial – É Páscoa de Aleluia!.. O antigo náufrago não esquece a fúria do mar e quem o salvou da forca na Black Beach na Ilha de Bioko – Num dia de ressurreição e de gratidão

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador -  O video documental que  hoje  me fez toldar os olhos de lágrimas e  longas horas ao computador e de vigilia e sem dormir, tal como naquelas noites de incerteza e de tormentosa solidão na vastidáo do mar



video com momentos de recordação e de gratidão 

 

Hoje, dia 9 de Abril 2023, Dia de Páscoa – Tempo de pronunciar a palavra Aleluia! E as palavras Ressurreição e Gratidão. Recordando o dia em que fui rezar a uma linda igreja de Malabo, em Julho de 2017,  junto de um grupo de humildes cidadãos católicos e também noutro local da cidade de Bata, numa vulgar praça ajardinada,  por ter sido salvo da força no reinado do terror de Francisco Macias  e sobrevivido aos  38 tormentosos dias  a bordo de uma  canoa no vasto mar do Golfo da Guiné.   

Munido apenas de uma simples bússola, sem qualquer outro meio de navegação, arrastado pelos ventos e as correntes, mais das vezes à deriva de que pelos precários meios que dispunha:  com uma vela feita de sacos de farinha e provido de um tosco remo improvisado, visto ter perdido o remo principal e os mantimentos que levava, logo na primeira noite em que fui surpreendido por um violento tornado. Nunca me deixei vencer pelo desânimo ou cruzei os braços.

UMA ODISSEIA DRAMÁTICA NO MAR  E OUTRA NÃO MENOS INTENSA E PERIGOSA EM TERRA 

A canoa foi carregada num pesqueiro, em S. Tomé, para ser largada a sul de Ano Bom, na corrente equatorial em direção ao Brasil.  Em vez disso, o comandante propôs-me ficar a bordo e deitar a canoa borda fora.  Recusei a proposta e optei por regressar - Um violento tonado à noite, deixou-me sem a maior parte dos mantimentos e do remo principal - Era o principio de um enorme pesadelo  -     Tendo, por fim,  aportado numa pequena baía de Bioko, nas costas do Bokoko, em cuja ilha acabaria por  viver um curto mas bem afrontoso pesadelo, ao ponto de me recriminar contra a sorte de não ter matado a fome às foices de algum dos tubarões que me atacaram e que sacudi à catanada. 

S. Tomé - Outubro 1975
Aproximação à Ilha de Bioko Nov 1975

A SORTE  PROTEGE OS AUDAZES   - SALVOU-ME DE ME PERDER  NO MAR DOS TORNADOS  E  TUBARÕES E DE SER ENFORCADO EM TERRA  

Creio que fui um protegido, não só pela preparação maritima que já dispunha, em dezenas  de treinos nas canoas dos pescadores, que fazia aos domingos, sempre que podia, como  também pela minha inabalável coragem, acalentada pela  divina graça de Deus, que sentia  proteger-me nas arriscasas aventuras em que me envolvi - E foram várias.

Tal como já foi publicamente afirmado, por ocasião das comemorações do  42º aniversário do Golpe da Liberdade,  "o Tenente-Coronel magnânimo e humanista que, quatro anos antes, mandou libertar da cadeia e do caminho para a execução, por espionagem, um aventureiro português que naufragou o seu caiuco nas praias de Malabo, após uma tempestade, foi o mesmo que, em 1979, com um grupo de oficiais saídos da Academia Militar de Saragoça,  achou demais a destruição, o caos e o niilismo do regime de Francisco Macías".https://www.embarege.com/716183_42o-aniversario-do-golpe-da-liberdade


O  ENTÃO JOVEM OBIANG SALVOU-ME DA EXECUÇÃO -    Pouco mais velho que eu, hoje não me restam dúvidas, que, se daquela ilha pude sair  vivo, o devo graças ao humanismo e à generosidade do então Comandante Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, atual Presidente daquele país, descoberto no século XV pelos navegadores portugueses - Neste dia especial, aceite, pois, os meus votos de uma Páscoa feliz e que Deus lhe dê forças e saúde para  continuar a servir o bem-estar e o progresso do  povo da Guiné  Equatorial

 FRANCISCO MACIAS, NÃO ACEITAVA SER CONTRARARIADO - Habituado que estava a mandar executar sem dó nem piedade - Pelos mais fúteis e variados pretextos.  Macias era então o primeiro presidente pós-colonial (1968-1979) da Guiné Equatorial, Em 1972, autoproclamou-se presidente vitalício  e chegou a elogiar  publicamente a figura de Adolf Hitler, Africanizou" seu nome como Masie Nguema Biyogo Ñegue Ndong em 1976 depois de exigir o mesmo do resto da população.As condições chegaram a ser tão nefastas que até sua própria esposa, Mónica, fugiu do país.

Muitos professores, intelectuais, políticos, profissionais liberais, entre outros com alguma qualificação educacional, foram perseguidos, presos e executados. Os poucos que escaparam, exilaram-se em países vizinhos, resultando em uma fuga de cérebros do país. O número de mortos sob a sua ditadura estima-se entre 50.000 e 80.000, entre 1/6 e 1/4 de uma população de umas 300.000 pessoas  .https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Mac%C3%ADas_Nguema



Jorge Marques  com o Embaixador Tito Mba Ada

Voltei lá, em junho de 2017, graças à amável compreensão, apoio  e sensibilidade do Embaixador Tito, em Lisboa para lhe manifestar a minha gratidão pela coragem e humanismo do seu gesto, ao contrariar decisão soberana do então todo poderoso e implacável Francisco Macias.

Estive em Malabo e em Bata, participei na abertura do 6º congresso do Partido Democrático da Guiné Equatorial, e, no encerramento, assisti, filmei e fotografei a conferência dada pelo Presidente Obiang às várias cadeias de televisão - Tendo desfrutado da oportunidade de andar tranquilamente por onde quis com motorista à minha disposição.


Andei à vontade e tranquilamente por onde quis: vi um pais, completamente diferente daquele que observei em 1975, onde as barracas deram origem a bairros sociais, usei a Internet, sem restrições, editando postagens neste site - Não fui, como jornalista mas como convidado especial - Privei e convivi com diplomatas, altas figuras do Estado, tendo tido mesma a assistência médica do próprio médico pessoal do Presidente, devido a um desarranjo intestinal, que me vinha preocupando, desde há dois anos, e convivi com o administrador do seu palácio e um dos seus familiares; fui recebido pelo Secretário-Geral do PDGE - Com Obiang ficou prá agendar. pois ele lembra-se de mim e manifestou também desejo em receber-me falámos e sorrimos com gente simples e anónim

Mais tarde, em Portugal,  em Junho de 2022, tive oportunidade de ser recebido por ele, aquando da sua participação no plenário da Conferência dos Oceanos das Nações e de lhe manifestar pessoal a minha profunda gratidão

DEMONSTRAR QUE AS ANTIGAS CANOAS PODIAM TER LIGADO O CONTINENTE COM AS ILHAS  ANTES DA COLONIZAÇÃO - E de prosseguir com a experiência de Alan Bombard- Este um dos vários obe«jetivos das minhas aventuras em frágeis pirogas 

Local onde  pude acostar a canoa em Bioko

Quando os europeus, alcançaram as principais ilhas do pacifico, constataram, com espanto,  que as mesmas já eram habitadas, pese as distâncias que as separavam dos continentes . Defendo que as ilhas do Golfo da Guiné, também poderiam ter sido ligadas desde as costas limítrofes africanas, através dos mais antiquíssimos meios de navegação, os ancestrais troncos escavados com os seus machados de pedra. E creio já ter encontrado vestígios arqueológicos da sua presença nas investigações que fiz nalgumas praias de S. Tomé, bem como da chegada dos navegadores portugueses, que terão aportado na chamada Lagoa azul e não no sítio onde foi erguido um padrão.


Quanto à sobrevivência em longos percursos, também esses povos os deviam conhecer, habituados que estavam a uma vida íntima com a Natureza, conhecimentos que viriam a perder-se com a chegada de culturas externas, alheias e adversas  à sua e à prevalência do seu domínio. 

Demonstrar aos pescadores das canoas, que não pensassem que "só gente de feitiço" é que se poderia salvar, quando arrastados pelos tornados ou por terem perdido a terra de vista. Que aproveitassem o pescado para comer nos dias em que andassem perdidos, bebessem a água das chuvas, chopassem o sangue dos peixes, que não é salgado ou, mesmo, à falta de chuva, bebessem de vez em quando uns golitos de água do mar para matarem a sede - Ouvi-lhe muitas histórias de sobrevivência . E conclui, que, se as canoas, involuntariamente, eram arrastadas para outras ilhas ou para a costa africana, eu voluntariamente também o podia fazer.

O biólogo e médico francês Alain Bombard, conhecido como "náufrago voluntário", demonstrou que a maior parte  das vitimas dos naufrágios resultam mais por desespero e  perda de confiança de que pela ausência dos recursos que o mar pode proporcionar- Este foi também um dos objetivos dos meus 38 dias numa frágil piroga no Golfo da Guiné, depois das travessias solitárias de canoa  de S. Tomé ao Príncipe, em 3 dias, e de S. Tomé à Nigéria, em 13 dias.

Tal como documento no meu diário gravado,  cujo gravador e máquina fotográfica pude preservar num vulgar contentor do lixo, de plástico, nunca cruzei os braços, sobrevivi bebendo água das chuvas e do mar, das aves que vinham pousar à noite na canoa, que, com grande dor de alma, cheguei a sacrificar por algumas vezes. E de  alguns peixitos que apanhei à linha, enquanto tive anzóis e  à mão, quando se me acabaram e vinham catar as pequenas lapas que surgiam no costado da canoa. entre os quais alguns tubarões. 

E até de um coco que encontrei a boiar, que apelidei de coco divinal.  Além disso, rezei e cantei – E também chorei, não propriamente por desespero, mas pela emoção de algumas situações. Por sentir que, apesar da extrema e avassaladora ameaça que estendia em todo o meu redor, lá ia resistindo e sobrevivendo. Tal como ainda hoje se me toldam os olhos de lágrimas, quando recordo aqueles longos e penosos dias de incerteza e de solidão e me interrogo de  como pude resistir a tantos e tão constantes perigos. 

JÁ LÁ VÃO QUASE 48 ANOS  - UM DRAMA DIFÍCIL DE ESQUECER - TANTO NO MAR COMO EM TERRA 

Na manhã do dia 4 de Dezembro de 1975, deu-se, pois, a feliz e milagrosa coincidência, que vem determinar o meu salvamento: quando menos esperava, um carcereiro chegou à porta da minha cela, algemou-me e ordenou-me que o acompanhasse - Senti logo um embate no meu coração, que não deveria ser levado para melhor destino - Mal transpus a a estreita cela,  onde apenas dispunha de um balde para fazer as necessidades e, a servir de cama, um banco da largura de uma tábua, pelo que  preferia deitar-me no chão, tal como fazia no fundo daquele tronco escavado, sou imediatamente agarrado por outro guarda, tendo à minha frente o Comissário da Cadeia, que já me tinha torturado com infindáveis interrogatórios para me conduzirem ao sítio das execuções.

Sucedeu, porém, que, momentos depois,  por um feliz acaso, talvez milagroso (pelos vistos, a sorte protege os audazes), soa o telefone no corredor da morte -  O Comissário  manda suspender a caminhada, enquanto vai atender o telefoneEra o então Comandante Obiang, a solicitar a minha presença no seu gabinete para me comunicar a decisão do seu tio – Por isso,  em vez de continuar pelo malfadado e sinistro corredor, sou desviado por uma escadas de pedra até um piso superior.

Depois de vários degraus acima, tanto quanto me ocorre, vejo-me confrontado com  a luz do dia  num pequeno terraço e, logo  à minha direita, há uma porta que se abre para um amplo espaço, após uns toques das costas da mão do Comissário sobre a mesma: os carcereiros ficam de fora encostados à parede, aguardando novas ordens e   só aquele alto funcionário é que me vai conduzir algemado à sua frente. 

Mal transponho a soleira de entrada, sou então posto de pé à frente a uma mesa, ao mesmo tempo que a porta é fechada pelo próprio  Comissário e este se recosta a um cantos do mesmo portão, aguardando   pela chegada  do então supremo comandante das policias e das forças armadas, que, inicialmente, me recebeu de forma austera e desconfiada: com estas palavras: " O que se passa contigo?!... Porque te metiste num caiuco e o que vieste aqui fazer?!.. .Quien te ordeno entrar al espacio de guinea ecuatorial?!...

Lamento mas tenho que cumprir as ordens de Sua Excelência e tenho de o executar hoje mesmo!...

Minha reposta: - Soy un pobre náufrago!.. pido apoyo y comprensión…

- ¿Cómo puedes demostrar que eres un náufrago?...

Tendo, ainda, num dos meus bolsos, a mensagem do MLSTP, que pretendia ler quando concluísse a travessia, que ousava realizar de S. Tomé ao Brasil, pedi que me retirassem as algemas e lha mostrasse.

Confirmando a sua autenticidade, puxou a cadeira de vime, que estava sobre uma mesa, sentou-se e  mandou-me  também sentar à frente da sua secretária soltando até sorrisos de admiração, pedindo que lhe contasse o que se havia passado comigo – Acreditou nas minhas palavras eaté elogiou a minha coragem.

¡Este hombre es un hombre valiente! .. ¡Mándalo a un hotel!

 Porém, quem, pelos vistos, não gostou do seu generoso e humanitário procedimento, foi o  autoritarismo ´déspota  seu tio, que, por certo, até  da sua própria sombra,  devia desconfiar, tendo ordenando a minha saída  no dia seguinte, por qualquer fronteira da Guiné Equatorial,  tal como ficou registado no meu documento de identificação, num antigo passaporte colonial, que trazia comigo, pelo que não me restou outra alternativa senão aceitar o voo da Ibéria, com destino a Madrid



Recordando, também,  o que  então pensei - Obrigado minha canoa!.. Sou um retrato desfigurado de mim mesmo mas não me sinto derrotado. Ainda não me levaste a terra mas antevejo esse momento de suprema felicidade... Sinto um encantamento inexprimível, inefável!... Porém, começa a sentir-se muito calor.....Mas, por agora, estou bem.....Dá-me a impressão que até   já  me sararam as feridas e me passaram  as dores do meu corpo. Estou mais tranquilo. Vejo que tenho aqui a terra, relativamente próxima. ...Oh, meu pobre coração!.. Tão maltratado tens sido!.... Depois de tanta angústia e de tanta incerteza,  como esta visão te descomprimi e tranquiliza um pouco mais!... 


 Diário de Bordo 2 Esta amanhã, a moral pode considerar-se elevadíssima! Comi a ave que ontem apanhei... Cozia-a com um toco de uma vela de cera que ainda aí tinha... E apanhei mais um peixito...Tenho aqui a costa de África já muito próxima... e montanhosa para meu espanto....

https://canoasdomar.blogspot.com/2019/11/perdido-no-golfo-da-guine-33-dia.html


sexta-feira, 7 de abril de 2023

Foz Côa – Procissão e Auto da Paixão de Cristo reúne centenas de fiéis - Recordando momentos de fé e de oração

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista 







Vem aí a  Sexta-Feira Santa,  o dia em que o mundo católico recorda  o julgamento, a paixão, crucificação, morte e sepultura de Jesus Cristo, através de diversos atos religiosos – Vila Nova de Foz Côa, onde a população é maioritariamente católica, tem mantido a tradição 

Recordando, uma dessas tradicionais celebrações  - Passos mais ou menos cadenciados, orações e cânticos, sons de banda filarmónica  entrecortados por   silêncios  ou algumas palavras furtivas, emprestaram ao ato momentos de impressionante pendor religioso e místico.


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A tradição já não é como antigamente. Os sinos deixavam de tocar e os únicos sons que se ouviam eram o das matracas.  E também já lá vai o tempo dos  longos jejuns  e da abstinência de carne, salvo quem comprasse as bulas. Hoje a procissão é acompanhada por uma banda filarmónica,  a de Freixo de Numão, por sinal a única no concelho, mas nem por isso deixa de continuar a ser um ritual que apela  - mesmo para quem não professe o catolicismo – para os sentimentos mais profundos sobre a  meditação dos mistérios da vida e da morte.