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domingo, 1 de março de 2020

Escritor Vergílio Ferreira – 28-01-1916 /01-03- 96 "Dizer que não me importava de morrer!... Ou que nunca me importei de morrer?... Não é verdade.". O autor da “Manhã Submersa” e do “Cântico Final” partiu há 24 anos “Para Sempre” – “Em Nome da Terra” e “Até ao Fim” - Minhas Saudades de um Grande Pensador e de um Bom Amigo

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador

Deu-me o prazer de me conceder várias entrevistas, recebendo-me sempre em sua casa  e até me citar num dos seus diários – Algumas das vezes no próprio dia do seu aniversário. 


Vergilio Ferreira,  escritor e professor de português. Autor  de meia centena de livros, uma vasta obra, dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, agrupada em dois períodos literários: o Neo-Realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos

Estudou no Seminário do Fundão, licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e exerceu funções docentes no Ensino Secundário. Notabilizou-se no domínio da prosa ficcional, sendo considerado um dos maiores romancistas portugueses deste século.

Nasceu em Melo, aldeia do concelho de Gouveia, na Beira Alta, a meio da tarde do dia 28 de Janeiro de 1916, tendo como fundo a Serra da Estrela, ambiente e paisagem que iria moldar a sua personalidade e influenciar a sua vasta obra - Faleceu na sua casa de campo, em Fontanelas, no dia  1 de Março de 1966, pouco depois da hora do lanche. Quando a sua esposa (Regina Kasprzykowski) entrou na sala para ir buscar a chávena e bule, encontrou-o estendido de costas sobre o tapete no chão e com rosto voltado para a janela. Ele, que tanto interrogara a morte, pelos vistos, respondeu ao seu apelo da forma mais pacífica e tranquila.

Escritor Vergilio Ferreira - O que está perto dos olhos é o que menos se vê

Autor da "Manhã Submersa", "Em Nome da Terra", do "o "Impossível Repouso" , chamado talvez pelos seus romances do "Apelo da Noite" e "Cântico Final", guiado certamente pelo da sua "Estrela Polar" partiu para "O Espaço Invisível " e "Para Sempre", há 24 anos 
"O que está perto dos olhos é o que menos se vê - Os que mais me recordo da minha infância, não tem a ver com factos mas com atmosferas" – Começou por nos dizer na interessantíssima entrevista, de mais de meia hora, que nos concedeu – Durante a qual nos falou da sua obra, tendo-nos dito que, os contos é onde menos se pode repetir, considerando, porém, que é o romance que mais o fascina, que é de uma magnitude incomparável que se vê



  Recordando um dos maiores vultos da literatura portuguesa, que me deu a honra e o prazer de me receber várias vezes em sua casa e de me conceder várias entrevistas - 



  
Noutra  das entrevistas, que me concedeu, perguntei-lhe o que pensava da vida para além da morte, e da morte em si, visto ser um tema muito recorrente na sua obra,,
“Eu já pensei que a morte era a passagem para o além, para uma vida que se seguiria a esta…Aliás, quando pensei, tinha toda a aparelhagem para isso, nesse mesmo além… Haveria um céu, haveria um inferno, haveria um purgatório, etc


O facto de me eu preocupar com a morte, não significa que a morte me assuste!... As pessoas tendem a confundir essas duas coisas: uma coisa é o medo da morte, outra coisa é a intriga que a norte nos causa!.. - -   Ouça a entrevista no vídeo, mais à frente

JTM - Acredita que há vida para além da morte?

V.F. - "Eu já pensei, evidentemente, que a morte era a passagem para o além, para uma vida que se seguiria a esta…Aliás, quando pensei, tinha toda a aparelhagem para isso, nesse mesmo além… Haveria um céu, haveria um inferno, haveria um purgatório, etc... Hoje estou convencido que a morte é um fim de tudo... Se não estivesse convencido,naturalmente, que a vida,  no seu absurdo, não se me imporia tanto...

Evidentemente que estas certezas não se baseiam em nada... Baseiam-se num equilíbrio interior que diz que é assim ou não é assim... Aliás, é em função desse equilibro interior que nós aderimos ou não aderimos  a muita coisa na vida: desde  a mulher que se ama,  a política que se segue, o clube de futebol a que se adere, etc. 

  Portanto, eu não tenho razão absolutamente nenhuma para afirmar que depois desta vida não há mais nada.... A única razão é esse tal equilíbrio interior... Portanto, não vou discutir com ninguém que acredito no além...Não vou discutir com ele para lhe demonstrar que ele não tem razão e quem tem razão sou eu.. Essas coisas vivem-se no íntimo de nós   sem que, no fim de contas para aí metamos entrego ou estopa, como se consuma dizer...
É naturalmente um fruto de mil acidentes, que nós vamos tendo na vida!... Mil encontros!... Mil livros que se leram, ideias que se tiveram, etc. Desse magma, desse conjunto de circunstâncias, resulta, naturalmente, uma determinada orientação, um determinado sentido... Essa orientação, impõem-se-nos!...  Não somos nós que a deliberamos... E é o que se passa, comigo,  nesse aspeto

JM - A morte transparece muito na sua literatura. Porquê?


V.F. - Porque a vida é realmente incompreensível em função do nada da morte... É a morte que põe em destaque essa mesma vida, como, digamos, no escuro da noite se destaca um fósforo que se acenda...Uma luz que se acenda... 
Portanto,  justamente porque eu vejo na morte o nada total da vida e um milagre espantoso, naturalmente que a morte impõe-se-me como motivo de meditação!.. Aliás, devo dizer, que, impôs-me mais do que se me impõe hoje  houve outros problemas que se foram sobrepondo a esse... Porque, no fim de contas,  um problemas pode resolver-se pelo seu desgaste... Não é porque tenha encontrado definitivamente uma solução  para essa intriga que se impunha ou se me impôs, durante muito tempo., não é porque tenha encontrado uma solução dessas que, de facto, o problema já me não impõe tão agudidamente... É porque, de facto, seja o que for,  porque, desde que nós nisso insistamos, acaba por se desgastar, por nos fatigar, um pouco.

JTM -  Nunca se viu à beira da morte?

...procuro algo que esteja  além de mim...
V.F. - Já estive à beira da morte duas vezes: uma vez porque fui atropelado e estive inconsciente durante seis horas!... E outra vez foi quando tive um enfarte cardíaco e quase!... quase!... passei para o lado de lá!... Estive mesmo numa situação em que a minha mulher pensou que eu ia morrer, porque eu já não tinha consciência também... Estava a abrir e a fechar a bica, como um peixe fora da água...(sorrindo)

Mas devo dizer que, nesse momento, nesses momentos  - aliás quando fui atropelado -, não tive tempo de pensar porque... esse pensar apagou-se-me, porque, quando há perda de consciência (eu não sabia mas verifiquei por mim) a memória apaga-se-nos até uma hora ou duas horas antes do acidente!... Não assim, quando tive o enfarte, porque, nessa altura, eu vi a coisa progredir... justamente para o nada da morte!...

Não tinha tempo de pensar na morte, sentia-me apenas aflito!... Com um mal-estar tremendo!... E era só que me preocupava.

JTM - Portanto, não ficou assustado! Não teve consciência para ficar assustado?

V.F- - Não. O problema da morte, o facto de  me eu  preocupar com a morte, não significa que a morte me assuste!... As pessoas tendem a confundir essas duas coisas: uma coisa é o medo da morte, outra coisa é a intriga que a morte nos causa!...A mim a morte!....Dizer que não me importava de morrer!... Ou que nunca me importei de morrer?... Não é verdade... Importo-me tanto como as outras pessoas... Não é que a coisa me apavore!... E cada vez me importo menos à medida que o fim se chega: simplesmente uma coisa é isto, outra coisa é nós querermos encontrar uma resposta para esta oposição para duas realidades que se opõem flagrantemente: de um lado a vida com todo o seu milagre! e por outro  lado a morte com todo o seu martírio!... Portanto, a intriga deste problema é que sempre se me colocou!... Não é o problema do medo da morte...

Vejamos, por absurdo, que eu depois da morte eu me encontrava, de facto, a viver no além, com a minha autoconsciência, etc,etc... Também eu ficava surpreendido. ..
Agora, isso, de maneira nenhuma se me impõe: o que se impõe é que isto acabou definitivamente!... Mas, como não tenho razões nenhumas, exceto a vida interior  - a que há pouco disse - pois naturalmente não posso ter argumento nenhum para provar isso!... Mas, se por absurdo eu me encontrasse vivo depois da morte, não sei!... Ficava um bocado intrigado!... Mas não ficaria assim muito admirado disso!...
(...) Sabe que eu não acredito na sobrevivência para além da morte, não acredito nisso... O problema, intriga-me!... Outros acreditam que sobreviverão... Pois, não tenho argumento nenhum contra eles!... Eles não têm nenhum argumento a opor-me a mim!... 

O problema é assim: toda a condução da minha vida; tudo aquilo que eu tenha que pensar em função da vida e da morte, centra-se nesta certeza:  de que, realmente, depois da morte não há nada. 

Ao autor " Espaço do Invisível - Entre o espaço visível o mistério do além

Há uma voz obscura no homem, mas essa voz é a sua. Há um apelo ao máximo, mas vem do máximo que ele é. Há o limite impossível, mas é do excesso que é o próprio homem.” Vergílio Ferreira (Espaço do Invisível 1)


“Homem de diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística. Vergílio Ferreira
Literariamente, começou por ser neo-realista (anos 40), com "Vagão Jota" (1946), "Mudança" (1949), etc. Mas, a partir da publicação de "Manhã Submersa" (1954) e, sobretudo, de "Aparição" (1959), Vergílio Ferreira adere a preocupações de natureza metafísica e existencialista. A sua prosa, que entronca na tradição queirosiana, é uma das mais inovadoras dos ficcionistas deste século.
O ensaio é outra das grandes vertentes da sua obra que, aliás, acaba por influenciar a sua criação romanesca. Temas como a morte, o mistério, o amor, o sentido do universo, o vazio de valores, a arte, são recorrentes na sua produção literária. Além disto, Vergílio Ferreira deixou-nos vários volumes do diário intitulado "Conta-Corrente". Das suas últimas obras destacam-se: "Espaço do Invisível", "Do Mundo Original" (ensaios), "Para Sempre" (1983), "Até ao Fim" (1997) e "Na tua Face" (1993). Recebeu o Prémio Camões em 1992. https://www.wook.pt/autor/vergilio-ferreira/17635

Eis o que escreveu no dia em que completava 64 anos, publicado na Conta-Corrente 1980-1981, após ter tido um acidente vascular:

28 Janeiro (segunda). Aqui estou, pois, no gueto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou a entrever. Dá-se o caso, aliás, de cumprir hoje 64 anos . Sem cometários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e viva está sensação de que tudo está feito, de que é perfeitamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. É curioso. E já agora talvez que venha a refletir um pouco no que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos>> da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não  é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacóide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que me faço no dia do aniversário.

Entretanto, o mundo, que é um pouco maior do que nós (será?), vive numa tensão pavorosa. A URSS invadiu o ,Afeganistão. O imperialismo que vive nela e ela tem  tentado disfarçar, desta vez veio ao de cima sem disfarce. Mas não há inconveniente para a fé dos correligionários. Contei na Alegria Breve a história (real) de uma rapariga que negava estar grávida, mesmo quando o medico lhe fez saltar o leite do perco. Bom. E como sobremesa da invasão, a prisão deSakarov, A Tarde pediu-me um depoimento. Lá o dei. Outros «intelectuais» o deram também. Cito o da Agustina: depois de nos dar a extraordinária notícia de que os governos estáveis são normalmente «maquiavélicos», acha que «não há sínteses felizes para definir a política das persuasões» .. Não sejamos ambiciosos. Há à que é para entender e o que é só para admirar"


"Vergílio Ferreira iniciou a sua actividade literária na década de quarenta do século XX.  - Seduzido pela força do neorealismo, sofrerá uma sensível mudança que o tornou marginal à ideologia marxista, mas que o afastará também do catolicismo. O que essencialmente o fez mudar, como ele próprio escreveu, não foi a aspiração ao humanismo e à justiça, mas um conceito prático de justiça e de humanismo, pois que se os modos de concretização de um sonho podem sofrer correcção, não o sofreu neste caso, a aspiração que visava concretizar. Transparecia seguramente nesta mudança. - Mais pormenores em http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/1910j.html


Fernando Pessoa - "Pastor do Monte, Tão Longe de Mim" - "EU NUNCA GUARDEI REBANHOS"

Jorge Trabulo Marques - Jornalista




Desenho do pintor João Neves
Tributo ao Poeta  - E em memória do pastor  Miguel, um pastor da minha aldeia, que não conheceu outra vida, desde adolescência que não fosse a da pastorícia, descendo e subindo montes e ladeiras  ou por entre os cinzentos penedos de granito: palmilhando, desde o romper do dia ao pôr-do-sol,   sem um dia de descanso, fosse domingo, feriado ou dia santo, sempre, sempre girando, à frente do seu gado  - Morreu, há uns anos, já de avançada de idade, numa das encostas do Rio Côa, junto das suas amadas ovelhinhas.  

Aqui lhe dedico este poema de Fernando Pessoa

Pastor do Monte, Tão Longe de Mim
Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol
.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"






EU NUNCA GUARDEI REBANHOS

Heterónimo de Fernando Pessoa

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estacões
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

 Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

 Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.


Desenho de João Neves
FERNANDO PESSOA - "Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 1888 (onde virá a falecer) e aos 7 anos partiu para a África do Sul com a sua mãe e o padrasto, que foi cônsul em Durban. Aqui fez os estudos secundários, obtendo resultados brilhantes. Em fins de 1903 faz o exame de admissão à Universidade do Cabo. Com esta idade (15 anos) é já surpreendente a variedade das suas leituras literárias e filosóficas. Em 1905 regressa definitivamente a Portugal; no ano seguinte matricula-se, em Lisboa, no Curso Superior de Letras, mas abandona-o em 1907. Decide depois trabalhar como "correspondente estrangeiro". Em 1912 estreia-se na revista A Águia com artigos de natureza ensaística. 1914 é o ano da criação dos três conhecidos heterónimos e em 1915 lança, com Mário de Sá-Carneiro, José de Almada-Negreiros e outros, a revista "Orpheu", que dá origem ao Modernismo. Entre a fundação de algumas revistas, a colaboração poética noutras, a publicação de alguns opúsculos e o discreto convívio com amigos, divide-se a vida pública e literária deste poeta.
Pessoa marcou profundamente o movimento modernista português, quer pela produção teórica em torno do sensacionismo, quer pelo arrojo vanguardista de algumas das suas poesias, quer ainda pela animação que imprimiu à revista "Orpheu" (1915). No entanto, quase toda a sua vida decorreu no anonimato. Quando morreu, em 1935, publicara apenas um livro em português, "Mensagem" (no qual exprime poeticamente a sua visão mítica e nacionalista de Portugal), e deixou a sua famosa arca recheada de milhares de textos inéditos. A editora Ática começou a publicar a sua obra poética em 1942. No entanto, já o grupo da "Presença" tinha iniciado a sua reabilitação (poética e filosófica) face ao público e à crítica. © 2003 Porto Editora, Lda.
https://www.wook.pt/autor/fernando-pessoa/2103


Embaixador Costa e Silva - "O Brasil é o segundo país exportador de alimentos do mundo!" - Palavras do autor de mais de duas dezenas de obras, servindo o seu pais como um dos mais importantes intelectuais e diplomata-soldado

JORGE TRABULO MARQUES - EM MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER DA EXTINTA RÁDIO COMERCIAL-RDP -  Privatizada em 1993- Imagens recolhidas da Web 

Embaixador do Brasil, Alberto da Costa e Silva  - Lisboa 1990  "Um diplomata é como um soldado!  - Ele está ao serviço do seu pais onde o governo considere adequado” - E  o atual orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,  Prémio Camões de 2014 com quase 89 anos,  africanista, poeta, memorialista, ensaísta e historiador, um dos mais importantes intelectuais brasileiros e especialista na cultura e na história de África, com mais de duas dezenas de obras, serviu o seu pais 38 anos, em diversos cargos diplomáticos 


 - 
Entrevista ao Embaixador Brasileiro, Alberto da Costa e Silva, que me concedeu, em 1990,  em Lisboa, na Embaixada do Brasil, em Lisboa, para a Rádio Comercial-RDP, que hoje aqui recordo, com muito gosto, embora nalguns minutos finais, a cassete, dada a sua antiguidade,  denote alguns sinais de sobreposições anteriores, sim,   em mais uma das várias centenas de registos sonoros, com várias figuras públicas  portuguesas e dos PALOP, além de muitas outras a pessoas anónimas, bem como  entrevistas a presidiários,  assim como inumeros apontamentos de rua
 “Alberto da Costa e Silva nasceu em São Paulo no dia 12 de maio de 1931,  além da sua carreira diplomática de 38 anos e da sua vasta obra literária, representou o Brasil em numerosas reuniões internacionais, tendo sido delegado do Brasil na reunião da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, em Adis Abeba, em 1961; representante pessoal do Ministro das Relações Exteriores nos encontros ministeriais, realizados em São Domingos, em 1984, pela Organização dos Estados Americanos, para a preparação das comemorações do V Centenário do Descobrimento da América; e representante pessoal do Ministro das Relações Exteriores na Reunião dos Ministros das Relações Exteriores do Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política (Grupo do Rio), em 1991”. 
 Alberto Costa e Silva – "Não é fácil conciliar a vocação de poeta a nada!.. Acho que o mais difícil que há é a gente ser poeta!.. Qualquer poeta precisa de ócio! E, a vida profissional, o mundo contemporâneo, pouco ócio nos dão! Por isso é que eu tenho uma admiração, muito grande pelos poetas que conseguem escrever decentemente - Declarou-me, entre outras confissões, numa honrosa e amável entrevista, que me concedeu, em 1990, no seu gabinete da Embaixada do Brasil, em Lisboa,  no termo da sua missão, em Portugal, antes de partir para a Bogotá, Colômbia - 
Questionado sobre se não receava ir para um pais de conflitos, onde há problemas com os narcotraficantes, começou por me declarar ter tido “uma grande alegria! Uma grande felicidade de passar estes quatro anos e meio em Portugal! Está terminando  este período: um embaixador brasileiro, só pode ficar, por li, cinco anos num determinado pais. De uma maneira geral, até ficam menos tempo, três quatro anos: Eu tive a felicidade de ficar quatro anos e meio.
Eu estou indo para a Colômbia! E não é   isso o que Sr. está dizendo: a  Colômbia é um pais belíssimo! É uma das paisagens mais belas do mundo! A sua capital de Bogotá, sempre foi considerada, desde o século XIX,  a capital mais culta do continente americano! É a cidade com mais livrarias, depois de Londres! É uma cidade com extraordinárias tradições culturais! A Bogotá é considerado Atenas das Américas!
É um país extremamente culto com uma tradição artísticas, literária e filosófica extremamente importante! É um país muito rico! É um país que tem 80 relações com o Brasil! Relações que nós temos procurado, nos últimos anos, ampliar, acrescentar!  É um pais que faz fronteira com o Brasil, com o qual nós temos um importantíssimo programa  densamente fronteiriço !Um país muito importante para o Brasil e, quero querer, também para o continente americano
Referindo-se depois às relações do Brasil com Portugal, disse que as relações entre os dois países cresceram muito! Basta dizer que, nos últimos anos, o Brasil, se tornou um grande investidor em Portugal: o ano passado, nós fomos o 4º país investidor em Portugal! É possível que, no decorrer deste ano, alcancemos o terceiro lugar: nós estamos consolidando uma posição económica importante e Portugal também no Brasil!
Os investimentos em Portugal, que, tradicionalmente já eram altos, já eram importantes,  têm também crescidos! E também o crescimento do comércio! Embora o nosso comércio ainda seja modesto para a intensidade das nossa relações, na realidade, o ano passado experimentou um crescimento de quase 100%! O que é um crescimento muito considerável!
JTM – Como é que explica a vida de muitos brasileiros para a Europa,e especialmente para Portugal? A que é que se deve esse facto?
Costa e Silva -  Na realidade, o Brasil se está internacionalizando:o Brasil, até há uns poucos anos,  era um país fechado sobre si mesmo! Mas, de há uns cinco seis anos para cá, objetivamente, as empresas brasileiras foram conquistando espaço, no mundo internacional! Nos negócios, nos investimentos! Na indústria, em tudo isso! E também os brasileiros começaram a viajar e  a instalar-se no estrangeiro.
O Brasil atravessa um processo de internacionalização, muito semelhante àqueles pelo qual passaram os Estados Unidos nos anos 10 e nos anos 20 deste século
JTM – Ainda em relação a esta situação, digamos, à chamada  crise económica com que se tem debatido o Brasil, eu gostaria de me referir aqui a uma afirmação do Sr. Embaixador, que diz   – já o afirmou algum tempo – que a crise económica no Brasil é perfeitamente explicável! Diz que é conjetural! Diz que o Brasil é a 7ª potência económica  do mundo! E que, os números do envelhecimento são espantosos! – Concorda com isso?
Costa e Silva -  O Brasil continua a crescer! A crise do Brasil é mais financeira que propriamente económica! É mais uma crise monetária de que de produção! A produção brasileira continua a crescer O Brasil continua a desenvolver novos espaços!
O Brasil é o segundo país exportador de alimentos do mundo! Nós continuamos a ter o 3º   super habite comercial do mundo! E nós somos os primeiros produtores de uma séria de artigos! E os segundos produtores de outra série de artigos! Os terceiros produtores mundiais numa série  de artigos! Nós hoje produzimos aviões, desde os produtos tradicionais, como o café, o açúcar, o algodão Até aviões! Até computadores! Até produtos industriais da mais completa sofisticação!
JTM – Sr. Embaixador! Tudo isso é muito bonito mas fala-se de uma grande inflação, que afecta nomeadamente as classe s mais desfavorecidas! Como é que explica isso? – E já agora gostaria também que me desse a sua opinião do atual Presidente da República.
Costa e Silva – Acho que o Governo está fazendo todo o esforço  para conter a inflação! A inflação é o grande problema brasileiro e não é um problema novo! É um problema que já se arrasta há mais de 25 anos!  E que, nestes últimos anos, tomou contornos de realmente alarmante! O problema brasileiro é realmente o problema inflacionário! E que nós estamos procurando fazer todos os esforços  para conter! Mas isso não quer dizer que, pelo facto do Brasil ter uma grande inflação, o Brasil deixe de ter uma grande produção! Pelo contrário: a produção brasileira continua muito grande! E o Brasil continua a ser um país, economicamente muito importante no mundo! E um pais com quem se tem, necessariamente, de contar.

 JTM – Que influência considera ter recebido de seu pai, também ele um diplomata e um grande poeta?
Costa e Silva – Não. Meu pai não foi diplomata: meu pai foi um grande poeta! Meu pai quis ser diplomata! Mas não foi diplomata porque ele era muito feio! Ele era tão feio, que, o Barão do Rio Brando, naquela época de declínio, não dava para representar os diplomatas brasileiros em lugar algum! Nem dormindo!...
(...) Então por causa dessa recusa do Barão do Rio Branco, acabei-me vingando, duplamente,  do Barão do Rio Branco: não sou apenas o filho do poeta e diplomata, como também o meu filho é diplomata!
De maneira, que nós nos vingámos duplamente! Tirámos uma desforra dupla do Barão do Rio Branco!
JTM – O Sr Embaixador já escreveu vários livros! Neste momento, disse-me que tem pronto a entregar  um livro no prelo!
Costa e Silva  - Eu entreguei, há dez dias, à “Nova Fronteira” do Rio de Janeiro, um longo livro meu que se chama  “A Enxada e a Lança” e que tem por fim o título A África e os Portugueses – Foi um livro que eu comecei a escrever quando era Embaixador do Brasil , em Lagos na Nigéria e pude, nos meus sábados e domingos, quando me era permitido, e terminar de redigir aqui em Lisboa.
É um livro no qual eu me demorei dez dez anos! Eu não tenho muito tempo para escrever; sempre levei muito a sério as minhas atividades diplomáticas! Procurei cumprir sempre o melhor que posso! De maneira que, por causa disso, tive muito pouco tempo para ir escrevendo lentamente este livro, que entreguei há dez dias à editora Nova Fronteira, no Rio de Janeiro.
JTM – O Sr. Embaixador: então não uma tarefa muito fácil conciliar a escrita, a devoção de poeta às obrigações diplomáticas?
Costa e Silva – Olha não é fácil conciliar a vocação de poeta a nada!.. Acho que o mais difícil que há é a gente ser poeta!.. Qualquer poeta precisa de ócio! E, a vida profissional, o mundo contemporâneo, pouco ócio nos dão! Por isso é que eu tenho uma admiração, muito grande pelos poetas que conseguem escrever decentemente! Porque, realmente, são pessoas extraordinárias! Que conseguem cumprir o seu dever, com uma devoção, com um devotamento mesmo nos momentos de grande cansaço! E que, às vezes, pessoas mais fracas, como é o meu caso, não conseguem.
JTM – Uma última pergunta: E então é chegada altura do diplomata dar tranquilidade ao poeta! Deixar de sofrer!  E, depois de muitos anos de exílio  fora do seu pais, continuar adiar o sonho?  - Eu digo isto, porque li  num poema seu”Aqui  estou enterrado! Jamais sinto morrer longe de casa! Mas sofri muitos anos de exílio  simultâneo! Gastei-me noutras terras! Fui de mim uma sombra emigrada! Rogo um sonho!" -  Será que esse sonho vai continuar adiado?
Costa e Silva – Eu creio que sim! Por mais uns três ou quatro anos!... Depois, quem sabe!... Se ainda há tranquilidade, o poeta renasce com mais força ou, então, simplesmente descubro que toda essa minha faina pelo trabalho, meu gosto pelo trabalho, não era uma maneira natural, desde de passar uma fraqueza natural do poeta! E não  ficar tão triste comigo mesmo, por causa disso!
JTM – “Vida cigana! De embaixada em embaixada! “ – Disse Vergilio Ferreira a seu respeito, receando, com isso, o risco de se  perder o grande poeta! – Será que, essa sua ida para a Colômbia, é o acumular de uma experiência enriquecedora ou o fracasso do Poeta? Ou, enfim, será também  uma oportunidade do poeta  de se enriquecer ou, realmente, a altura do poeta ter o seu palco?  
Costa e Silva – Não sei se o poeta se vai enriquecer! Eu sei que o homem, tem ao longo da sua vida de diplomata, enriquecido muito! Tem visto novas paisagens! Novas maneiras de viver! E conhecido novas pessoas! E eu tenho a impressão que nós vivemos para vivermos a experiência do homem!... E eu acho que essa experiência do homem, que eu tenho vivido. Eu tenho buscado viver intensamente! – Muito obrigado
BIOGRAFIA 
Alberto Vasconcelos da Costa e Silva nasceu em São Paulo no dia 12 de maio de 1931, filho de António Francisco da Costa e Silva e Creusa Vasconcelos da Costa e Silva. É poeta, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras. Um dos mais importantes intelectuais brasileiros e especialista na cultura e na história de África. Publicou diversos livros sobre o assunto, como A enxada e a lança (1992), A manilha e o libambo (2002), Um rio chamado Atlântico (2003) e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004). Escreveu Castro Alves, um poeta sempre jovem (2006), para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. Também é autor de livros infantojuvenis, como Um passeio pela África (2006) e A África explicada aos meus filhos (2008). Em 2009, publicou O quadrado amarelo, que reúne textos sobre arte e literatura, cruzando referências populares e eruditas, recorrendo à memória e às suas experiências de viagem. Além dos Poemas reunidos (2000), publicou dois volumes de memórias, Espelho do Príncipe (1994) e Invenção do desenho (2007). Entre os prémios e distinções que recebeu estão os títulos de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé, Nigéria, 1986) e pela Universidade Federal Fluminense (2009) e o prémio Juca Pato de Intelectual do Ano (2003) da União Brasileira de Escritores. Ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, desde 2008 dirige a coleção das obras completas de Jorge Amado para a Companhia das Letras. Foi distinguido com o Prémio Camões de 2014https://www.wook.pt/autor/alberto-da-costa-e-silva/11446 
Carreira diplomática -Secretário na Embaixada do Brasil em Lisboa (1960-63) e na Embaixada de Caracas (1963-64); Cônsul em Caracas (1964-67);Auxiliar do Secretário-Geral de Política Exterior (1967-69); Secretário na Embaixada em Washington (1969);Oficial de Gabinete e Assessor de Coordenação do Ministro das Relações Exteriores (1970-74);Ministro-Conselheiro na Embaixada em Madri (1974-76); Ministro-Conselheiro na Embaixada em Roma (1977-79); Embaixador em Lagos, Nigéria (1979-83) e cumulativamente em Cotonu, República do Benim (1981-83); Chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores (1983-84); Subsecretário-Geral de Administração do Ministério das Relações Exteriores (1984-86); Embaixador em Lisboa (1986-90);Embaixador em Bogotá (1990-93); Embaixador em Assunção (1993-95); Inspetor-Geral do Ministério das Relações Exteriores (1995-98). https://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/alberto-vasconcelos-da-costa-e-silva