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domingo, 27 de janeiro de 2013

Acidente de Alfarelos: a verdade do inquérito: não houve tempo de pegar numa lanterna e a bandeira vermelha para dar o sinal ao IC antes de entrar na estação e evitar o choque? O mais importante ficou por explicar no relatório mais político que conclusivo



Estas questões não têm a ver com questões místicas, é verdade, mas puseram muitas vidas em perigo - E, se não passaram para o lado de lá, foi porque a boa estrelinha, nessa noite, não as esqueceu-

Quando um comboio se aproxima de uma estação, e ali deve efectuar uma paragem ou fazer um desvio para permitir a passagem de um comboio de longo curso, é suposto que alguns quilómetros antes abrande a marcha


- Não é o que se depreende das conclusões do relatório preliminar - As conclusões estão distorcidas e refugiam-se em questões de deslizamentos, quando, afinal, o acidente denota mais falhas humanas de que ordem mecânica ou de sinalética

Diz o relatório da Comissão de Inquérito: "No dia 21 de Janeiro de 2013 cerca das 21,11 o comboio Regional (....) ultrapassou o sinal SI da Estação de Alfarelos na posição de fechado"

4. O sinal SI da Estação de Alfarelos encontrava-se na posição de fechado, tendo sido ultrapassado indevidamente pelo comboio Regional  N.4523 em 269 metros.

19h5521h121h17

 - Este é o horário oficial . 21.12 h e não 21.11


O Comboio chegou com um minuto de avanço - Pois, o horário oficial de chegada, nos horários da Internet, apontam  para as 21.12.  O que significa que o comboio ia largado (é o que acontece com as habituais travagens bruscas do Metro, há que gosta se fazer das máquinas brinquedos) e deveria ter começado a abrandar a sua marcha, antes de chegar à estação - Tanto mais, que ao deparar-se-lhe o sinal amarelo fixo, ele só estancou o andamento 269 metros mais à frente - Incapacitado de fazer o desvio para permitir a passagem do IC

 INCAPACIDADE PARA TOMAR OS PROCEDIMENTOS MAIS ACONSELHÁVEIS -

 - Em vez de darem o alarme, avançando na linha com a bandeira vermelha e lanterna apontada (e tiveram tempo para o fazer) toca a telefonar para Lisboa a "aguardar instruções sobre o procedimento a adotar"  - E assim se escoaram os minutos - E, nestas coisas, uns segundos a menos ou a mais pode ser a morte do artista

 DEPOIS TUDO SE PRECIPITOU E NÃO HOUVE FRIEZA OU DISCERNIMENTO PARA  EVITAR O ACIDENTE QUE SURGIRIA COM O IC.- PÔS-SE A  FALAR PARA LISBOA - "O maquinista deste comboio contatou  o CCO de Lisboa, informando o sucedido e ficou a aguardar instruções sobre o procedimento a adotar (recuar ao sinal ou prosseguir a marcha)" 


 Se o comboio já estava para lá do ponto de cruzamento! - Pois, dada a impossibilidade de efectuar a manobra, o que importava era dar sinal ao maquinista do IC do obstrução da via - Procedimento que não foi observado


- À velocidade que o Regional viajava, tanto fazia estar amarelo como verde - O comboio ia embalado, chegou um minuto mais cedo da hora prevista - Um minuto a quase cem à hora é muito - De referir que, o comboio entra a mais de 80 km na Estação e vai ser bloqueado a 269 metros, depois de atingir ainda mais de 90 km/h de aceleração - Com estas evidências,ainda precisam de mais explicações?!...  - No final deste post poderá ler - o relatório na íntegra, que nós analisámos. 




"Alfarelos: O espelho de um país, uma desgraça adiada".




"O acidente ocorrido no passado dia 21, na Estação de Alfarelos pelas 21.15H, entre um comboio Intercidades e outro Regional, vem trazer, mais uma vez, para a ribalta as condições de segurança em que circulam os nossos comboios. Depois de lutas intensas, por parte dos maquinistas e restante pessoal circulante, para a implementação de um sistema de controlo e segurança, depressa se verificou que o sistema implementado não era completamente eficaz, pois apenas fornece informação pontual, ao invés de permanente, como acontece noutras redes e seria lógico. Como tudo o resto nesta sociedade, a exploração desenfreada e o investimento público reduzido ao mínimo indispensável, sobrepõem-se aos interesses gerais da população e aqui até à segurança."

A estação de Alfarelos está inserida na Linha do Norte, na qual o sistema de cantonamento é o de Bloco Orientável, com comando central em Braço de Prata (Lisboa). O controlo de entrada e saída daquela estação é contudo comandado localmente por uma mesa que já data dos anos 60, do século passado. Só por si, daqui não viria qualquer mal, não fosse o facto da tecnologia utilizada estar há décadas ultrapassada e a manutenção ser deficiente, com aliás quase tudo o que diga respeito a material ferroviário, independentemente da empresa que o detém. Esta mesa estava programada para ser substituída no próximo mês". - 

 NÃO HAVIA UMA LANTERNA UMA BANDERINHA À MÃO? - QUANTAS ATERRAGENS DE HELICÓPTEROS SE FAZEM, COM AUXILIO DE LANTERNAS,  EM ATERRAGENS IMPROVISADAS NO PALCO DOS COMBATES?

No relatório não consta que, tanto o maquinista do Regional, como o funcionário da Estação, procurassem quaisquer meios ao seu alcance - ou por telemóvel ou com sinais de lanterna e de bandeira - para avisar o maquinista do IC do perigo que o esperava. 







Vejamos  -A cronologia dos factos - Segundo o Relatório

"No dia 21 de Janeiro de 2013 cerca das 21,11 o comboio Regional (....) ultrapassou o sinal SI da Estação de Alfarelos na posição de fechado em cerca de 200 metros" - E porquê - Hora prevista para as 21.12 e chega às 21.11 "

Se chegou às 21.11  - comprova-se que chegou 1 minuto mais cedo - Este é o horário que consta na Internet 

19h5521h121h17


Quando se encontrava parado a aguardar instruções  do CCO de lisboa, no sentido de prosseguir a marcha, embateu na sua retaguarda o comboio Intercidades Nº 529

Do acidente resultaram, de acordo com informações do CDOS da Autoridade  Nacional de Proteção, 13 feridos ligeiros


Resultaram ainda elevados prejuízos  materiais para  na UTE´s, locomotiva  5613 e carruagem envolvidas, bem como nas infraestruturas ferroviárias





3 (...) A aproximação  da Estação de Alfarelos, o comboio Regional N.4523 abordou o sinal de cantonamento permissivo 1960A, que antecede o sinal  o sinal principal S1, apresentando o sinal de amarelo fixo

"O sinal SI da Estação de Alfarelos encontrava-se na posição de fechado, tendo sido ultrapassado indevidamente pelo comboio Regional  N.4523 em 269 metros."

O confirma que o comboio vinha em excesso de velocidade: Quando um comboio se aproxima de uma estação, e ali deve  fazer um desvio para permitir a passagem de um comboio de longo curso, é suposto que alguns quilómetros antes abrande a marcha 

ULTRAPASSA O SINAL AMARELO FIXO  A MAIS DE 80 KM/H  - DEPOIS, COM A TRAVAGEM, DESLIZA  ATÉ À VELOCIDADE DE  91,5Km

"De acordo com o relatório de análise aos dados de unidade do registo do CONVEL da UTE 257 verifica-se que:
a. A passagem do  sinal 1960A o comboio 4523 circulava à velocidade de 81Km/h
b. Ao PK 195.792 o maquinista deste comboio atuou o freio, quando circulava à velocidade de  de 91,5 Km/h, permanecendo o mesmo atuado até ao momento da imobilização do comboio

PATINA DE 91,5KM/H PARA 94,5KM/H - É PARA SE VER COMO O COMBOIO IA LARGADO

c. "Circulando o comboio o comboio a 94,5Km/h e durante o processo de frenagem, verificou-se o início da patinagem, ao PK 196.844, que persistiram até à sua imobilização"





O RELATÓRIO É OMISSO DA HORA DO EMBATE  DO INTERCIDADES COM O REGIONAL 

Há noticias que dizem que foi às 21, 25 Na noite de ontem, pelas 21:25, na Linha do Norte, em Alfarelos, aconteceu um grave acidente ferroviário, que envolveu 2 comboios da CP (Listed CPP 094), um Intercidade e um Regional, que chocaram entre si, provocando 21 feridos ligeiros" - 

Se assim fosse havia pelo menos 14 minutos para evitar a tragédia-  Nada foi fez nesse sentido - Também há noticias que dizem que apontam para as 21.15  - "O embate de um comboio intercidades na retaguarda de um regional, parado à entrada da estação de Alfarelos/Granja do Ulmeiro, na segunda-feira, pelas 21:15, provocou 21 feridos ligeiros. - Afinal, só houve 11 feridos


ENTRETANTO ACONTECE A TRAGÉDIA - SE O INTERVALO ERA DE 4 MINUTOS - MUITO POUCO, EM TODO O CASO, SEMPRE PERMITIRIA QUE O MAQUINISTA PEGASSE NA BANDEIRA E CORRESSE PARA A LINHA - E NÃO O FEZ - O SINAL AMARELO FIXO (AVARIADO), JÁ SOBRE A ESTAÇÃO, NÃO IMPEDIU O CHOQUE 

7. Entretanto o comboio Intercidades que circulava à tabela, fez a sua aproximação à estação de Alfarelos, tendo abordado o sinal 1960A, apresentando este o aspeto de amarelo fixo
8. O sinal SI encontrava-se na posição de fechado, tendo também sido indevidamente ultrapassado pelo comboio Intercidades  Nº529








1. O comboio regional  nº 4523 com origem na estação de Entroncamento às 19.55 e destino à estação de Coimbra

2. Circulava à  retaguarda o comboio IC 529 com origem da estação de Santa Apolónia às 19.30 e destino à Estação de Campanhã

3 (...) A aproximação  da Estação de Alfarelos, o comboio Regional N.4523 abordou o sinal de cantonamento permissivo 1960A, que antecede o sinal  o sinal principal S1, apresentando o sinal de amarelo fixo

4. O sinal SI da Estação de Alfarelos encontrava-se na posição de fechado, tendo sido ultrapassado indevidamente pelo comboio Regional  N.4523 em 269 metros.

5. O maquinista deste comboio contatou  o CCO de Lisboa, informamdo o sucedido e ficou a aguardar instruções sobre o procedimento a adotar (recuar ao sinal ou prosseguir a marcha);


6.De acordo com o relatório de análise aos dados de unidade do registo do CONVEL da UTE 257 verifica-se que:
a. A passagem do  sinal 1960A o comboio 4523 circulava à velocidade de 81Km/h

b. Ao PK 195.792 o maquinista deste comboio atuou o freio, quando circulava à velocidade de  de 91,5 Km/h, permanecendo o mesmo atuado até ao momento da imobilização do comboio

c. Circulando o comboio o comboio a 94,5Km/h e durante o processo de frenagem, verificou-se o início da patinagem, ao PK 196.844, que persistiram até à sua imobilização

7. Entretanto o comboio Intercidades que circulava à tabela, fez a sua aproximação à estação de Alfarelos, tendo abordado o sinal 1960A, apresentando este o aspeto de amarelo fixo
8. O sinal SI encontrava-se na posição de fechado, tendo também sido indevidamente ultrapassado pelo comboio Intercidades  Nº529

(...)
10. Através dos depoimentos recolhidos, conjugados com a análise dos relatórios do CONVEL e as constatações feitas no local pela Comissão de Inquérito verfica-se que o comboio Intercidades 529 embateu na traseira do comboio regional 4523 ao PK 197.782

Nas conclusões pede um aprofundamento - Para quando? O inquérito fica por aqui e acabou - O que importava era sacudir a água do capote

O IC ATÉ PODIA CIRCULAR A 15O KM/H  - POIS NÃO FOI ESTE COMBOI QUE CAUSOU O ACIDENTE
Mais se concluiu: que “O comboio Intercidades que embateu no comboio regional em Alfarelos, na segunda-feira, circulava a 130 km/h por sinal amarelo fixo 130 km/h, a dois quilómetros do acidente.” – Estes alguns dos excertos que  foram dados a conhecer à imprensa

 OS ASPECTOS ESSENCIAIS NÃO FORAM REALÇADOS - 


  •    No relatório lê-se que o maquinista do Intercidades, ao aperceber-se de que tinha o comboio regional parado na mesma linha,  agiu correctamente, ao tentar imobilizar a composição, tendo accionado o freio de emergência e os areeiros (despejando areia para maior aderência  das rodas aos carris). E também se diz que  o computador de bordo (Convel)  que o mesmo estava operacional  - Este sistema (controlo de velocidade)impede que os sinais sejam desrespeitados, sobrepondo-se a uma eventual distracção do maquinista.
  • Numa situação destas e, quando os comboios vêm à tabela, a perda de uns segundos pode significar  a morte do artista   - Sabendo que atrás vinha o  IC de Santa Apolónia, o que foi feito?   - Ou o maquinista não estava informado do tráfego?, 

  • Se, em vez de procurar uma explicação técnica,  afastasse primeiro o comboio da linha não teria sido preferível? - Mas, pelos vistos, estando imobilizado mais de duas centenas de metros à frente, como inverter a marcha?... Onde estava outra máquina para o fazer?... Atrapalhou-se e nem sequer se lembrou de pegar na bandeira vermelha e numa lanterna. 

  • Diz o relatório que se pôs a contactar o CCO de Lisboa para saber o que se tinha passado com o sinal, que, em vez de passar para verde, imobilizou-se em amarelo fixo - Estou mesmo a imaginar o tempo de hesitações e perguntas,  o tempo estupidamente perdido, com os tais contatos que dizem ter sido efetuados.  Mas tudo isto me cheira a esturro - Estivesse verde, vermelho ou amarelo, à velocidade que ali entrou, não deixava de avançar os tais 299 metros

  • - Pelo que me foi dado analisar do relatório, não me parece que tenham existido outras causas, senão a da já trivial complicação à portuguesa de tornar complicado o que é simples.

  •  – Quando o fogo ateia uma casa, a primeira coisa é:  ou fugir e chamar os bombeiros ou combatê-lo com o que se tiver à mão. – Pergunto: onde estava o chefe da Estação para accionar um alarme, pegar na bandeira e correr para um ponto onde o Intercidades o pudesse avistar antes  de ali chegar ou passar pela estação?  

  • Não há comunicações entre os comboios? Lisboa, ao saber do problema, porque não mandou parar o comboio que vinha atrás? 

  • Ou vinha mesmo um em cima do outros?  - Não posso acreditar - Um comboio regional pára em todas as estações e, a sua velocidade, além de ser mais reduzida, obriga forçosamente a que, o comboio de alta velocidade, ou lhe dê um espaço de tempo maior ou então é o mais lento que tem de se desviar para outra linha e o deixe passar - E era o que ali devia ser feito mas não se fez, devido ao excesso de velocidade do Regional - Não vejo que possa haver outra explicação. para uma composição que ali entra a mais de 80Km/h

  • Estas é que são as questões, que deviam  ter sido mais  aprofundadas e não andar por lá a ver onde é que o comboio, que vinha atrás, acionou a freagem ou começou a suster a marcha - O mais importante é saber-se a razão pela qual dois comboios, um regional e outro de longo curso, acabam por se chocar, sendo certo que, o tráfego rodoviário em Portugal, não é o mesmo que o de um grande aeroporto, em que os aviões, aterram ou descolam uns atrás dos outros 
"INCONCLUSIVO O RELATÓRIO?!... Relatório preliminar ao acidente de Alfarelos revelou-se inconclusivo"?!. - Essa é boa!

Poderá aqui consultar o relatório Relatório Preliminar de Inquérito - Clike:

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

José Mourinho Parabéns - Mas vai ter que mudar de ares - De regressar ao país que lhe deu visibilidade


Vou repetir o que disse no último dia de Dezembro: 


JOSÉ MOURINHO - ELEITO O MELHOR TREINADOR 2012 -José Mourinho foi eleito o melhor treinador de 2012 MAS COM UM FIM DE ANO ATRIBULADO - 2013 SERÁ MELHOR?... PESSOALMENTE DESEJO-LHE BOA SORTE    - A TAÇA DOS CLUBES CAMPEÕES EUROPEUS ESTÁ-LHE NA RETINA DOS OLHOS - HÁ PORÉM  OBSTÁCULOS VERDADEIRAMENTE CICLÓPICOS PELA FRENTE 

 José Mourinho veio passar o Natal na sua terra e disse estar de "consciência tranquila": sabe o que vale e sabe que o Real  tem estado a valer pouco: há por lá enguiço interno: ou o extirpa e dá a volta por cima (há um troféu ao seu alcance) ou faz as malas - O mau é que ele tem vindo  a deixar falar mais o coração de que a frieza e a serenidade - Ele sabe dar a volta, quando os outros já lhe abrem a cova, mas tem vindo a revelar alguma dificuldade em deixar a emotividade, quando é preciso ter os nervos de aço.




O Real Madrid tem bons atacantes mas está demasiado fragilizado na defesa e na baliza: - se ele não resolver esse problema, agora em Janeiro, pode fazer as malas e ir até França ou voltar a Inglaterra. A substituição de Iker Casilhas tem sido um fracasso.  Em todos os aspectos. Casilhas já deu o que tinha a dar; está em queda, é um facto - Mas qual o adepto capaz de o reconhecer a queda do seu mito?!.. E António Adán não revelou estar acima do nível do lendário guarda-redes da selecção espanhola. E, pôr no banco dos reservistas, aquele que ainda continua a ser o maior símbolo do futebol espanhol, é cartada demasiado arriscada. Casilhas, nasceu a 20 de Maio,  no antepenúltimo dia do  signo Touro: este signo tem uma personalidade muito forte, não tolera ser marginalizado - Escusado será dizer que jamais lhe perdoará a despromoção. (Técnico José Mourinho e Iker Casillas se reencontrarão em treino aberto à torcida) 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA - UM CAMINHO DE PALAVRAS




 













As melhores homenagens que se podem prestar aos poetas, não creio que seja apenas depois de nos deixarem mas enquanto estão vivos e o seu pensamento ainda transmite a pulsação da  mais bela poesia -  É o caso de António Ramos Rosa  - Já aqui me referi a ele noutras postagens - Mas, hoje, nesta noite fria e chuvosa de Inverno, em que fiz os meus sessentas e tais (domingo mais chato, nem sequer saí à rua) enquanto ouço Nana Mouskouri, recostado na minha cama, pois a minha mansarda fica num desvão do telhado e é deveras insalubre, lembrei-me dele e de sua mulher. Lembrei-me de recordar   "o poeta da unidade vital" os agradáveis momentos que ambos me deram  a oportunidade de conviver em sua casa e até em curtos passeios próximo da sua residência, na Barbosa du  Bocage, em Lisboa  



- Durante alguns anos fui uma das suas visitas regulares  E, alguns deles, num período em que lhe transcrevia  alguns dos seus versos (uns escritos directamente no momento em que ele os criava) outros em que ele sentia alguma dificuldade em os datilografar e cujo manuscrito (quase imperceptível)  eu depois passava para o meu computador e lho devolvia impresso - Computador era palavra que ele não gostava de ouvir - Isto, porque, mesmo as palavras que ouvisse, tanto podiam ser o ponto de partida para um belo poema como a retração da inspiração poética - Uma ocasião ao ler-lhe uns despretensiosos versos sobre o mar, logo me ripostou com um lindo poema.  Sim, ele, embora gostasse do isolamento e do seu silêncio criador, também  adorava o convívio - Não era de muitas palavras, sobretudo ao fim da tarde, pois o seu dia começava cedo, mas a palavra - falada ou escrita  (felizmente, creio que ainda continua a ser) era para ele como que o respirar e a expressão do sagrado: do "Invisível, o Indizível "o tomar pulso e o peso à leveza de cada sílaba através da voz ou numa página em branco  - Conservo em cassete vários poemas lidos e alguns amistosos diálogos, bem como vários desenhos que me ofereceu. Faço-lhes aqui votos sinceros de boa saúde,  que, pelo que depreendi, da última vez que  visitei o casal na residencial Mantero,  já ia um bocado abalada.Com um abraço amigo a ele e à Agripina Costa Marques, excelente poeta, sua amiga e companheira de todas as horas, que me recebia em sua casa como se fosse um dos bons amigos.E cujas fotografias (que fiz a ambos) guardo no álbum das minhas recordações,  com a maior admiração e carinho.




Um caminho de palavras


 Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.


Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
  

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim


E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe


Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.

António Ramos Rosa






 

(...) O poema é devorado letra a letra por um silêncio 
que o atravessa sem tocar nas palavras nem no 
silêncio do poema

             Na aridez do frio
             Nenhum insecto vibra
             nem uma fibra estala

             Quem pode erguer o canto
             sem uma pedra
             sem uma sombra
             sem um grito

Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito

A impossibilidade  do canto é talvez a possibilidade 
de um impossível canto. Com as palavras nuas e
vazias de uma pobreza  exausta talvez possa ainda
ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas
e de frases na ausência do amor e no silêncio de
um corpo destroçado

            Só a palavra em branco
            e a ferida sem nome
            no silêncio

O sangue? Será sangue? No insondável  silêncio  em
que se abismam as palavras?

Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra
do silêncio inascessível o centro ausente da linguagem
o extremo em que a palavra  se destrói e renasce  no grito
em que se cala a palavra"


Excerto de um poema do livro "O Centro na Distância"
de António Ramos Rosa



19 de Maio (segunda)1980 - Excertos  de conta-corrente e - de Vergílio Ferreira

"Ontem, como muitas vezes, fui a casa do Ramos Rosa. Vou lá aos domingos, pela manhã, para um pouco da cavaqueira. Quase sempre trago livros, ele empresta, tem-nos sempre muito bons. E filosofamos um pouco sobre política, literatura, chatices da vida. Não é bom conversador o Rosa. A gente passa-lhe a bola e ele mete-a no bolso. Cala-se, hesita, ou diz apenas que sim.
Ontem diz que não. Foi a propósito da "inteligibilidade" da poesia. Está na berra, aliás, essa coisa da "inteligibilidade", tem sido mote para muita glosa. Ramos Rosa deve ser quem mais sabe  da poesia em Portugal. Conhece-os mesmo  de uma troca muito activa  de epistolografia . Um dia se há-de saber com alguma estupefacção  quanto ele conviveu e tem sido mote para muita por epístola  com os grandes nomes estrangeiros da poética contemporânea. Bom. Portanto, a "inteligibilidade". Isto a propósito do seu último livro, o Incêndio dos Aspectos, que eu prefaciei. Rosa está contente com o seu trabalho. Poesia "nova" no seu currículo, mesmo no currículo nacional. Várias das visitas que teve- porque a gente vai visitá-lo porque um pouco ao modo como os outros vão a Meca ou a Fátima ou a outro santuário - enalteceram-lhe os versos, discorrendo sobre eles com abundância. Já mo disse ao telefone. Porque, o seu convívio, desdobra-se pelo telefone e pela epístola." (...)


20 - Junho (sexta) Sento-em aqui , diante de uma folha de papel, e não sei que escrever.Sei que só preciso de escrever como quem precisa de andar, de se espegriçar, de fumar um cigarro. Decerto há sempre que dizer. O que nem sempre há é a motivação para escrever o que há, ou seja interesse em explorar isso para ser coisa para que se escreva. Mas, a certa altura, toca o telefone. É o Ramos Rosa. Telefona quase todos os dias pela necessidade de  premente de comunicar com alguém. Como eu sinto vontade de escrever, ele sente-a a telefonar. Como eu não sei que dizer, ele não sabe que dizer. Mas hoje disse alguma coisa. Alguém lhe dissera uma frase, o Arnaldo Saraiva, suponho, e a frase trabalhou-lhe o juízo. Era assim: "o pior de tudo é a morte". É uma frase banal- disse ele. E realmente. Aliás, esta frase, ou uma sua gémea, já a vi atribuída, salvo erro, ao próprio Satline. Mas depois da manipulação ou dos vários percursos que lhe fizera na mente, deu isto: "o pior de tudo não é a morte; o pior de tudo é que ela seja pior" Teria isto sentido que fosse  de o ser? - perguntou-me. Tinha. Para lho provar, dei umas  voltas à frase, amassei-a, estendi-a como se faz a massa do pão. O resultado não era bem o que ele julgava. Mas admitiu que fosse resultado de se aceitar. Citei mesmo  de Ácio , um primitivo latino, uma frase, uma frase que não tinha muito ver com a dele, mas enfeitava  por ser uma língua morta, ou seja,  inscrita já no eterno: mors misera nom est, aditus ad  mortem miser est - "o que custa não é estar morto, o estar para morrer". E em fase desta sublime dissertação, demos um abraço pelo telefone e desligámos. E, em face disso, acabei afinal por ter alguma coisa para escrever" Vergílo Ferreira

Vergílio Ferreira 

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