expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

sábado, 6 de outubro de 2018

AMÁLIA RODRIGUES - A DIVA DO FADO - MORREU HÁ 19 ANOS - MAS A SUA VOZ CONTINUA ENTRE NÓS - O MEU TRIBUTO, COM A ENTREVISTA QUE ME CONCEDEU EM SUA CASA, ATUAL EDIFÍCIO MUSEU AMÁLIA

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador   - Ouça o Vídeo, dividido em duas partes - separadas por um breve separador musical - excertos da entrevista e a discussão As outras confissões ficam no segredo dos deuses - Transcrição do post que editei há seis anos neste site



O episódio, que aqui documento, com um vídeo -  deve ter sido um caso inédito na vida da mais famosa  figura da música portuguesa.  Divulgo hoje aqui uma parte da entrevista, não pelo facto que considere  as revelações escandalosas, longe disso, mas pelo respeito à sua vontade e à sua memória  - E jamais o farei em qualquer rádio ou televisão, seja a que preço for. Andei dois anos sem aparecer à sua frente...Até que por fim fizemos as pazes


Passam hoje 19 anos sobre morte de Amália Rodrigues, uma das mais brilhantes cantoras do século XX. Está sepultada no Panteão Nacional, entre os portugueses mais ilustres. - De seu nome completo, Amália da Piedade Rodrigues, os pais eram da região de Castelo Branco mas nasceu em Lisboa, 23 de Julho de 1920, faleceu  na mesma cidade, que tantas vezes cantou e celebrou com a sua voz e timbre inigualáveis, em  6 de Outubro de 1999 - Além de fadista, escreveu também poemas e participou como atriz em vários filmes - Foi a maior embaixadora da música portuguesa de todos os tempos.

 Precisamente por esse facto - como um gesto da minha singela homenagem à grande Diva do Fado, que, por três vezes me deu a honra de me receber em sua casa -  vou aqui dedicar-lhe  esta postagem em sua memória  - Com uma particularidade muito especial -  A de que, a entrevista inédita, que,  parcialmente, aqui reproduzo, em vídeo, possa também constituir-se  como mais um interessante contributo para  estudiosos e admiradores da mítica  personalidade da Rainha do Fado

CLIKE E OUÇA ESTE VÍDEO - PARTE DA ENTREVISTA E O REGISTO DA DISCUSSÃO, QUANDO A ENTREVISTA FOI ABRUPTAMENTE INTERROMPIDA - AS IMAGENS FORAM RETIRADAS DE FOTOS DOS SEUS ÁLBUNS

  


A ENTREVISTA  QUE NUNCA DIVULGUEI - SENÃO AGORA PARCIALMENTE

Vou revelar apenas um breve excerto, assim  como na íntegra o  diálogo subsequente após a inesperada interrupção da entrevista - Repito: não as confissões mais íntimas. Estas jamais o farei por respeito à sua vontade - Tal entrevista inserira-se numa série de entrevistas, que me foram encomendadas pelo semanário Tal & Qual, com várias personalidades da vida portuguesa, acerca da "primeira vez" vez,", ou seja, sobre a primeira  relação sexual - Foi no principio da década 80, num período em que, certos tabus,  acerca  da sexualidade,  se rompiam graças aos ventos da revolução de Abril - Entre as figuras entrevistadas , contam-se: Carlos Botelho, Graça Lobo, Simone de Oliveira, Raul Solnado, Vitoriano Almeida, Ary dos Santos, Narana Coixoró, Raúl Calado, Ivone Silva, Afonso Moura Guedes, entre outras figuras  - A Amália aceitou o desafio mas, a dada altura do momento da entrevista, arrependeu-se
. 
 Telefonara-lhe na véspera e ela havia manifestado a sua concordância. Mas, às tantas da gravação, arrependeu-se e quis ficar-me com o gravador e a cassete. E eu não tive outro remédio senão tirar-lho da mão e precipitar-me numa corrida apressada  pelas escadas abaixo,  à frente dela e do grupo de  amigas, que se encontravam em sua casa.

Mais tarde, no final da sessão do lançamento da sua biografia, Estranha Forma de Vida, fizemos as pazes, selando o reencontro dando-me o prazer de a fotografar, numa pose de fadista, frente ao retrato da Severa - E, embora me autorizasse a divulgá-la, não o fiz nem o vou fazer - Senão apenas reproduzir um breve excerto. inócuo, e o diálogo subsequente(este sim, na íntegra) quando me esforcei por convencê-la a fazer uma segunda entrevista mais ponderada. - Só que, ao mesmo tempo que procurava desagravá-la para gravar outra, ia gravando também a conversa que ambos íamos travando - Por feliz coincidências, acabei por ficar com ambos os registo


Tal como já havia referido noutra postagem deste site, Naturalmente que não se tratou de uma fuga por agressão ou assalto. Mas de preservar um instrumento de trabalho.

AS PAZES...E A HOMENAGEM DE UMA FOTO EXCLUSIVA
A fotografia que aqui edito, com uma pose de fadista, da Amália, à frente do retrato da Severa, foi registada no dia do lançamento do livro, " Uma Estranha Forma de Vida", de autoria de Vítor Pavão dos Santos , que teve lugar na Adega Machado - A imagem é de minha autoria e trata-se de uma pose, espontaneamente da Amália,  selando, de forma gentil, artística e carinhosa,  o termo de um período de agastamento e distanciamento , depois da fuga precipitada de sua casa. A imagem foi obtida por uma pequena compacta de bolso.
Creio que houve mais uma pessoa que terá aproveitado a oportunidade para registar a mesma pose. Mas ela voltou-se, foi para mim e perguntou-me: "Você está aqui?!..." Eu respondi-lhe: "
Sim, estou aqui porque não hei-de estar aqui?!... Quem não deve não teme!... Amália, sabe dizer-me se alguma vez eu usei as suas palavras da entrevista? .. As transmiti ou as publiquei nalgum jornal?!...Desculpe não ter-lhe dado a cassete e tê-la deixado se calhar preocupada mas Amália também queria o gravador e eu não podia ficar sem ele" 

Porém, embora nesse reencontro, com o repórter,  reconhecesse que não havia razões para ficar preocupada, me autorizasse a divulga-la, mesmo assim decidi por enquanto não o fazer


-

Isto passou-se já na ponta final da cerimónia, quando os repórteres fotográficos e a maioria das pessoas, haviam saído. Eu fizera outras fotografias mas andara por ali discretamente. Aguardei para o fim, cauteloso, pois não sabia como ela ia reagir à minha presença: surpreendentemente foi amistosa: "Vá... então dê cá um beijinho e tire-me aí uma fotografia!"....

Não cabia em mim de contente.... Até já parecia que estávamos mais à vontade que o resto da sua comitiva...Finalmente acabou-se o pesadelo.. Autografou-me a obra (a que se juntou o autógrafo de Victor Pavão) e parti dali como se fosse um velho amigo....

Amália sempre foi um coração de oiro, expansivo, alegre e frontal; muito generosa e soube perdoar. Mas o nosso país pequeno demais para a sua grandeza mas uma grande quinta para os invejosos. Tinha muitas razões para se acautelar....Não foi a queda do regime que a magoou mas certos extremismos e oportunismos . Aliás, foi até depois do 25 de Abril, que Amália recebeu as maiores homenagens e distinções. .Foi condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então presidente da República, Mário Soares. Ao mesmo tempo, atravessa dissabores financeiros que a obrigam a desfazer-se de algum do seu património - In..Amália Rodrigues – Wikipédia,

Curiosamente as farpas vieram dos que se notabilizaram em boa parte à sua custa.. Foi alvo de boatos pelos jornais e por algumas pessoas de uma certa esquerda oportunista e extremista que se meteram na sua vida íntima e a  acusaram de gatos e lagartos. .







A ENTREVISTA FOI-LHE SOLICITADA POR TELEFONEMA DIRETAMENTE DO BOTEQUIM DE NATÁLIA CORREIA 

A entrevista foi congeminada e combinada no Botequim da Natália Correia - Aliás, tal como outras sobre o mesmo tema, publicadas no Tal & Qual. Tendo, até, por via disso, chegado a escrever no Diário de Notícias, em defesa de Afonso Moura Guedes, quando Vera Lagoa (Maria Armanda Falcão) o atacou nas páginas do Semanário O DIABO 

"Então porque não entrevista a Amália?!... Seria interessante sabermos como a nossa diva do fado se desvirginou!..." - A sugestão foi secundada por uma gargalhada geral. Pois a voz da Natália (mesmo que o Botequim estivesse cheio), distinguia-se perfeitamente entre a música do piano ou o barulho de outras vozes. Ainda conservo alguns registos gravados do ambiente e de ela a cantar: "Morte que Mataste Lira" - Em sua homenagem, aqui vai uma das canções que tanto gostava.
Nem mais um instante hesitei. Estava sentado junto ao balcão do bar. Fui à minha agenda, peguei no telefone, que estava mesmo ali à mão e disquei diretamente para casa de Amália. Era já um pouco tarde, pedi-lhe desculpa pelo adiantado da hora e disse-lhe que gostaria de lhe fazer uma pequena entrevista para o Tal & Qual - Acedeu “Já está combinada!... Vou lá amanhã!" - disse imediatamente à Natália "Parabéns!... Estou cheia de curiosidade" - remata a autora da Mátria 

Na tarde do dia seguinte, lá me apresentei no antigo solar da Amália, no 1º andar do nº 193 da Rua de São Bento - hoje transformado em Casa Museu - Amália  - Era a terceira vez que me dava o prazer de me receber em sua casa. Sim, na altura a concorrência da rádio e da televisão, não era como agora. Estava na companhia de Maluda e de um restrito grupo de familiares e pessoas amigas. A entrevista discorria sobre a primeira relação sexual. Mas a pergunta sacramental só viria depois do preâmbulo . E fui torneando a questão "mole e mole", como se diz em África: nunca lhe cheguei a dizer que o tema principal da entrevista era que me revelasse como tinha sido a sua primeira queca ou quem primeiro arranhou. Foi-se discorrendo... Houve que andar pelos preliminares... Até que, por fim, lá confessou o desgosto que a assolapada paixão lhe havia causado.




Recebeu-me de uma forma muito amável, no alto das escadas, muito sorridente, naquela sua expressão, a que o público também se habituou, sempre que aparecia em palco. Amália era íntegra, a hipocrisia e o fingimento não faziam parte do seu carácter. No fundo, era assim para toda a gente - para os amigos e gente anónima. Amália não tinha duas faces. Só quando cantava o fado, então é que o seu rosto era a dor ou a alegria das composições que interpretava.

Logo que transpus o último degrau, cumprimentou-me com um beijinho, levando-me de seguida para junto de um grupo de amigas, que estavam lá mais à frente, a um canto da casa do lado esquerdo e junto à janela, que corresponderam simpaticamente. E lá passei um grande bocado da tarde. Curiosamente, não se falava de outra coisa senão de sexo. Claro, de uma forma trivial: de fofoquices. Sem qualquer carácter obsceno. E foi com estas palavras que me apresentou às suas amigas: "
Você também gosta de falar de sexo?!... Elas são marotas!... Não faça caso que elas sabem muito mais do que eu!..." - "Estejam à vontade"- respondi. "Eu também gosto de conversar sobre essas coisas...

 E, de facto, mesmo reconhecendo que a conversa andava à volta de questões relacionadas com o amor, o sexo, episódios de namoricos, cenas de filmes românticos e coisas do género, tive a percepção de que, Amália, estava longe de imaginar a pergunta marota que eu levava engatilhada - Costuma-se dizer que as boas reportagens são aquelas que vêm ao encontro do repórter e não as programadas - E, em boa parte, foi o que sucedeu..Não manifestei a menor pressa em fazer qualquer registo no gravador. Por algum tempo, quase me ia esquecendo que estava ali para entrevistar Amália. Direi que não fui um participante activo nos diversos diálogos mas um ouvinte muito atento - Pois, embora bem recebido, não fazia parte do seu núcleo íntimo das suas amizades . Mesmo, perante um ambiente, tão descontraído, tinha de saber ocupar o meu lugar - E, quando se está perante alguém que diz coisas engraçadas, que nos dão prazer, é preferível falar menos e ouvir mais. Foi esse o meu papel 


De resto, Amália, até nem era das pessoas que mais falava. Gracejava, divertia-se dando umas piadas para apimentar a conversa.

Pelo que me apercebi, aquela restrita tertúlia, reunia-se com Amália, não tanto para lhe ouvir as histórias ou desabafos, mas para lhe servir de corte - Tal como os bobos e as damas na corte dos réis. Adoravam Amália e reconheciam-na como a diva, como a rainha. Estava lá também o irmão Vicente, a sua irmã Celeste e a pintora moçambicana Maluda e mais duas amigas. Não as reconheci, mas pareceu-me que eram as visitas especiais daquela tarde. Mas quem se impunha era Maluda - Sentia-se tão à vontade, que parecia fazer parte da casa, tal como o irmão e a irmã da Amália.

Maluda era de complexão forte - a saúde é que acabou por ser fraca e a levou cedo. Fazia parte do restrito grupo das pessoas íntimas de Amália - Também se promoveu à sua custa. Se não fosse essa relação estreita, estou convencida que as famosas janelas, pintadas pela artista moçambicana, teriam ficado no anonimato.
Não tinha papas na língua. Era ela a moderadora, quem trazia os temas à baila. E também a voz mais troante, até parecia ser a governanta da casa. O Vicente ria-se muito mas quase não abria a boca. A Celeste, também sempre muito alegre e participativa. As outras duas amigas, riam-se como as crianças, por tudo e por nada: - Riam-se do que contavam e das risadas que provocavam

Amália, mesmo não sendo a que puxava pelas histórias, era a voz que mais sobressaía. Sempre bem disposta. E com os seus apartes. Mas não falava dela. Se, no pequeno grupo, imaginássemos, em vez de pessoas, instrumentos ou uma sessão de fados, dir-se-ia que, as demais presenças, eram simplesmente instrumento de cordas, as guitarras que acompanhavam, e, Amália, a eterna cantadeira - Amália denotava uma grande sensibilidade e curiosidade em ouvir as pessoas que faziam parte do seu núcleo de amizade e gostava de as pôr a falar. As pessoas inteligentes não gostam de perder tempo a expandir-se em trivialidades. Mas sabem ser socáveis. E gostam de ouvir.

Deixava falar as amigas . Mas não se distanciava do diálogo. Era participativa. E as suas palavras (mesmo não cantadas) soavam com a sonoridade, que lhe é própria, tal como só ela as sabia dizer: soavam à voz inconfundível da grande fadista - A voz da Amália era sonoramente bela, falada ou cantada. O falar de Amália era tão agradável como os fados cantados - Como ela, dificilmente surgirá algum dia quem a imite.Já ali havia estado por duas vezes, em sua casa, mas apenas durante o tempo tomado para as entrevistas - Agora, de forma algo inesperada, passava ali uma tarde. - Sentia-me como se fosse uma visita habitual da casa da Amália - Até que, por fim, e vendo-a tão bem disposta, achei estarem reunidas as condições para lhe colocar algumas questões(delicadas) sobre a sua vida pessoal - "Como havia sido a sua primeira relação sexual"

E, não querendo que o barulho das outras vozes, pudesse afectar a qualidade gravação (mas sobretudo para estarmos mais à vontade) - perguntei-lhe se não se importava de nos sentarmos nutro sítio - Fui então que me conduziu para o lado oposto da sala, próximo do último degrau da escadaria, onde nos sentámos junto a uma pequena mesa, com o gravador sobre a superfície da mesma.

"Então diga lá o que me quer?!..." - pergunta-me ela, visivelmente bem disposta. Respondi-lhe: "Vamos falar sobre o que estavam a falar... Umas palavrinhas da Amália...Diga o que quiser sobre o assunto...E seja sincera como costuma ser e estavam a ser..Eu gosto muito de a ouvir cantar e também falar". Tive o cuidado de não usar o termo sexo para não lhe criar alguns antagonismos. Pese o facto, como disse, da conversa se haver estendido, praticamente sobre fofoquices desse género.

Sem dúvida, deram-me muito prazer aqueles momentos de convívio- No entanto, o meu objectivo principal era a entrevista, que eu não queria perder. Não tirava da mente esse desejo porfiado. Diria que agi (sem falsa modéstia) um pouco como o prestigiador. E, antes de contar o resto da história, vou explicar de seguida - talvez as razões de algumas dessas propensões

Devo dizer que, na conversa prévia, que tivera de véspera com Amália Rodrigues, eu fora um pouco omisso. Mas também devo sublinhar que não a traí porque as perguntas foram sempre muito claras, só que progressivas... Ao mesmo tempo que não deixava de a fixar... Encantado pelo que me ia dizendo... Não tanto pelo facto das suas confissões mas pela sua sinceridade. Claro que ela estava absolutamente segura do que dizia....Longe de se poder afirmar que estivesse hipnotizada... Só que se esquecera que havia ali um gravador... Mas, às tantas, lá se deu conta para onde estava a resvalar... e despertou para outra realidade... Depois foi um grande bico de obra, como explicarei adiante... Tive que sair de lá a correr... - Quase me ia precipitando ao descer as escadas... ela e a sua "corte" correram todos atrás de mim. Vieram até à rua... Só descansei, quando apanhei um táxi... E até o taxista se apercebeu, perguntando-me o que é que se havia passado à porta da Amália.

A Maluda era a mais danada e inconformada...Mal eu dei ares de desandar, correu logo atrás de mim, como uma cavalona... "És mais parva do que ele!... Foste logo a falar da tua vida pessoal!..." A sua ira dava em recriminar a Amália .Já nem sequer eu era o mau da fita, mas a sua amiga.

Estou convencido que se me apanhassem, tiravam-me o gravador e ainda levava uma tareia. A entrevista ficaria a meio. Ficou aí nuns 10 minutos. A Amália arrependeu-se e quis tirar-me a cassete e o gravador... "Sou uma figura pública!...Mas que tonta estou eu!... Que disparates estou eu para aqui a dizer?!..." Ainda tenho estes desabafos gravados. Ora, mas que culpa tinha eu de dizer aquilo que não lhe convinha dizer?!... Era adulta e crescida. De resto, até achava que não havia dito nada especial ou de escandaloso... Mas ela subitamente muda de opinião. Ainda lhe propus desgravarmos e começarmos outra entrevista, ainda anuiu mas acabaria por não aceitar. Eu é que não podia era ficar sem o gravador, porque não era meu mas da estação onde trabalhava - Tirou-mo das mãos. Tentou tirar a cassete do seu interior mas a mola estava partida e não saltava para fora.Eu disse-lhe: "Amália, tenha calma... Eu dou-lhe já a cassete... Dê-me o gravador por favor que não é meu ou então vamos começar de novo..."

Ela ainda chegou a concordar... Só que depois apercebeu-se que eu não estava a desgravar a entrevista ... Amália tinha um sexto sentido muito apurado.... Só era enganada se queria... Era muito inteligente e muito sensível. Ela quase adivinhava o que ia na cabeça das pessoas com quem falava... Fiquei com essa impressão... Tive esse eco... Ela captou os meus pensamentos como se fosse um radar a captar as mensagens do inimigo... Eu não queria perder o primeiro registo...Até para não ficar sem nada... Sobretudo à medida que ela própria valorizava a entrevista, a que eu até aí não atribuía nada de especial E Amália apanhou-me a vibração... Grande mulher!...Tinha essa ideia fisgada e ela pressentiu-a.. Não tive a menor dúvida. E já não havia nada a fazer senão procurar recuperar ao menos o gravador. E mais se convenceu da marosca, quando eu lhe disse: "Bom mas temos que nos calar senão vai ficar tudo o que agora estamos a dizer..."

Ficou então duplamente ainda mais preocupada e com a sensibilidade à flor da pele.... Rapidamente fez a leitura de tudo o que ia na minha cabeça... Subitamente senti-me como que desmascarado... Mas também nunca dei o flanco e procurei sempre proteger o meu tesouro...Se há coisa que poderá deixar mais frustrado um jornalista é ficar sem a sua entrevista ou sem a sua reportagem. Quantos não recolhem importantes "furos" de gravador escondido ou câmara oculta, mas o meu gravador estava ali pousado sobre a mesa. Ambos estávamos sentados e não havia ali nenhum jogo escondido. Não estava a cometer nenhum atentado ou crime à honra da Amália.

Já havia passado por uma experiência, com quase idênticos contornos, com as confissões de um elemento da ETA, em Las Palmas. Deu-me a entrevista à noite (contando-me como ele e o seu grupo haviam assassinado um general em Madrid - olhos vendados e de cano de pistola apontado aos ouvidos , jogando à roleta russa ), mas, o diabo do sujeito, pouco depois, arrependeu-se e foi bater ao meu quarto para que lhe devolvesse a cassete. Disse-lhe que lha entregaria de manha. Só que eu levantei-me mais cedo e mudei de pensão. Era das mais modestas da cidade onde não eram pedidos elementos de identificação pessoais.




De facto, Amália tinha razão: ela já não confiava em mim nem no próprio gravador: terá pensado que, além da cassete, ele esconderia algum segredo. Estava muito desconfiada. E realmente já não havia apenas um registo mas dois: o da entrevista, de que ela se arrependeu e depois os lamentos dela, as suas justificações, durante vários minutos. Foi então que me voltou apanhar o gravador: "Você não leva o gravador!!!... Vá à sua vida que não leva o gravador!!... A mim não me engana!!..." Bom, nisto o grupo (que até aí se manteve indiferente junto à janela) pára de conversar e faz-se um silêncio sepulcral na sala... Já só se ouve então a Amália a dizer, meia arreliada: "Você não leva o gravador! Vá à sua vida!.."e eu a pedir-lhe, insistentemente, que mo devolvesse. E a Maluda, que já tinha olhado várias vezes para nós e parecia algo desconfiada de que havia por ali gato, pergunta, com voz alterada e meia zangada: "Amália!... o que se passa?!!...O que é que esse gajo te quer fazer?!....Eu já corro com ele!!!.. ...Já trato dele!!.."

Vendo a ameaça iminente da presença da Maluda, seguida pelo grupo, e quando ela lhe responde. "Eu disse umas coisas parvas e não quero que ele leve o gravador!.. Ele não vai levar o gravador!...Não vai levar o gravador!... quero que ele se vá já embora!" Pois bem, aproveitando então o instante em que ela olha em direcção à Maluda, sim, apanhando-a distraída, tiro-lho o gravador e desato a fugir escada abaixo.

Numa grande noite do fado, ao passar frente ao camarim, nos bastidores do Coliseu dos Recreios, ela viu-me: "Mas o que é que você anda para aqui a fazer?!!..." - Tive que me escapar imediatamente dali, antes que fizesse algum escândalo. Mais tarde fizemos as pazes: foi no lançamento do livro de Victor Pavão - "Uma Estranha forma de vida", que decorreu na Adega Machado. Autografou-me o livro e deu-me um beijinho muito querido. Depois pousou expressamente para mim, à frente do retrato da Severa – Obrigado Amália Rodrigues  por tão belo momento, cuja foto guardo como um relicário. Também fazia anos em Julho e era do signo Leão, tal como a Bethe. Já vi que cada biógrafo apresenta a sua data, mas creio que você me disse que fazia anos no dia 26 de Julho. Mas também já não estou bem certo...

Adorava ter sido seu conselheiro. Vi que tinha um fraquinho pela astrologia. E eu também sou um curioso dessas questões. Pois ainda falámos sobre o assunto. Fui o Rasputin de várias damas que me foram apresentadas pela bethe - a russa Ludmila, no Ritz, é que me catalogou desse alcunha. Elas queriam mais alguma coisa: que eu fizesse feitiços aos maridos... pelas mais diversas razões. Mas era consigo que eu me teria sentido um príncipe numa corte real. E olhe que gostaria apenas de ter estado no papel de um mero pajem ou animador de convívios. Marimbar-me-ia para o resto. Mesmo já com a idade que tinha. Sim, não era o sexo... Mas a presença fascinante da sua personalidade!... Nunca mais no mundo vai aparecer figura igual!.

Amália tinha também o seu lado de vespa quando subia aos arames... Que eu dei-me conta disso... Zangada era como uma leoa da selva... Mas, no fundo, ela era mesmo a grande diva: não apenas do fado mas como pessoa. Fora bela, sorridente e escultural, quando nova. E, mesmo quando os anos já avançavam, até parecia que nada nela havia mudado: mais ainda: firmara-se no seu rosto, no seu inigualável perfil, o sorriso, a expressão, o olhar entre o alegre e o triste, a candura e a natural beleza, tal como o escultor que eterniza o instante mais nobre e magnífico do busto de uma rainha ou de uma princesa.

Muito determinada e senhora do seu querer e das suas ideias. Era forte como uma padeira de Aljubarrota mas ao mesmo tempo tão frágil como a flor mais bela de um maravilhoso jardim. Esse é o tipo de mulheres que eu sempre mais admirei. Paradoxalmente, em vez de serem os seus namorados a perderem a cabeça por ela, afinal foi a Amália que chegou quase a suicidar-se por um deles...- E tanta vida ainda à sua frente!... - E logo num primeiro embeiçado!...Ele não merecia tão alto suplício, como, de resto, ela reconheceu. Que desastre, mais fatídico, não teria sido para ela, para o fado e para todos quantos ainda hoje a veneram e admiram!... Espero, todavia, que, quando reencarnar e decida cá voltar à companhia dos terrenos, para uma nova fase evolutiva, tenha aprendido melhor a lição...

Na verdade, a sua vida foi mesmo "Uma estranha forma de vida" - Mas que o destino felizmente soube preservar: "cantarei o fado até que a voz me doa" . E, de facto, só a morte lhe calou a voz mas não a memória e a fabulosa herança dos fados que nos legou.

Os milhões que a adoram e a continuam a idolatrar têm razão, porque ela era inimitável.. O seu nome e a sua voz, agora continuam ligados a uma estação de Rádio – A Rádio Amália,  em tão boa hora, lhe dedicaram. Ela partiu mas a sua voz é eterna. Não está connosco fisicamente mas eu estou receptivo às comunicações do seu espírito, quando ela quiser....Quando me apanhar, naquelas noites, lá pelos penhascos da minha aldeia, dialogue comigo, minha alma querida!

Repito o que disse: conservo a gravação mas até hoje nunca a divulguei e, por enquanto, não o tenciono fazer, por respeito à sua memória. Pessoalmente não vejo que me declarasse algo de especial ou de escandaloso. Ela mudou, porém, de opinião, que eu respeitei. Se um dia revelar alguma coisa - parcial ou totalmente, será todavia neste site - Mas nunca aquilo que eu considero que ela não gostaria que fosse além da sua intimidade.
.
Foto do autor deste site

David Mourão-Ferreira E O SEU FILHO JOÃO DAVID -  LANÇAMENTO DO LIVRO "UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA"
O POETA E ESCRITOR FEZ APRESENTAÇÃO DA OBRA E DISSE PALAVRAS MUITO BONITAS SOBRE O SORRISO E A VOZ DA AMÁLIA - EXISTE UM VÍDEO EDITADO NO YOUTUBE Amália Lançamento do livro estranha forma de vida

AMÁLIA É O HETERÓNIMO DE PORTUGAL - DISSE O POETA

"Este é o livro do sorriso da Amália. Eu creio que se podia fazer um estudo sobre o sorriso da Amália. Porque, o sorriso de Amália exprime, simultaneamente, o que em nós há de sorridente e de triste. Porque, mesmo por baixo do não sorriso, vislumbramos dentro, o sorriso que tem sido como a voz , evidentemente, e com todo o fascínio da sua presença, um dos grande segredos do mito que é a Amália, do milagre que é a Amália e da grande sorte de todos nós sermos seus contemporâneos"

"Este livro leva-nos até à infância de Amália. Revive os lugares, as pessoas e, sobretudo, é um documento indispensável para compreendermos precisamente o seu extraordinário percurso"

"Falar de Portugal ou dizer português em qualquer parte do mundo é imediatamente ouvirmos como um eco o nome de Amália. Eu já disse uma vez que Amália é um heterónimo de Portugal" - David Mourão Ferreira





 f

domingo, 23 de setembro de 2018

Hoje, celebrámos o Equinócio do Outono, 23 de Setembro 2018, nos Templos do sol, aldeia de Chãs, de Foz Côa, numa manhã, que mais parecia ser do Verão que se despede de que do Outono, que entra, com belos poemas de vários poetas

Jorge Trabulo Marques - Jornalista, foto-jornalista, investigador e coordenado deste evento - Autor da descobertas dos vários alinhamentos aqui existentes. - Ainda temos mais vídeos por editar - Mas para se inteirar melhor do estudo cientifico deste lugar e da biografia dos poetas, que hoje distinguimos, consulte também as duas postagens anteriores 

O maciço dos Tambores, a curta distância da aldeia de Chãs, de Vila Nova de Foz Côa, foi uma vez mais o cenário evocativo para assinalar a celebração do Equinócio do Outono Em cerimónia simples, mas de expressivo simbolismo, pendor místico e histórico, frente ao portal do antigo altar sacrificial do santuário rupestre, conhecido por Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, com belos momentos de poesia, bem-dizendo e festejando os dias da estação mais nostálgica do ano 

– Com amável e  simpática colaboração de um grupo de amigos, numa cerimónia simples mas plena de brilho e de luz, num misto de poesia e de caloroso misticismo, demos as boas-vindas à entrada do Outono, numa manhã radiosa e quente, que mais parecia ser do Verão, que agora se despede, que do Outono, que hoje entrou – Justamente, no dia em que, a luz se reparte com a das trevas, em que o dia e noite, tem aproximadamente a mesma duração de 12 horas, o que só sucede, e durante todo o ano, na linha do Equador


CELEBRÁMOS O EQUINÓCIO DO OUTONO, COM A LEITURA DE VÁRIOS POETAS, NUMA MANHÃ ESPLENDOROSA DE  SOL  - Com poemas de Manuel Daniel, natural de Meda, concelho limítrofe ao de Foz Côa, assim como de mais três poetas, aqui nados e criados, Hamilton Tavares,  Jorge Maximino e José Augusto Margarido – E lembrámos também a poesia, alusiva ao sol e à estação outonal, ao mítico,  Amenófis IV; John Keats; Rosalía de Castro, Gomes, Leal, Fernanda de Castro, Manuel Alegre, Dom Manuel dos Santos, Bispo da Diocese de STP, Assunção Carqueja e do jovem Henrique Tigo




Esta é a  estação marcada por migrações de animais e pelas colheitas e o cair da folha de muitas árvores, recebemo-la hoje no recinto amuralhado do Santuário Sacrificial da Pedra da Cabeleira, localizado numa zona castreja em Chãs, concelho de Vila Nova de Foz Côa.

O enorme penedo está orientado no sentido nascente-poente e possui uma gruta em forma de semi-arco, com cerca da 4,5 metros de comprimento, que é iluminada no seu eixo no momento em que o Sol se ergue no horizonte, proporcionando uma imagem invulgar

Castro do Curral da Pedra
Está situado no lugar de Quebradas-Tambores, num rochoso planalto sobre o Vale da Ribeira de Piscos, em cujo curso se situam alguns dos principais núcleos de gravuras rupestres classificados como Património da Humanidade. Mas o fenómeno poderá começar a ser visto de véspera, a 21, Domingo – Oportunidade excelente para principiar bem um santo dia. Num local agreste mas encantador - Longe do habitual bulício urbano, em perfeita comunhão com a Natureza e com os olhos postos numa das mais belas imagens solares!!

Alcandorado na vertente do afloramento granítico, e num ponto predominante, existe ainda um outro calendário pré-histórico, conhecido pela Pedra do Sol, apontado ao pôr-do-sol do dia maior do ano. onde decorrem as celebrações do Solstício do Verão, já consideradas como o Stonehenge português.A primeira referência ao Santuário Rupestre da Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora. foi feita por Adriano Vasco Rodrigues, no seu estudo publicado em 1982, sobre a História Remota de Meda., que o classificou como local de culto ou de sacrifícios.




O POETA PORTUGUÊS QUE AQUI ERGUEU OS BRAÇOS AOS CÉUS E SE VOLVEU PARA OS QUATRO QUADRANTES DA TERRA, UM MÊS ANTES DA SUA MORTE – “COMO QUE ANTEVENDO E APONTANDO O NOVO CAMINHO QUE DEUS LHE DEU “ O EQUINÓCIO DO OUTONO 23-09-2018, NOS TEMPLOS DO SOL, FOI TAMBÉM CELEBRADO NO PEQUENO ALTAR DOS POETAS, onde o escritor, jornalista e poeta, Fernando Assis Pacheco, em Outubro de 1995, ali se elevou com os braços erguidos aos quatro quadrantes, como que antevendo que no mês seguinte se ia despedir do último Outono da sua vida, tendo ali pronunciado as palavras de um antigo código egípcio: Grande Foco! Vida do Universo! Força Criadora!- Que eu previamente havia sugerido
Princípio divino que declara que as leis do Universo são naturais e imutáveis, devem ser seguidas com naturalidade e harmonia para que o espírito se enriqueça e ilumine e que a essas leis supremas, tudo se transforma e nada escapa.
-Mais tarde, em 2001, quando ali descobri os alinhamentos solares com o nascer e pôr-do-sol, no ciclo das estações do ano, batizei a dita pedra de Pedra dos Poetas, elegendo o caprichoso altar como um local de peregrinação e evocação poética, tendo passado ali a ler poemas alusivos ao sol e às estações do ano ou ao espírito sensível dos inspirados pela Natureza ou pelas Musas


POEMA DE UMA CRIANÇA SANTOMENSE  - "AMANHÃ SEREI HOMEM" -  - “LUTAR COM PAZ PARA VIVER EM PAZ/ PARA ACABAR COM A FOME! A MISÉRIA” - MAS LUTAR SEM ARMAS” –  SINGELO TRIBUTO ÀS CRIANÇAS DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE  - - 
Este um dos poemas, que lemos  no Altar da Pedra dos Poetas, na Celebração do Equinócio do Outono, na sequência da cerimónia que teve inicio no Santuário da Pedra da Cabeleira de Nª Senhora, ilustrado com imagens que registei há 4 anos, em S. Tomé, com  sons musicais destas maravilhosas Ilhas Verdes do Equador

Extraído da “ANTOLOGIA POÉTICA JUVENIL DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE COORDENAÇÃO DE ANTÓNIO PINTO RODRIGUES
APRECIAÇÃO LITERÁRIA DE JOSÉ PALLA E CARMO

70% das crianças são afetadas pela pobreza e falta de proteção social" – Conclui relatório da UNICEF, que frisa que mais de 70% das crianças santomenses são pobres. – A que me referi no dia mundial da criança no passado dia 1 de Junho


SÃO TOMÉ ONDE A ESPERANÇA TARDA A APARECER, MAS TEM DE FLORESCER NUMA QUALQUER MANHÃ RADIOSA, UNIDOS COM O SORRISO DE DEUS, AO VOSSO BISPO D. MANUEL DOS SANTOS, COM O ESPÍRITO E AS PRECES DO GENEROSO E PACIFICO MAS TÃO SACRIFICADO E REPRIMIDO POVO DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE. –



O SORRISO DE DEUS

Na manhã que se levanta com o sol que nasce,
Descubro o sorriso de Deus!
E um sentimento de amado por mim perpassa,
Contemplando os Céus!

(….)Louvado. Senhor, pela beleza, desbordante
Com que pintais a madrugada!
Louvado sejais, pela vida exuberante,
Que brota da terra regada!

Excertos - Do Livro : Momentos de Verde e Mar
São Tomé, 11 de Março de 2009



“O MAR DA MINHA TERRA É DE GRANITO” – Diz o poeta, escritor, dramaturgo, jornalista e advogado,  Manuel Daniel, natural de Meda, mas que , depois de ter peregrinado por várias partes do pais, dedicado à causa pública, em Pombal, S. João da Pesqueira, Reguengos de Monsaraz, Guarda, nas tesourarias e repartições de Finanças,   acabaria por  se fixar em Vila Nova de Foz Côa, a cuja cidade se entregaria com grande amor e paixão, como se fosse terra sua, tendo aqui exercido, a par do trabalho da advocacia e do jornalismo e  de um intenso gosto pela literatura, que desde bem cedo cultivou, com vários livros publicados nos diferentes géneros literários.

Pedro Daniel  - filho de Manuel Daniel 
MANUEL DANIEL - HOJE OS OLHOS DO POETA JÁ NÃO PODEM CONTEMPLAR A LUZ DO DIA  - ESTÁ COMPLETAMENTE CEGO   - 

Mas nós não o esquecemos de, uma vez mais, ali lermos, com muito gosto,  versos de sua autoria, justamente  no pequeno altar dos poetas, onde, no solsticio de Junho de  2011, ali ergueu a sua voz para se associar  à evocação   do poeta Fernando Assis Pacheco

Sim,  foi sobre aquela caprichosa pedra, que, o  jornalista e escritor português, um mês antes da sua morte, ali ergueu os braços, como expressão da sua alegria a estes sagrados e encantadores lugares, nomeadamente, depois de ter andando anichado no interior da gruta da Pedra da Cabeleira de Nº Sra, que, naquela altura, embora  já classificada pelo investigador e professor,  Adriano Vasco Rodrigues, como local de culto ou de sacrifícios,  ainda se desconhecia de que era também um fantástico calendário pré-histórico.


Manuel Daniel, compreendendo a importância do poeta, quis dar-nos o prazer de se associar à singela homenagem, três anos depois, de ali termos contado  com a presença dos dois filhos do poeta e de  de Maria do Rosário Pinto Ruella Ramos - mulher do falecido

EIS A RAZÃO PELA QUAL O POETA  FERNANDO ASSIS PACHECO, ALI ERGUEU OS BRAÇOS NOS  QUATRO QUADRANTES DA TERRA 

solstício 2008
Ao regressarmos  do  Castro do Curral da Pedra, e, vendo-o no seu rosto, um tal encantamento , sugeri-lhe para erguer os braços numa pedra, em forma de altar que estava ali junto a um dos muros da área castreja. Era Outubro, com o outono, já matizar as folhas de mil aguarelas ou mesmo já a desprende-las – Curiosamente, um mês depois, despedir-se-ia da vida para sempre


DESLOCOU-SE  AO LUGAR DOS TAMBORES – Um mês antes da sua partida para a Eternidade


Foi em Outubro de 1995. Estava-se em plena polémica das gravuras. Encontrei-o a meio da tarde desse dia, em Foz Côa, e já de regresso do Vale do Côa, para onde fora destacado, em reportagem, pela revista Visão. Embora visivelmente cansado da jornada, saudou-me com um ar de muita satisfação e alegria, parecendo não dar por perdido o esforço da sua missão, cujo contentamento acentuou ainda mais quando me perguntou se eu era daqui. Respondi-lhe que era natural de uma aldeia que também tinha bonitas gravuras, no seu termo, as da Quinta da Barca, junto ao Côa, e uma fragas muito curiosas, nas proximidades, que gostaria que visitasse.


Junho 2008  - Rosa Ruella - Filha  de Fernando Assis Pacheco 
A PEDRA DA CABELEIRA - QUE ELE VISITOU – JÁ ERA  UM ANTIGO LOCAL DE PEREGRINAÇÃO DA ALDEIA E ATÉ ESTUDADO  - MAS LONGE DE SE SABER QUE ERA TAMBÉM UM  ANTIQUÍSSIMO CALENDÁRIO ASTRONÓMICO  - ATRAVESSADA PELO SOL NOS EQUINÓCIOS.

.E foi então que, acendendo amavelmente ao meu convite, surgiu a oportunidade de se deslocar, com o repórter fotográfico, José Oliveira, até à Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, bem como a outros locais da área, que o deixariam verdadeiramente encantado, tendo mesmo prometido ali voltar! – E longe ainda de se saber que existiam os tais fenómenos solares, que, mais tarde, eu pessoalmente haveria de descobrir E muito menos de se imaginar que esta seria a sua despedida para sempre?
JÁ SE HAVIA POSTO O SOL QUANDO DALI SAÍAMOS - E também já estava a fazer-se demasiado tarde para a longa viagem que tinham pela frente, até Lisboa. Ao vê-lo tão feliz , quando descíamos do alto do Castro do Curral da Pedra, onde se avista uma panorâmica, de raro alcance e beleza, e ao passarmos junto a uma pedra que parecia quase um pequeno altar, disse-lhe: Olha, Fernando! Já que vais tão contente, sobe para aquela pedra e agradece ali aos deuses que aqui foram adorados, pelos antigos povos; agradece-lhe a tua vinda aqui! E assim fez, irradiando uma enorme alegria, abrindo espontaneamente os braços aos céus, num largo e expressivo sorriso, voltando-se em várias posições para com os quadrantes da Terra e repetindo umas palavrinhas que, em jeito de evocação, eu lhe dissera. A última das quais foi com a mão esquerda estendida ao longo do corpo e a direita apontando para onde se havia posto o sol! – Hoje quando revejo essa imagem só penso numa coisa: que aquela direcção para onde ele então apontava, só poderia estar já a indicar-lhe o caminho da eternidade!... O caminho dos deuses! Como não tinha película na máquina, pedi um rolo emprestado ao José Oliveira. Ele foi ainda mais generoso, registou o momento e deu-me o negativo.




A MORTE UM MÊS DEPOIS - Um mês depois, e justamente quando dali regressava a casa, ao ligar o rádio, qual não é o meu espanto e a minha tristeza quando ouço a notícia da sua morte, que o surpreendeu com uma mão cheia de livros à saída da livraria Bucholz, em Lisboa.

Foi a 30 de Novembro, aos 58 anos .No dia seguinte dirigi-me à mesma pedra e, com ajuda de um pequeno cinzel, fixei, dentro de um pequeno triângulo, as iniciais do seu nome, como singela homenagem à sua memória. Depois disso, já por lá passei muitas vezes, e, sempre que por ali passo, não deixo de o imaginar lá, com a mesma postura e expressando aquele seu largo sorriso aberto, que, aliás, lhe era tão familiar e que os seus entes queridos e muitos amigos, dificilmente esquecerão.



Imagem de José Oliveira -Fotógrafo da Visão - a Fernando Assis Pacheco

.Olá Fernando! ainda te vejo
Ali a sorrir e abrir os teus braços!


Na verdade, sempre que por ali vagueio,
por aqueles ermos lugares da minha aldeia,
não deixo de me lembrar de ti,
como se estivesse
ainda a ver-te abrir os braços aos céus,
coroados por aquele teu largo sorriso,
que te era tão pessoal, tão genuíno e tão teu!

Olhando à volta, ainda lá vejo recortado
o teu vulto, como que projectado
na linha do sol posto,
recortado com um perfil humano
por todo o espaço!
Vejo-te ainda com uma das mãos,
estendida ao longo do corpo
e, com a outra, apontada ao crepúsculo
com aquele olhar compenetrado,
como se quisesses descortinar
o que haveria para lá da mancha doirada
e rosácea, que se estendia acima do horizonte,
ao longo da extensa cordilheira dos montes,
e no sentido de sul para norte,
muito para lá do vale e da sinuosa linha,
onde o sol, momentos antes, se havia despedido
daquele nostálgico fim de tarde outonal.
Ao qual tu agora te rendias, plantado
no centro daquela pedra,
num gesto tão aberto, num esgar
tão vigoroso e arrebatado!…
- Oh ímpetos incontrolados da alma!
Oh misteriosos delírios de luz!
Oh trágicos prenúncios, inesperados símbolos da vida! –
Não era quereres respirar a pureza daqueles largos ares
ou sentires a emoção da plenitude da sua beleza
- oh misteriosas alturas! - mas tocares,
bem de perto, com o teu peito, o teu coração
e as tuas mãos, os místicos confins do Cosmos,
as maravilhas, os enigmas do Infinito!


2008 - João Canto e Castro
Como se já intuísses ou adivinhasses
através dos teus versos proféticos
- ó poeta do “OS ÚLTIMOS DESEJOS”,
cujo repto há muito havias lançado -
que o verdadeiro caminho que te esperava,
Era “ voar como os Anjos”
Seguires em frente, a poente - além
do vasto e esmorecido horizonte…

E, talvez, tomasse então a via
onde o sol se havia escondido,
instantes antes, suave,
nostálgico, chamejante e triste….
Naquela direcção, entre os quatro pontos,
onde estendeste a mão e mais te fixaste,…
E que ali se abria, escancarava,
tão amplamente e tão misteriosa,
ao teu olhar rendido e emocionado,
como se, de facto, aquela via
fosse a grande estrada, premonitório,
que, ali, já previamente, traçavas
a caminho da indecifrável eternidade!


Maria do Rosário Pinto Ruella Ramos - mulher do falecido poeta e os seus dois filhos:João Ruella Ramos Assis Pacheco; Rosa Ruella Ramos Assis Pacheco - num convívio com a população local, que teve lugar após a

celebração do solstício e a cerimónia de homenagem a Fernando Assis Pacheco.

Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra, Portugal, em 1935. Faleceu em Lisboa, a 30 de Novembro de 1935  - Jornalista, critico, tradutor e escritor  

 Estreou em 1963 com o livro Cuidar dos vivos, cujo título define, desde a primeira capa, toda uma atitude frente à tradição e o trabalho poético, e é considerado por muitos um livro-marco daquela década na poesia portuguesa.


 Licenciado em Filologia Germânica, esteve ligado aos grupos teatrais académicos durante os seus estudos universitários, em Coimbra. Após um período de mobilização na guerra colonial, em Angola, enveredou pelo jornalismo, estreando-se no Diário de Lisboa, em 1965. Colaborou em publicações literárias e em vários jornais, como o República, O Jornal, o Se7e, o Jornal de Letras (de que também foi redactor) e o Record. Era, à altura da sua morte, redactor da Visão. Participou, ainda, em programas de rádio e televisão, foi autor de poemas musicados por compositores portugueses e de textos e diálogos para documentários e filmes. Dedicou-se também à tradução. Como escritor, Assis Pacheco não esteve ligado a qualquer escola literária. Os seus textos, ao mesmo tempo que reflectem um esforço de pesquisa e experimentalismo na língua portuguesa, são fortemente marcados por uma intenção de crítica social e pela experiência da guerra colonial portuguesa. Publicou, durante muito tempo, pequenas tiragens em edição de autor, com os títulos A Profissão Dominante (1982), Nausicaah! (1984) e A Bela do Bairro e Outros Poemas (1986), o que não impediu a imposição do seu nome na moderna literatura portuguesa. Estreou-se com o volume de poesia Cuidar dos Vivos (1963), a que se seguiram Câu Kiên, um Resumo (1972, título vietnamita com o qual pretendia iludir a censura salazarista e que saiu, em 1976, como Catalabanza Quilo e Volta), Viagens na Minha Guerra (1972), Siquer Este Refúgio (1976), Memórias do Contencioso (1976), Variações em Sousa (1987) e Musa Irregular (1991). Na ficção em prosa, foi autor de Walt (1978) e do romance Paixões e Trabalhos de Benito Prada (1993) – Mais pormenores em https://www.escritas.org/pt/bio/fernando-assis-pacheco E também em  https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Assis_Pacheco



AMÁVEIS  ESTES SAGRADOS LUGARES QUE ME GERARAM E CRIARAM





Temos mais vídeos e imagens por editar, que, por razões técnicas, neste momento não o podemos fazer